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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

DIÁRIO DE BORDO: China para os fortes e seus vários destinos

Viajar pela China é experiência bruta e está longe de ser um passeio agradável. Começamos a nossa viagem por Xangai. Na China conhecemos alguns dos locais mais marcantes da viagem, mas também encaramos os dias mais cansativos. Essa foi minha segunda vez na China, mas a primeira vez em Xangai e no norte do país. Nesse roteiro planejamos três noites em Xangai, duas em Pingyao e duas em Xian em um ritmo bem mais acelerado do que o restante da viagem. Optamos por aproveitar ao máximo nossa semana na China para conhecer vários destinos, e terminamos a semana destroçados mudando o roteiro para tirar cinco dias de descanso em Bali. 

Apesar de ser um país fascinante, a China, em menor intensidade, me lembra a Índia e o Egito. Em todos esses destinos existem grandes tesouros da humanidade e experiências de viagem memoráveis, mas o caminho passa por ruas lotadas, cidades poluídas, banheiros imundos e a sensação de ter que estar sempre alerta para desviar dos oportunistas que perseguem turistas na rua. Também contribui a dificuldade de comunicação tanto com os locais que não falam inglês quanto pela internet, que tem vários sites, incluindo Google e Facebook, bloqueados pelo governo Chinês.


PASSADO E FUTURO EM XANGAI

Em Xangai a sensação é um pouco diferente. Tivemos o azar de estar lá justamente em um feriado nacional e enfrentamos multidões de turistas chineses pelas ruas da cidade. Apesar disso, Xangai é uma cidade moderna e bem aprazível para padrões Chineses. Aqui consegui até manter minha rotina de corridas matinais pelo famoso Bund, o calçadão que beira o rio e tem vista para o skyline de prédios modernos do bairro de Pudong. Enquanto os edifícios modernos brilham do lado de lá do rio, na avenida do Bund estão alguns dos edifícios históricos mais interessantes da cidