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terça-feira, 19 de julho de 2016

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES - Malévola

Naquele dia ela estava especialmente linda, não sei se era a maneira como tinha prendido o cabelo, a roupa ou simplesmente aquele sorriso. Eu via, ali na minha frente, aquela menina da época da faculdade, com carinha marota, transformada em algo que não sei com certeza explicar. Talvez uma bela mulher, cheia de classe, personalidade e encanto contrastando com uma loba que espreita, a todo momento, sua presa para dar o bote. Malena era um paradoxo. 

Fomos jantar com nossas esposas para comemorar uma meta alcançada, eu e meu sócio Fernando, marido de Malena. Sim, a minha Malena. O jantar corria sem grandes atropelos, afinal, éramos todos colegas da faculdade. Nice, minha mulher, também tinha sido nossa contemporânea, logo, assunto nunca iria faltar em tantos anos de amizade, sociedade e, quem dera, cumplicidade. 
Eu não conseguia desviar o olhar de Malena, assim como notava que ela, ao perceber, também se fazia mais presente e delicadamente se insinuava, seja passando a língua nos lábios para tirar uma pequenina gota de vinho ou para se servir de algo na mesa em uma posição que eu via, nitidamente, o contorno dos seus seios através do decote.   

Ela não valia nada..., valia sim, e muito.

Em 20 anos de convivência como casais isso nunca havia acontecido e eu, para camuflar uma ereção que teimava em não ceder, puxava assuntos desinteressantes e principalmente trágicos para disfarçar meu nervosismo naquele momento. Ela sem dúvida percebia e, com uma cara de cínica, dizia que eu estava muito negativo, pra baixo, que a humanidade podia ter jeito e que para TUDO existia uma solução. Safada. Eu precisava resolver aquela situação que ultrapassava a pressão psicológica e já estava, fisicamente, incomodando. Observei onde era o banheiro. Precisava rapidamente sair de cena e assim o fiz. 

O banheiro possuía duas cabines e logo me tranquei em uma. Tremia tanto e mal conseguia abrir o cinto, quando ouvi o bater da porta principal. Alguém balbuciava meu nome. Reconheci aquela voz. Ela foi até onde eu estava e pediu que eu saísse, que estávamos a sós e trancados. Eu não acreditava. Ela insistia. Eu sofria.

Cedi. No mesmo golpe que abri a porta, já a puxei contra o meu corpo. Sentia cheiro de jasmim e tesão, aquela boca doce de fel e a maciez daquela pele que começava a esquentar e me enlouquecer.  Ela abria minha calça, e me beijava. Parecia que estávamos no WC da faculdade onde ela me empurrava para aqueles buracos e ali fazíamos tudo, engolindo os gemidos roucos e loucos da época. 

Arranquei sua calcinha e a sentei no balcão da pia. Transamos ali mesmo como dois animais sedentos, o que de fato éramos. Gozei como um menino na sua primeira noite com uma mulher da vida. 

Malena pegou sua bolsa, calçou seus sapatos altíssimos, retocou a maquiagem e, olhando nos meus olhos, disse que queria muito mais, e que eu não precisava responder nada naquele momento, bastava acreditar que não estávamos errados, colocou aquela minúscula calcinha no meu bolso. 

Ao retornar à mesa ela estava só e me disse que Fernando e Nice tinham ido à adega, escolher a próxima garrafa. Malena já era a esposa de Fernando. Quando os dois voltaram, notei o batom de Nice borrado e Fernando sujo. Malena fez a cara da minha Malena, e passou seu pé, por baixo da mesa, na minha perna. Olhei nos seus olhos e disse: Malévola

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Toda beleza será castigada

Chamaram Vera Fischer de feia. Sim, Vera Fisher, aquela de “Riacho Doce”, a Helena do Leblon de Manoel Carlos, que em 1969 foi Miss Brasil. Duas vezes capa da Playboy, sendo a última aos 48 anos, dois prêmios de melhor atriz no cinema. Pois é, fim dos tempos. Vera foi chamada de feia.

Penso que foi assim. Um dia Vera acordou atrasada para uma viagem. Levantou correndo, tomou um banho rápido e pensou: seco o cabelo ou tomo um café? Preferiu o café. Pegou sua bolsa e correu para o aeroporto. Chegando lá, uma pessoa que provavelmente não teve uma noite muito boa, fez uma foto da mulher atrasada para seu voo, sem escova e sem se preocupar com isso e postou nas redes sociais. Aí, outra pessoa que deveria ser muito amarga e que não tinha nada de interessante para fazer na vida, pegou essa foto e juntou com outra de 40 anos atrás e postou na internet querendo fazer acreditar que beleza e juventude deveriam ser para sempre. Não é fácil a vida de miss...
Mas Vera não está feia, ela está envelhecendo. Ela, eu, você, Alain Delon e Robert Redford também, menos Bruna Lombardi por razões nunca relatadas na literatura médica desse mundo. Por que se tem uma coisa justa nesse mundo, se chama tempo. Passa igualzinho para todo mundo e eu acredito que na vida, envelhecer é sempre a melhor opção.

Ela saiu para pegar um avião, não para ir a uma festa ou para um compromisso de trabalho. Não para ser fotografada. Vamos parar com esse bullying, meu povo! Mais respeito com o mito que permeou devaneios febris em uma nação!
Vera era linda aos 20 anos, aos 30, aos 40 e aos cinquenta, mas como tudo na vida muda, Vera também mudou seus valores. Agora, no auge dos seus 64 anos, já não tem memória para lembrar tantos nomes complicados. 

Lipocavicação, criolipóse, trusculpt, liposonixk, magic touch detox... Tudo muito difícil, né? Aos 64 é melhor deixar para lá. E além do mais, ninguém consegue levar uma vida inteira de glamour, bronzeamento artificial e peito de frango com alface. 

Mulher de dois grandes amores e tantas polêmicas, um dos maiores símbolos sexuais do Brasil se deu ao direito de relaxar, curtir um pouco sua menopausa e um bom prato de massa. Depois de toda uma vida de sedução, quanta sedução, meu Deus! Cansou. Trocou o espumante pelo delicioso milk shake de Ovomaltine, do grande. Hoje come pão. Branco sim, francês e está pouco se importando com o glúten. Vera trocou o príncipe encantado pela Netflix. Descobriu que pode ser feliz com coca-cola, pipoca, “Orange is the new black” e “Black Mirror”. Sabida, a senhora. Demorou, mas amadureceu.

Vera engordou, e daí? Quem aguenta tanto cottage e rúcula? É isso aí, Vera! A vida é aqui e agora! Você foi miss e nunca vai perder a coroa. Hoje você pode aposentar O Pequeno Príncipe e mandar se danar essas pessoas que exigem que você esteja impecável aos 64, quando nunca tiveram 60 de cintura ou 90 de quadril. Tenho muita pena dessas pessoas que passam o dia tomando whey e acreditam que uma barriga chapada e uma bunda empinada seja o maior atrativo de uma mulher. Viva Vera, que aprendeu que uma xícara de café quentinho e um pão na chapa valem muito mais que uma chapinha.

quarta-feira, 2 de março de 2016

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Rolêzim do jazz tumultua 25 de março


Mais de 500 fãs de jazz causaram confusão semana passada na rua 25 de Março, em São Paulo. O chamado “rolêzim do jazz” foi convocado por Enrico “Jazzeiro” Stronzo, via rede social – mas só pelo Google Plus, para evitar gente diferenciada. O tradicional centro de compras foi tomado de assalto pelos jazzeiros, que passaram o tempo todo tocando Ornette “Genius” Coleman na maior altura possível. 

Injuriados, os freqüentadores resolveram chamar a polícia para resolver a encrenca. “Aí, mano, ninguém agueeenta iiisso, tá ligado?”, reclamou Mano Bronha, um dos freqüentadores do aprazível shopping a céu aberto. “A polícia teeeem que descer a borraaaacha, tá ligado?”, acrescentou ele, antes de ser devidamente acertado por um policial que estava passando e aproveitou a oportunidade. 

Além de Ornette “Genius” Colleman, os jazzeiros prosseguiram a zoeira com John “Suave” Coltrane, Charlie “The bird” Parker, Miles “Hysterical” Davis e Hermeto “Sem Noção” Pascoal. Depois disso, eles fizeram uma correria na 25 de Março cantando músicas de Billie “Gemidinho” Holiday. A polícia entrou em cena e desceu o cacete em todo mundo, inclusive nos donos das lojas. Quando faltou gente pra bater, os bravos defensores da lei espancaram uns aos outros.

Todos os amantes do jazz levaram bordoadas. Mesmo os que gostam do The Modern Jazz Quartet. Por isso, a ação destemperada da polícia provocou a ira dos movimentos sociais, que acusou a 25 de Março de apartheid social. “É um absurdo discriminar pessoas só porque elas gostam de jazz!”, declarou a socióloga Valdirene “Che Guevara” Charlene. “Se fosse blues, tudo bem.” Um PM fã de blues não gostou e sentou a borracha nela.

Foi aí que, em solidariedade à socióloga, vários movimentos sociais prometeram “rolêzins” para esta semana. Entre eles estão o Movimento dos Aviadores Sem Teto (MAST), o Movimento dos EX-BBBs Sem Espaço da Mídia (MEXBBBSEM), o Movimento das Patricinhas de Shopping (MPS), o Movimento Ateu Materialista Nossa Senhora das Graças (MAMNSG) e o Movimento das Trabalhadoras Sem-Terra Pró Topless em Ipanema (MSSTGPTHGJWARH). 

Já o Movimento Antissocial dos Poetas Concretos (MAPC) convocou um “rolêzim”, mas acabou desistindo. O poeta Oraldo Grunhevaldo explicou que eles pretendiam sair gritando “noigrandes, ê, noigrandes!” no Shopping Iguatemi Aricanduva, mas faltaram adesões. “Só tem dois poetas concretos no país: eu e o Arnaldantunes. E ele estava fazendo show...”, explicou Grunhevaldo que mesmo assim não escapou de levar porrada de um policial que estava perto.

Mas o maior e mais esperado “rolêzim” é do Opinionismo Ostentação. Milhares de blogueiros, tuiteiros, facebooketeiros, jornalistas e acadêmicos prometem sair pelo Shopping Tatuapé JK fazendo correria e dando opinião sobre tudo. “A gente entende de política, periferia, funk, apartheid, civilidade, democracia, zoeira e o escambau, tá ligado?”, declarou o líder do movimento, Ordinelson “Opionista” Peçanha. “A gente gosta de ostentar opinião, tá ligado?” Um PM ia passando e desceu a borracha nele. Nesse caso, todo mundo achou bem feito.

quinta-feira, 19 de março de 2015

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: A Seca Pós Apocalíptica

Hoje acordei com um sentimento estranho otimista sobre a falta d`água em São Paulo. O que vai realmente acontecer quando a torneira não pingar nos Jardins? Em curto prazo, quem sobreviver aos hospitais sem água, verá florescer uma loucura e pânico de certa forma divertidos. Muitos fugirão para suas casas de praia e de campo, enquanto a música e literatura renascerão entre os artistas com a temática seca e inspirarão, quem sabe, um movimento artístico novo: A Secura Pós Apocalíptica.

Para quem fica, as festas vão ser incríveis, como se não houvesse amanhã, porque talvez não haja mesmo. O must have do inverno serão as roupas em vários tons de barro, assim como as maquiagens terrosas. Os cabelos vão ficar ainda mais armados e cheios que nos anos 80, mas dessa vez o aspecto sujo vai ser sexy. 

Quem duvida que nascerão os primeiros humanos movidos a gasolina ao invés de água? Para os mais racionais e providos de amor próprio, a falta de agora pode ser a salvação do futuro. Exigir-se-ão em todos os prédios e casas a captação de água de chuva para uso nas privadas e calçadas. Todas as construções também serão obrigadas a terem tetos verdes que, junto com a prefeitura plantando cerca de 20 milhões de novas árvores, vão ajudar a recuperar a já saudosa garoa paulistana.

As empresas responsáveis pelo abastecimento de água e o governo, ao invés de multarem, serão multados diariamente enquanto não reduzirem de 37% para 7% o desperdício de água em nossas tubulações. Não, não adianta o assunto principal das reuniões de condomínio serem novas vagas de garagem e moradores que não pagam condomínio.

Nem adianta exigir também que tomemos banho de canequinha, enquanto grandes indústrias e plantações desperdiçam rios de água. Quem analisar de forma mais ampla, já percebeu que nossa relação com o meio ambiente já devia ter mudado há pelo menos três décadas e que devemos focar na recuperação de nossos rios ao invés de iniciarmos o esgotamento dos lençóis freáticos.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: A arte de ser ator

Certa vez um primo meu de 17 anos se aproximou e me disse que queria ser ator. Fiquei animado com a perspectiva de termos mais um maluco na família e por isso lhe dei toda a devida atenção. Conforme fomos adentrando a conversa percebi que a visão dele da profissão era a visão que boa parte dos “civis” possui.

Me refiro à visão completamente risível (pra quem é do meio) de que vida de ator é uma vida de glamour, dinheiro e como consequencia disso uma vida sexual incessante. Em dado momento cheguei a fazê-lo a pergunta: “Por que você quer ser ator?” ele disse: “Porque eu quero pegar mulher.”

A resposta que ele deu, para a surpresa de muitos, foi a mesma dada por Marlon Brando quando em começo de carreira lhe foi feita a mesma indagação. Sim, Brando disse que tinha decidido ser ator para “pick up chicks” (“pegar as novinhas” numa tradução mais contemporânea/cafajeste).

Quando meu primo me deu essa resposta me contive mas mesmo assim senti que deixei transparecer julgamento ao respirar fundo e tossir a tosse de desaprovação dos mais experientes. Recobrando a tentativa de não julgá-lo tentei continuar a conversa com a mesma linha de raciocinio do próprio Brando que dizia que logo após tomada a decisão de se dedicar a atuação (se é que essa é uma decisão que se é tomada pois artistas não acordam um dia e decidem “Pô! Acordei com vontade de ser ator...ou músico...ou artista plástico hoje!” porém para todos os propósitos digamos que Brando tenha tomado a decisão de ser ator.

Ele dizia que tinha entrado nessa parada para pegar mulher porém que teria permanecido por ele mesmo. 

No final realmente não importa o motivo pelo qual você começou desde que você descubra as razões que fazem você permanecer na arte. No meio artístico existe um alto índice de pessoas que se viam sem rumo na adolescência ou começo de vida adulta e que acabaram sendo levadas à arte pelos motivos mais triviais possíveis porém se percebe rápido que descobrir a vocação é mais importante do que se descobrir o próprio talento.

Em relação ao meu primo...Tive que dissuadi-lo da percepção do glamour, dos flashes, das capas de revistas e da vida sexual ininterrupta que é imputada (eu culpo os rock stars nisso) sobre nossa área e convencê-lo de que o sucesso vem somente após muito penar e com bons trabalhos sendo feitos constantemente.
Bom, ele ainda quer ser ator pra poder pegar mulher.
O tempo dirá se ele se tornará um Marlon Brando.

Domingos Antonio é ator, pernambucano, mora em São Paulo e começa se enxerir pra escrever.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: LINGERIE E O PÂNICO DE UM HOMEM NUMA LOJA NA HORA DA COMPRA

Se você é homem e tem ou já teve uma companheira, deve saber que nem sempre é fácil comprar um presente. Claro, no começo, dá pra ser criativo e variar bastante, mas chega uma hora em que a gente inventa de fazer algo diferente e, pior, ainda tenta apelar para a sensualidade. Sim, meu amigo, você já sabe do que eu estou falando. Em poucas situações o homem, por natureza abestalhado, é mais panaca do que comprando lingerie para dar de presente. Para começo de conversa, uma coisa tem que ficar clara logo de cara: ser confortável é uma coisa, ser sexy é outra. Dá para ser os dois ao mesmo tempo? Não, porque se cobra tivesse asa, mordia na jugular. Certo, voltando ao assunto. 

Fiquei chocado quando me dei conta, dia desses, que calcinhas de vinil preto cuja parte traseira não passa de uma linha da espessura do meu cílio não são a primeira escolha de uma mulher no seu dia a dia normal. Pois é, eu sei, também fiquei decepcionado, mas quem poderia imaginar? Portanto, se você, homem imbecil, por motivos que desafiam toda a lógica humana, continua decidido a comprar lingerie, tenha em mente qual será o uso dela. Calçolão bege, daqueles abduzidos das gavetas das avós país afora, são perfeitamente aceitáveis no cotidiano e até desejáveis. Se você acha incrível passar oito horas ou mais montada em um salto agulha, experimente fazer isso usando fio-dental. Não, energúmeno, eu não falei literalmente. Vá tirar essa roupa e pare de tirar foto no espelho, os vizinhos não aguentam mais.


Mas então. Você decidiu insistir, caiu no estereótipo do macho teimoso e vai a uma loja especializada comprar a maldita roupa de baixo. Um lugar de bom gosto, elegante, especializado e, claro, cheio de vendedoras. Isso, do sexo feminino mesmo. Um bando extremamente atencioso de mulheres que nem sempre compreendem que a experiência toda pode ser um tanto traumática para um homem, especialmente os mais tímidos. Enquanto você passa pelos cabides, manuseando sutiãs meia taça e camisolas transparentes, e fingindo estar muito à vontade, as assessoras de vendas te acompanham passo a passo, cheias de perguntas pertinentes e sugestões construtivas.

- Moço, é pro dia a dia? Ou pro rala e rola?
- Essa aqui não, fica toda assada, sabe?
- É da normal, de renda ou de comer? Quer ver os sabores?
- Essa aqui é ótima, minha neta comprou uma igual, de vez em quando eu pego emprestada.
- Cuidado, moço, essa daí fica entrando.
- Como ela é? Baixinha? Mais fortinha? Chama Sicrana lá do estoque pra mostrar, que ela é gorda também!
Em uma loja de lingerie, todo diálogo é constrangedor. Todo.
- Essa calcinha é da boa, meu filho. Veja. Pegue. Pode pegar.
- Hmmm... É, é boa sim. Uma beleza. Bom, eu vou ness...
- É nova, sinta o cheiro.
-... oi?
- Novinha, pode sentir. Sinta.
A vendedora sacudia a peça de roupa debaixo do meu nariz, como se eu fosse um cão rastreador da polícia.
- É que tem mulher que experimenta no provador e depois põe de volta, sabe?

Às vezes, também pode ser perigoso. Em um dia no qual acordei particularmente imbecil, resolvi ir atrás de um presente diferente e original. Fui à loja, ensaiei o meu melhor sorriso e abordei a vendedora, uma senhora de óculos com um crucifixo de proporções razoáveis no pescoço. Meu objetivo era levar algo para a minha namorada, tão pequena e magrinha que frequentemente comprava na seção infantil mesmo.

- Bom dia. A senhora tem calcinhas sensuais para crianças?
- SOCORRO! PEDÓFILO!
- Pedófilo? Onde?
- AHHHHHHH, SEGURANÇA!
- Pera... não. A senhora entendeu errado, hahaha, veja que engraç...

Tive tempo apenas de ver um enorme punho agigantando-se em meu campo de visão. Por essas e outras, me recuso a dar lingerie de presente. Até porque, faz tempo que eu decidi que ela é o que menos importa. O recheio é muito mais legal.

terça-feira, 3 de junho de 2014

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Sexto sentido, mundo virtual e o que tem que acontecer

Quando uma mulher disser pra você “eu sou a mulher da sua vida”, repare bem, porque muito provavelmente ela é mesmo. Gabi namorava havia uns 5 anos. Já não era mais aquela coisa de frio na barriga, borboletas no estômago, mas ainda era um namoro, à beira da falência, mas era.

Estudiosa, ela passou em um concurso público e foi logo adicionada ao grupo dos participantes no Facebook. Com poucos integrantes, ficou fácil reparar nas fotos e de cara ela achou o Luiz um gatinho. Luiz que usa óculos para enxergar melhor também reparou na Gabi.  Como é de praxe na etiqueta das mídias sociais, foi um tal de curte post aqui, curte foto ali, parecia até que ele ficava só esperando uma postagem dela pra curtir e fazer-se notado.

Ela notou. Em tempos de paqueras virtuais, muita curtida é tipo ficar piscando nas paqueras de antigamente. E notando ela passou a curtir as postagens dele também. O namoro? Ah, esse agonizava, mas quando o Luiz adicionou a Gabi, ela se retraiu, afinal, tinha lá um tal de “em relacionamento sério”. Passaram-se semanas e Luiz a ponto de desenvolver uma gastrite aguardava uma notificação de “Gabi aceitou o seu pedido de amizade”. 

Finalmente ela aceitou e as conversas passaram a acontecer e de forma frequente. Sabe quando a janelinha azul aparece e seu coração dispara? Então, era assim com eles. Enquanto ela se dividia entre o novo sentimento que nascia e o antigo que morria, ele ajudava a cavar o velho e trazer mais vida para o novo. Conseguiu.


Gabi acabou o namoro, as conversas eram cada vez mais frequentes e cada vez mais voltadas para a paquera, para a exposição do interesse de ambos. Foi quando ela saiu com a sentença: “eu sou a mulher da sua vida!” Ele riu, achou graça. Ela também, mas uma graça cheia de certeza apesar de não saber de onde essa certeza vinha.

Os papos iam, iam, iam, até que cessaram por um tempo. Gabi ficou aflita, coração de mulher sente as coisas. Ela só soube depois, mas a ex-noiva do Luiz o havia procurado. Na única ligação que fez pra Gabi ele insinuou que havia outro alguém por perto. Gabi chorou, mas como seu sexto sentido já havia dito, era ELA a mulher da vida dele, então, era só uma questão de tempo.

Passado o “susto” os papos voltaram, mas enquanto Gabi fazia seu papel de mulher, toda entregue e cheia de certezas se sentimentos, Luiz fazia seu papel de homem, todo pé atrás e cheio de racionalidade (a diferença entre os sexos!).

Decidida, Gabi deu uma bela trollada no Luiz exatamente no dia 01 de abril (o dia da mentira!) e durante uma ligação telefônica soltou que havia voltado para o ex e estavam de casamento marcado. Luiz teve um ataque e pra não ficar viúva antes mesmo de casar Gabi desmentiu e Luiz finalmente se entregou de corpo e alma àquela relação virtual e à distância, mas que só precisava de paciência e vontade pra fazer dar certo.


Quase um ano depois eles finalmente se encontraram no curso de formação da Petrobrás na cidade maravilhosa. E como não poderia deixar de ser, o encontro foi igualmente maravilhoso e Luiz rapidinho tratou de pedir a mão da Gabi em casamento ao pai dela. Hoje eles estão noivos e Gabi sempre diz: “eu avisei que era a mulher da sua vida desde o começo”. Luiz concorda cheio de amor.

segunda-feira, 3 de março de 2014

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: FOLIA NO CONGRESSO

Em tempos de carnaval me pego divagando sobre a patética disputa da GRES. TUCANALHAS x GRES. PETRALHAS pelo MENSALÃO NOTA 10 e por quem desviou mais e quem vai se safar melhor. O brasileiro já mostrou que tem samba no pé. Uns renunciam aos cargos para os quais foram eleitos para concorrerem a cargos de maior poder. Outros renunciam para não serem cassados: acusado de liderar o valerioduto mineiro, o Ex-governador Tucanalha, com condenação a 22 anos de prisão pedida pela Procuradoria Geral da República rebolou e renunciou para preservar sua agremiação, enquanto isso, volta à Câmara... bamba do gingado! 

Me ocorre pensar também numa mais patética apuração de votos... quem sabe ouviremos o Jorge Perlingeiro anunciando os vencedores: 

HARMONIA - PETRALHAS perderam muitos pontos. Julga-se aqui a perfeita igualdade do canto do Samba-Enredo, pelos componentes da Escola, em consonância com o “Puxador” Mas o puxador sustentou que não sabia nem dos dólares na cueca do irmão, e não hesitou até em cortar cabeças de sua comissão de frente pra não balançar seu estandarte. 

CONJUNTO - PETRALHAS E TUCANALHAS NOTA 10 Incrível a uniformidade com que as duas agremiações vêm se apresentando em todas as suas formas de expressão: desvios, mutretas, leilão de cargos e comissões, conchavos, peculato e lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, gestão fraudulenta. O equilíbrio artístico do conjunto emociona. Pode-se até imaginá-los todos na mesma cela. 

MESTRE-SALA e PORTA BANDEIRA - PETRALHAS NOTA 10 O mestre-sala e a porta-bandeira, no samba, são um casal que executa um determinado bailado especial e deve apresentar com graciosidade o pavilhão da escola. Suas fantasias assemelham-se a trajes de gala típicos do século XVIII, porém "carnavalizados", ou seja, com uma quantidade exagerada de cores e enfeites. Há quase 12 anos nosso casal MESTRE-SALA e PORTA BANDEIRA tem rodopiado com nossa dívida pública, balança comercial, geração de empregos, infraestrutura e capacidade de atrair investimentos, muitas vezes com fantasias típicas do século XVIII e uma quantidade exagerada de cores e enfeites... 

ENREDO o enredo costuma ser escolhido logo após o resultado das eleições, sendo válido para o pleito seguinte. Nesse meio tempo, a partir do tema principal, os carnavalescos devem escrever toda uma sinopse, que guiará a fabricação das bolsas-fantasias, bolsas-alegorias e a composição do samba-enredo. As mais críveis renderão mais votos. Os 171 dramaturgos convidados fornecem roteiros originais ou adaptados a todas as agremiações. Então neste quesito há empate. 

COMISSÃO DE FRENTE - É linha de frente da escola, primeiro grupo de integrantes a desfilar, sendo isto uma condição obrigatória. Consiste em cerca de dez a quinze pessoas que realizam uma coreografia, introduzindo o enredo. Bem que Eduardo Azeredo (PSDB) e Walfrido dos Mares Guia (PTB) se esforçaram, mas não foram páreo para a outra escola. José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, Marcos Valério (que trocou de escola neste intervalo), Cristiano Paz, Ramon Hollerbach, José Roberto Salgado, Kátia Rabello e Simone Vasconcelos apresentaram com louvor o que viria a seguir. PETRALHAS NOTA 10. 

ALEGORIAS e ADEREÇOS - O quesito alegoria trata de carros com eixo de ferro, repleto de esculturas de madeira, plástico, isopor, entre outros materiais, decorados de forma a representar os elementos do enredo TUCANALHAS NOTA 10 – levam um metrô de SP superfaturado inteiro de vantagem. 

BATERIA - a manutenção regular e a sustentação da cadência da Bateria em consonância com o Samba-Enredo; a criatividade e a versatilidade da Bateria. Este ano a avenida está confusa, a ‘perfeita conjugação dos sons emitidos pelos vários instrumentos’ deu lugar a gritos, vidros estilhaçados de vitrines, sirenes, frases de efeito, barulhos de tropas marchando, pedras em escudos, cassetetes batendo em ossos quebrados. A BATERIA NOTA 10, ou TROFEU SININHO vai para... peraí, há agremiações que contratam alas inteiras de black blocs para participar dos desfiles das outras escolas, enquanto os mascarados (os que mantêm voto sem mostrar o rosto no Congresso e no Senado) declaram ilegitimidades nas manifestações, pelo mesmo motivo: não mostrar o rosto. Deixa pra lá. A melhor cadência, o ritmo NOTA 10 vai para as construções dos estádios da COPA e o suporte de mobilidade urbana. 

SAMBA-ENREDO - o Julgador irá avaliar a Letra e a Melodia do Samba-Enredo apresentado, respeitando-se a licença poética, a sua adaptação à melodia, ou seja, o perfeito entrosamento dos seus versos com os desenhos melódicos. Quesito empatado. Licença poética tem permeado os discursos de TUCANALHAS e PETRALHAS. A perfeita e melodiosa inadequação de promessas e práticas mostram claramente que as duas escolas fizeram bem o dever de casa. NOTA 10. 

FANTASIAS - PETRALHAS na frente de novo. A fantasia de IRMÃO MORTO do nosso ex-presidente do Banco do Brasil para poder fugir pra Itália continua sem concorrente. 

EVOLUÇÃO 
PETRALHAS - A nota 10 vai para o próprio Henrique Pizzolato. Condenado pelo mensalão, o ex presidente do Banco do Brasil urdiu um complicado projeto de quase 7 anos que permitiu sua EVOLUÇÃO sigilosa pra fora do país. Na hora H, no entanto, teve problemas no recuo da bateria na Itália e é provável que desande o ritmo na avenida. Mas como a pizza por lá também é bem comum, não se espantem se tudo terminar na Speranza, no Bexiga. 

Uma pena não haver categoria especial de MAQUIAGEM. Duas fortes candidatas, Cristina Kirchner e a nossa Dilma, especialistas em maquiar indicadores sociais e econômicos, balanços da Petrobrás, etc. Leve vantagem pra 'hermana' que, se levar, vai ser 'por una cabeza'. O resultado da apuração ainda não foi divulgado em função de pedidos de vistas, embargos infringentes, recesso parlamentar, embargos declaratórios, discordâncias entre relatores, mas acredita-se que até 2024... 

E nós aqui nessa quarta feira de cinzas de direitos humanos, de infraestrutura básica, saneamento, saúde, educação, investimentos, balança comercial, etc., assistindo essa cartilha draconiana, romana de governo PÃO e CIRCO ou, na versão local contemporânea, de BOLSA-FAMÍLIA e QUADRADINHO DE OITO. Feliz carnaval, namastê...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Amor & sexo

Assistindo às opiniões populares na chamada para a ultima temporada do programa "Amor e Sexo", fiquei com uma enorme vontade de falar sobre o tema. Esses supostos opostos são recordistas em criar uma dualidade e gerar uma batalha desnecessária. Salvo em uma relação onde se gera o lucro, o sexo não pode ser visto como algo tão antagônico ao amor. Impossível não enxergar no sexo uma manifestação do amor. A entrega, a confiança, a disponibilidade e a generosidade em dar prazer ao outro são qualidades intrínsecas do coração. 

Fazer amor é uma expressão absolutamente intelectualizada e que define de forma lúdica o que é uma verdadeira relação sexual. Muitas vezes, a senha e a chave para o verdadeiro encontro é a atração estabelecida. Nada pode ser mais amoroso do que um encontro sexual de verdade e pra valer! Aquele encontro que mais do que unir pele, une almas. Quando isso ocorre é impossível que não exista um sentimento forte diante de tanta intimidade e cumplicidade. O sexo acaba legitimando o amor e vice versa. São parceiros. Uma parceria intuitiva e que por força da natureza e de dogmas culturais se torna vítima de tanta especulação.

O sexo é um visto de entrada, é a permissão para o arsenal de sentimentos se instalarem. É como se o corpo dissesse que estabelecido esse contrato de atração, a ternura, o respeito o carinho podem chegar. Não pode haver nada mais respeitoso e carinhoso do que um sexo bem feito e consentido. Uma entrega explícita de confiança. De nada adianta um casal que se entende, que se respeita se não existe uma forte atração. E nenhuma verdade existe em um casal que transa e não se respeita. Com certeza o amor está falhando em ambos os casos. Sexo e amor se  fundem, se unem no momento em que não é mais possível um viver sem o outro. Quando a cama está bem arrumada e resolvida e o casal sabe marcar bem esse território, uma fortaleza se ergue para combater todos os agentes externos que possam ameaçar a relação. 

Quantas belas histórias de amor se iniciam durante um encontro aparentemente sexual? Muitos casais que se conhecem no auge do Carnaval, época em que se busca o prazer apenas, conseguem permanecer juntos anos a fio, pois o código que os uniu foi justamente o da atração. Não quero fazer apologia do sexo como isca do amor. Acredito apenas que o sexo é tão esperto, mas tão esperto que ele pode se disfarçar de um simples tesão para não revelar o grande amor que chegou. 

O Amor é humano, o Sexo também. O Amor é teimoso, o Sexo também. O Sexo é o melhor amigo do Amor, na verdade são amantes. Não tem como antagonizar. Formam um belo casal. E nessa união tem que existir cumplicidade. A paixão até pode ter um prazo mais curtinho que o amor, mas essa validade pode ser prorrogada se o amor, o sábio da relação, souber usar de suas habilidades para conquistar diariamente o impulsivo do sexo. Na hora do desespero, quando o amor deseja e invade a cama do sexo, fica evidente como foram feitos um para o outro. Palavras expressam, o corpo reage de forma absurda e tudo que havia de errado se reconecta. Sim, um bom sexo resolve, organiza, reconstrói, dá esperança, revigora e une!!! Isso é amor!!!

Caetano disse com muita propriedade em sua bela canção, Tá Combinado: "Abrirmos a cabeça para que afinal floresça o mais que humano em nós. Então tá tudo dito e é tão bonito e eu acredito num claro futuro de música, ternura e aventura pro equilibrista em cima do muro. Mas e se o amor pra nós chegar, de nós, de algum lugar com todo o seu tenebroso esplendor? Mas e se o amor já está, se há muito tempo que chegou e só nos enganou? Então não fale nada, apague a estrada que seu caminhar já desenhou porque toda razão, toda palavra vale nada quando chega o amor..." Essa letra retrata de forma simples que no início tudo parecia somente sexo e amizade, parecia. O amor e o sexo são especialistas nos disfarces. Tudo é tão sútil nesse assunto que não há lógica e nem matemática que explique. Não há formula, pois tudo é finito e tudo será extinto em algum momento. Se soubermos lidar com isso, as relações se tornarão mais duráveis, por mais paradoxal que isso seja. Estaremos mais relaxados e assim tudo fluirá melhor.

Quando percebo que um casal está em paz, sei que há um forte componente sexual entre eles. 

Termino essa crônica citando uma frase do belo soneto 11 de Camões: "Amor é fogo que arde sem se ver...”. 

E que a verdadeira temporada de Amor e Sexo, essa que vive em nós, não termine jamais.



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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: TEMPOS DIFÍCEIS - Por Antônio Campos


Os 7 bilhões de habitantes da espaçonave Terra enfrentam um cenário de mudanças econômicas, políticas, climáticas e culturais. É uma verdadeira crise civilizatória e de valores. O cientista político francês Dominique Moisi, autor de “A Geopolítica das Emoções”, sentencia que “O Ocidente perde peso relativo, a Ásia renasce, os emergentes ganham novo peso. A política está em franca transformação”. É um mundo multipolar e pluricultural. 

A Primavera Árabe, a crise do euro, as catástrofes climáticas, o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, os indignados na Espanha, a islamofobia na Europa, a crise Irã x Israel, a guerra na Síria, as eleições contestadas na Rússia e a crise continuada no Egito, mostram um mundo em crise e transformação. O mundo já vive em rede e a era digital tem enorme influência nas relações humanas. O homem dominou o mundo pela tecnologia, mas não aprimorou o holístico. Recentemente foi divulgado que os Estados Unidos monitoram celulares, redes sociais e e-mails. É uma mistura de George Orwell com Kafka. 

Vivemos uma crise das religiões. Não digo o mesmo da espiritualidade. Esta nasceu com os homens. As religiões são fenômenos mais recentes. O aparente ou real choque entre religiões e culturas marca o cenário contemporâneo. É preciso criar pontes e diálogos. Contudo, faltam líderes ao mundo. A crise na Europa demonstra claramente isso. Precisamos reinventar a democracia. As recentes manifestações no Brasil demonstram que o atual modelo de democracia representativa está esgotado e que é urgente uma reforma política e uma nova agenda para o Brasil. Há uma falta de líderes no mundo. 

Tenho esperança de que, ao existir uma expectativa de tantas dificuldades no mundo, o Brasil seja um paradigma de uma melhor tolerância na convivência entre religiões e culturas e de empreendedorismo para um mundo em crise e em conflitos. É o sonho brasileiro para o mundo que tem que ser preservado internamente e mostrado ao mundo.

Com o excesso de informação da web em um mundo acelerado e entulhado, impõe-se a necessidade de uma espécie de edição do presente. Estamos obesos de informação e famintos de sentido. Diálogo é a palavra-chave do mundo contemporâneo: entre artes, povos, religiões e culturas.


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terça-feira, 20 de agosto de 2013

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Briga de menino

Meninos brigam. Acontece. É um dos rituais de crescimento que todo garoto deve passar. Os mais sortudos possuem irmãos para praticar em casa antes de enfrentar a vida real. Os filhos únicos precisam se virar com o conhecimento teórico adquirido com videogames e desenhos animados. Costumam ser os primeiros a tombar. Mas todos passam por alguma briga. Não é que a meninada queira, na maioria das vezes, sair no braço uns com os outros. Ninguém com juízo quer e crianças, mesmo as do sexo masculino, são criaturas extremamente lógicas. É só que se espera que, em determinadas situações-limite, a pancadaria aconteça de maneira mais ou menos espontânea. Coisa de macho. O que não impede ninguém de sentir medo. Medo de apanhar, claro, ou pior, ser tachado de covarde. Medroso. Borra-botas. Cagalhão. O cagalhão não tem o respeito dos seus pares. O cagalhão é um pária a cada intervalo de aula. Claro, no fundo, todos somos cagalhões, em maior ou menor grau. O segredo é fazer com que o adversário se revele primeiro. Na infância, a grande maioria das brigas se resume a provocar um ao outro enquanto a visão periférica busca desesperadamente um professor ou alguém com autoridade para interromper o embate antes que alguém precise ir às vias de fato.

- Vai encarar? Vai encarar?
- Vou encarar! Tu vai encarar?
- Vou! Vai encarar?
- Já disse que vou, zé-ruela!
- Então vem!
- Vem!
- Vem!
- Te fode!
- Te fode tu!
- Vem!
- Vem!
- Né homem não é?
- Pega aqui!
- Pega aqui tu!
- Vem!
- Vem!

A troca de insultos, nem sempre muito criativos, pode durar toda uma eternidade ou o tempo do recreio, o que acabar primeiro. Não é incomum que os lutadores, em acordo tácito e silencioso, estendam as preliminares até que sejam obrigados a voltar para a sala de aula, evitando o derramamento de sangue e, consequentemente, a diversão dos colegas, geralmente reunidos em círculo ao redor. Vez por outra, contudo, o destino reúne oponentes que verdadeiramente desejam se enfrentar, a vontade de remodelar o rosto do desafeto na base da mãozada provando-se mais forte do que o instinto de autopreservação. Quando isso acontece, é necessário que a provocação atinja níveis épicos de avacalhação, assegurando uma reação violenta por parte do ofendido. O método clássico e virtualmente infalível é xingar a mãe.

- Esse círculo aqui é a mãe de fulano, oeeeeeeeeeeeeeeeeee!

Nesse momento, o autor da injúria se dedica a realizar coisas indizíveis com o anel desenhado na areia. Pisar e cuspir na genitora metafórica são atitudes válidas e prontamente encorajadas pela plateia, sempre munida de sugestões úteis. Uma vez vi um menino, que tinha fama de maluco, arriar as calças e ficar de cócoras em cima do círculo, obrando enquanto ria maniacamente. Dizem que o outro garoto desenvolveu problemas psicológicos graves. Até hoje, não consegue dar uma barrigada sem pensar na mãe. Mas isso ainda é pouco. Quando inimigos jurados resolvem se enfrentar, a coisa é levada a outro nível e qualquer chance de uma solução diplomática vai para o saco.

- Esse círculo aqui é o CU DA MÃE DE FULANO, OEEEEEEEEEEEEEEEEEE!


Se botar a mãe no meio já é imperdoável, especificar partes do corpo é fazer a injúria render pelas próximas 17 gerações. Nessa modalidade, além das esculhambações já citadas, alguns incautos se dedicam ao imperdoável mergulho. O ato consiste, basicamente, em se lançar sobre o círculo, de bruços, por vezes com a braguilha aberta, e molestar violentamente a caricatura de ânus da mãe alheia. Um movimento tão ousado quanto perigoso, já que o ofensor se expõe à fúria do seu antagonista, que muitas vezes emenda o mergulho do outro com uma bicuda bem dada no nariz. Nesse momento, agressor e agredido rolam engalfinhados sobre o brioco da discórdia, enquanto uma mãe, em algum lugar, sente uma sensação indescritivelmente incômoda em seu ser.

Já me envolvi em brigas e já estimulei várias outras. Hoje, adulto, sinto-me na obrigação de evitar que a meninada se meta em situações que podem custar uma amizade ou um membro. Dia desses, vi dois garotos embolando pela rua, gritando e xingando um ao outro. Separei os moleques e tirei o maior de cima do menor. Em meu melhor tom professoral, palestrei sobre os horrores das brigas infantis, as vidas destruídas, as mães irrecuperavelmente escrotizadas. Eles olharam um para o outro. O mais alto deu uma goipada catarrenta na areia.

- Te fode.

- A gente só tava brincando, zé-buceta! – concluiu o menorzinho, cara de anjo, enquanto se afastava coçando o traseiro cheio de terra.

Pensando bem, as mães que me perdoem, mas brigar quando se é criança é uma delícia.




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terça-feira, 9 de julho de 2013

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Meninos, meninas e o sexo

Na minha época, não tinha essa de conversar com os pais, de boa, sobre sexo. Nada de aulas na escola ou de pesquisas na Internet. O que eu aprendi sobre o assunto na minha adolescência veio dos filmes americanos de final dos anos 80 e começo dos 90. Baseado neles, eu fiquei achando que transar só acontecia entre homens e mulheres, que tinha que ser escondido, que era meio que um prêmio dado pela mulher e sua falta, uma punição para o homem (“Pois vá dormir no sofá e nada de sexo por uma semana, Jake!”), que dava amnésia (“Meu Deus, Terry! Você foi até o fim ontem? Você foi até o fim, não foi?!”), que envolvia, quase sempre, ficar pelado em uma cama, que universitários faziam isso o tempo todo, que era preciso encerrar o ato com um cigarro (para mim, o aspecto mais preocupante da coisa, já que sempre detestei o fumo e morria de medo de morrer virgem por causa disso) e que quase sempre só era bom para o homem. As dúvidas eram tantas, que acabei postergando minha primeira vez em alguns anos. Tinha medo de, na hora do vamos ver, não saber bem o que fazer (“Não, Fred, isso aí é o meu umbigo”) ou acabar machucando alguém (“Arrrrrgh, você deslocou meu clitóris! Me leve a um hospital, temos que mandar engessar!”).


Mesmo com a falta crônica de informação, as conversas com os amigos e o inescapável instinto masculino quase sempre acabavam compensando. Das poucas certezas que eu tinha, uma delas era que sexo envolvia, de alguma forma, meu pinto. E ele parecia, quase o tempo todo, ter vida própria. Quando o homem é jovem, basta uma brisa mais forte que a bilola se manifesta. A coisa é tão sensível que pegar ônibus lotado, só mesmo escudando a braguilha com um caderno de 38 matérias ou você pode acabar cegando alguém e ser convidado, aos murros, a descer do coletivo. Se para as mulheres é bem mais fácil disfarçar excitação – basta, no máximo, um sutiã reforçado -, para os homens, especialmente os meninos, é preciso praticar um autocontrole budista no dia a dia. A professora se abaixou para verificar a tarefa e encostou o peito no seu ombro? Pitoca dura. Aula mista de educação física com meninas de shortinho? Pitoca dura. Abraço de aniversário da prima? Pitoca dura. Transformação da Princesa Adora em She-Ra, de minissaia e tudo mais? Pitoca quase quebrando a tela da TV. Seu amigo aponta para uma nuvem que tem uma forma vagamente feminina? Nem comento. Tentando controlar a chibata, adquiri o hábito de, nesses momentos, imaginar a minha avó vestida com o biquíni dourado da princesa Léia. Até hoje tenho dificuldade em abraçar a velhinha.

Ao menos nessa questão, o mulherio sempre teve larga vantagem. Enquanto os homens gaguejam, suam frio, tropeçam nos próprios pés e precisam usar os cintos para disfarçar a ereção que surge nas horas mais impróprias (“Fred! Respeite o funeral da sua tia, menino!”), as garotas estão sempre lá, majestosas, indiferentes, rindo do macho desengonçado que mal consegue controlar o próprio corpo, provocando o imaginário masculino com um andar, um gesto distraído, uma caneta entre os lábios, um rabo-de-cavalo apressado, um toque desinteressado, um sorriso se espalhando a partir dos olhos. Até que chega aquele momento mágico no qual ela, ela sim, de verdade, passa a te perceber, a te enxergar de um jeito diferente, a ficar vermelha sem precisar passar blush e a respirar apressadamente quando você chega perto, seios subindo e descendo na cadência do seu coração. Chega a vez dela finalmente perder o controle. E por sua causa.

E é aí, meu velho, que você descobre exatamente o quanto um homem pode ser sortudo.


terça-feira, 11 de junho de 2013

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Filhos, desejo masculino

Tem alguma coisa estranha acontecendo no mundo hoje. Quem está na casa dos trinta e poucos anos conhece essa história: todo mundo ao seu redor está ou grávida ou com filho pequeno ou planejando ter. Se você não tem e é casado, a pressão é enorme. E você meio sem jeito tem que dizer “estamos só treinando”, na esperança de que isso baste aos mais curiosos. E o papo menino-leite-fralda vai dominando todos ambientes. E eu não estou falando do universo feminino. Eis a questão! Isso agora é assunto de homem. Mulheres, licença, eles estão tomando o último recôndito do gênero feminino. 

Antes, todo mundo sabe como funcionava. À mulher (sozinha), cabiam todas as responsabilidades, agruras e benesses da maternidade. Ao homem restava a dura (trocadilho irresistível!) tarefa da concepção. E terminava por ai. Depois, adentravam as grávidas, as amigas, as mães, as avós e as parteiras. A gravidez era uma exclusividade delas. E foi assim até bem pouco tempo, todos nós sabemos. Ai veio uma revolução cheia de sutiãs queimados, pílulas e minissaias que levou as mulheres para rua e, paradoxalmente, trouxe os homens para mais perto de casa. 

E para mais perto da maternidade. Hoje já não se concebe a ideia da mulher grávida, mas do casal grávido. Afinal, e com muita justiça, eles participam o mais diretamente possível da gestação, do acompanhamento médico à sala de parto. E começam, tão cedo quanto as mulheres, a criar seus vínculos afetivos com aquela criança em formação. Espaço conquistado, eles estão saindo agora para reivindicar seus direitos. Será outra revolução em curso?

Os homens querem ter filhos. A projeção da paternidade já não assusta como antes, ao contrário, gera desejo: de criar, de alimentar, de pôr para dormir, de levar na escola e até na festinha de aniversário. Um filho para chamar de seu. Eles não têm mais vergonha, dizem em alto e em bom som que desejam ser pai. Ok, mas desejar é uma coisa, e fazer é outra e ai, eles precisam combinar com a outra parte. Danado, é que as mulheres hoje já não são criadas para esse fim, apenas. Elas querem o mundo. E, para muitas, filhos já não a única opção. Está formada a confusão. Já vi caso de marido esconder a pílula da mulher... onde chegamos?!

O fato é que, para o bem de todos, quando eles veem aquelas criaturinhas fofas e cheirosas em seus braços logo se derretem. E estão dispostos a tudo: “ou filhos ou o divórcio”, gritam na sua revolução antissexista. E, nós, pobres mulheres, continuamos sem escolha! Ainda bem que essa reviravolta toda só traz mais alegria para ambos os lados. Quem há de levantar a mão contra? 

Considerações:
 - Fui visitar um casal amigo que teve o bebê recentemente. A cara de felicidade besta do pai foi a inspiração para esta crônica! 
- A propósito, eu quero ter filhos! Já, já...
- O texto refere-se a Homens, com H maiúsculo mesmo, maduros o suficiente para enfrentarem essa aventura deliciosa (a gente sabe que não são todos)!




terça-feira, 7 de maio de 2013

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Pronto, falei! Escolhas e preferências devem ser respeitadas e ponto!


Ando com muita dificuldade em conviver com pessoas herméticas, aprisionadas e tensas. São seres que não se permitem a alegria de ser, de estar, de usufruir o simples e rico fato, de estarem vivos. Vivem censurando, criticando e focando suas existências em julgar e condenar tudo e todos. Entendo que certa crítica, seja inerente ao ser humano, mas pessoas assim, vivem na janela da vida, sem ao menos experimentar a delícia de evoluir, mudar, arriscar, entender ou respeitar as escolhas de cada um. O que mais me espanta nesse universo crítico é a gratuidade. A pessoa do nada e aparentemente sem nenhuma motivação lança flechas verbais em direção à outra, sem o menor filtro ou pudor emocional.

Isso com certeza é uma nova modalidade de violência. Uma agressividade, uma impetuosidade desnecessária que ativa ódio e ressentimento, sem a menor necessidade. Dentro desse panorama negativo, existem também, as modalidades mais brandas e rotineiras de se metralhar o próximo. E me questiono como fica a nossa liberdade de expressão, alvo de inveja, rancor e a mercê de juízes e paladinos da verdade. O que falta em leveza, se excede em prepotência e ausência de uma crítica maior: a auto-crítica. O que é bom para uma determinada pessoa, não se encaixa para outra e assim é a vida. Posicionar-se é uma coisa, agredir é outra bem diferente.

Posição devemos ter e adotar, até como fonte de atitude e de opinião. Escolhas e preferências devem ser respeitadas e ponto! É preciso viver como se estivéssemos sempre de mudança ou de partida. Não criar raiz nesse sentido, gera mais compreensão e mais entendimento. Bom ter sempre uma malinha por perto, para não fixar residência nas certezas. Não há incoerência em mudar, não há contradição em ser inteligente e popular ao mesmo tempo, por exemplo. Somos livres e interessantes o suficiente para mudarmos de opinião, termos outra visão. Que bom que isso acontece. Isso denota maturidade, aprendizado e vivência.

Essa semana causei um enorme espanto, por estar ouvindo e dançando uma musica popular. Havia nessa observação uma crítica à minha opção musical. Não fiz um pacto de fidelidade com o Jazz ou com a MPB, ao ponto de não sentir vontade de dançar ao som do Sorriso Maroto ou do Naldo. Não tenho um perfil monotemático, nem nunca me propus a isso. Hoje me sinto bem mais leve do que anos atrás, o peso do tempo não engordou a minha alma. Pelo contrario, vivo de dieta de produtos nocivos ao meu bem estar. Repaginei minhas musicas, meus livros, minhas prioridades. Adotei naturalmente um estilo mais prosaico de viver e de ver o mundo. Menos expectativa e mais aproveitamento. Sei dos problemas do mundo, da necessidade de se salvar o planeta, mas preciso da pitada da alegria no meu dia a dia pra sobreviver a toda essa responsabilidade que nos cerca. Há poesia sim no cotidiano, na rima boba, na melodia fácil. E se há contentamento, vale à pena.

Faço em meu universo as minhas escolhas, planto minhas arvores e faço o bem, sem ter a pretensão de mudar o mundo. Observo, me informo, mas não me conecto. Entendo, absorvo, mas não guardo. Já estou em uma fase em que arrumar os armários e desarquivar informações, só me acrescenta e revigora. Não quero ser a mais inteligente, a mais articulada, a mais culta. Escutei uma vez que pessoas que gostam de dançar, são as que menos cultivam o hábito da leitura. Que pensamento é esse, que afirma que pessoas que se movimentam são burras?

Esses arautos e filósofos de plantão estão sempre a nos patrulhar com suas farpas melancólicas. Talvez se dançassem de vez em quando, fossem mais doces. Estou de bem com o mundo, estou com a maré. Danço conforme a musica e me sinto bem assim. O que me importa se a TV que assisto é de direita, se ela me entretém e me dá prazer? O que me interessa se o compositor que curto, tem uma vida pessoal nada ortodoxa?

Essa gente que se apropria da cultura em favor de uma ideia e posse de uma verdade, são escravos e prisioneiros de uma ideologia que não vingou. Nem toda contestação é válida, nem todo luto é real. Há causas humanas e mais nobres para serem discutidas. Essas mesmas pessoas que execram ideias e ideais, se chocam quando um líder de uma seita religiosa avança em nossas direções atacando nossos valores mais preciosos. São tão diferentes assim? Há formas de se mostrar contrariedade e de se posicionar, com menos veemência. Exerça a sua opinião de forma mais sutil e delicada. Se ninguém perguntou a sua opinião, não dê. 

Críticos de plantão são pessoas frustradas. São reservatórios de mágoas e toda essa volúpia censora, não os satisfaz. São pessoas com semblantes tensos e com atitudes e gestos rigorosos. Não relaxam nunca. São uns chatos que se aposentam do prazer de viver cedo demais. Envelhecem ainda bem jovens. A vida tem que ser suave, a brincadeira tem que ser justa e sincera, o humor deve ser generoso e sutil. Até os humoristas estão se levando a sério demais, quando perdem o censo e o limite do respeito ao próximo. Estão se tornando tiranos e absolutos  em seus esquetes pretensiosos. Há certo autoritarismo disfarçado de arte e de protesto gritando por aí. Há fartura de soberba entre nós. Estamos sendo bombardeados por uma nova safra terrorista. O terror agora é moral, é ódio disfarçado de opinião.
Hoje entendo perfeitamente a alegria descompromissada de pessoas de classes mais populares. Elas são espontâneas em suas manifestações culturais. Amam o simples, veneram e elegem o descartável com tanta naturalidade e fazem suas escolhas sem buscar parâmetros ou aprovações. A novela ”Avenida Brasil” de forma muito hábil, retratou o subúrbio do Rio e sua riqueza no universo da naturalidade. Fez críticas sutis ao povo da Zona sul, onde a mesma naturalidade já não se faz presente. 

Conservemos nossos valores e essência, mas respeitemos aqueles que por alguma razão do destino, se renderam ao simples e doce estado de ser feliz. Excesso de senso crítico pode fazer muito mal a saúde. “Eu quase que nada sei. Mas desconfio de muita coisa.” Disse com propriedade João Guimarães Rosa em “Grande Sertão Veredas”. Em um momento tão endurecido como esse que vivemos, talvez um pouco menos de “inteligência”, seja um grande sinal de perspicácia...




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quinta-feira, 11 de abril de 2013

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Temor machista: Maturidade sexual da amada


Em que momento se descobre a superioridade psicoemocional da mulher? Em um bom divã? Em um teste de Q.I? Bom, a comprovação deste imbróglio acontece sempre em um ambiente de puro altruísmo masculino, local neutro, num confessionário nato, um bar a beira mar. Se for após a partida de futebol e tiver cinco amigos especialistas na psiqué feminina, certamente, um novo mundo será descoberto. Ok! Admito. É necessário que também estejam calibrados para cederem à tamanha verdade. Mas, tomemos por primeira lição o que pensamos sobre o número de parceiros que as namoradas tiveram antes da nossa chegada.  A preferência, em coro, seria nenhum. Desejo latente de ser o único. Infelizmente, o mundo ainda não pode retroceder. Droga! Mas, o que realmente conjecturamos? Quantos seriam considerados demais? É assunto sem fim. Mas, consideramos, pelo menos, algumas ponderações. 


É verdade que encontrar uma virgem no meio do caminho é o desejo de seis entre dez homens. Mas, há mais problemas do que vantagens. Alguns espécimes masculinos necessitam acarinhar o ego - carregará o momento com orgulho e o contar,  vez por outra, o feito numa conversa.  A desvantagem é caso não atenda as perspectivas da parceira, o cara será sempre a má lembrança.  Facilmente esquecido pelo “perito” posterior. O que de fato pesará não é a possibilidade de ser confrontado a outros tantos, até dar pra levar. Porém, superar o “único” benfeitor que já esteve nos lençóis. Isto, sim, é uma grande responsabilidade. A pressão de arrasar no ato e deixar o outro no chinelo será um processo de ansiedade que só será finalizado no momento em que a amada disser: “nunca tive nada tão pleno”. Sei. Deve estar pensando que é o machismo em alta. Verdade.  Mas, necessário. Mão a palmatória. 

Todavia prossigamos. Desta vez, sejamos mais coerentes. Levemos em conta que uma garota de 30 anos teve entre cinco e dez parceiros, nos últimos cinco anos. Embora, dê uma média anual baixa, revela que a mulher deseja encontrar um bom relacionamento e não quer nada ao acaso. Também confesso que gostamos de saber que somos especiais na vida da mulher. Isto é fato. Agora, se a namorada deixar escapar que o número é maior que 25, já se torna preocupante. É melhor não afirma. Deixe em aberto. O número é revelador e constrói um perfil de mulher baladeira, sem apego e que gosta apenas de sentir prazer. Isto não é uma característica pejorativa. Todavia, se o assombro for perceptível no amado a saída é soltar a pérola: “Enquanto você não chegava a minha vida, eu estava curtindo”. Não resolve. Mas, minimiza a situação. 

Embora, possamos dizer que passado é passado, o machismo é resistente. Inerente. Reinante. Então, se um dia, por ventura, você souber que o número do namorado é bem menor que o seu. Nunca, em hipótese alguma, relate isso. Nem sobre tortura.  Agora, se o cara encanar demais com o seu expertise, ah, é certo que não merece ser o último da sua lista. 

Enfim, o importante é saber que há vários caminhos a serem percorridos e o aprendizado emocional e sexual é uma eterna construção. Principalmente, pra nós homens. Então, vivenciamos. Aprendamos. Mas, antes disso, desce mais uma “cerva”! 



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sexta-feira, 8 de março de 2013

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Muitos outros tons de cinza

Estou terminando a terceira edição do badalado “Cinquenta Tons de Cinza”, uma trilogia que virou febre e leitura obrigatória por parte do público feminino. A princípio, fiquei reticente em embarcar nessa aventura literária, por diversos motivos. O principal, confesso, foi de que seria uma abordagem pornográfica com fortes narrativas de sadomasoquismo. Como o livro veio parar em minha mão, de forma tão natural, resolvi apertar os cintos e decolar sem medo.

De cara, fiquei interessada com Anastásia Steele e Christian Grey e as nuances desse romance. A complexidade da relação, os traumas, os medos, as duvidas, me envolveram completamente. O sexo é um detalhe, uma cereja nesse bolo, que recheia os cinquenta tons e faz dele um livro gostoso e de fácil absorção. A autora é hábil em nos manter vivos e interessados e de forma direta, clara e verdadeira nos apresenta uma história muito interessante. Esse livro tem feito comigo o mesmo efeito, de tudo aquilo que observo, busco e acabo encontrando nas minhas peregrinações culturais e humanas. A busca sem hipocrisia, pela verdade.

A narrativa é atrevida e objetiva e envolve um homem encantadoramente pervertido e uma jovem inexperiente e apaixonada. Essa mistura se apresenta de forma benéfica, e vem me fazendo transitar por diversos porões. Venho refletindo sobre os parâmetros do que é a verdade e a linha tênue que a separa da privacidade, do que é nosso, do que é íntimo e pessoal e do que deveria ser dividido e compartilhado.

Somos educados para sermos sinceros e verdadeiros, para nunca enganarmos ou mentirmos em hipótese alguma. Há uma sala muito secreta em cada um de nós, um quarto escuro que abriga milhares de segredos e que não somos obrigados a compartilhar. Temos sonhos, traumas, medos, desejos, muitas vezes tão obscuros que ficam ali, armazenados em nosso closet emocional, anos e anos a fio. O que nos possibilita abrir esse armário tão secreto é justamente o encontro, o confronto com o novo, com a alma que te reconhece que te obriga, que te desafia, que desperta na gente o inimaginável, o imponderável até então. Isso é a abertura de nossa caixa preta e para mim, esse livro fala disso, de surpresa, de troca, de paixão e acima de tudo de libertação.

Quando encontramos em alguém a chave para possibilitar a revelação, a verdade vem à tona e os caminhos que surgem depois daí, são maravilhosos. Falamos tanto do que é ser leal e não há nada mais precioso do que poder compartilhar isso. Erramos sem parar nessa vida e seria tão saudável, poder reparar danos cometidos com o exercício da lealdade. Quantas enfermidades seriam curadas, evitadas em função da exoneração da culpa. Seríamos sem duvida, menos doentes e aflitos.

Temos direito aos nossos segredos, nossos códigos emocionais, nossas senhas afetivas. Isso é nosso! Mas há algo que poderíamos dividir mais, se o ser humano estivesse de fato, mais preparado. A verdade muitas vezes nos aprisiona, por pura falta de eco e respaldo em ser aceito ou ser entendido. Observo tantas almas vagando por aí, ruborizadas socialmente e intimamente, por pura falta de habilidade e ausência de amor ou de um belo encontro. Encontrar alguém que te aceite, que te instigue, que te revele e acima de tudo que te faça vibrar e que desperte nossa “deusa interior” - figura muito mencionada no livro pela personagem Ana, esse é o caminho.

Todos esses tons de cinza inseridos no maravilhoso Grey, também colorem muito as nossas histórias. Aos homens que ainda não leram, aconselho que procurem saber a razão de tanto interesse por parte das mulheres.


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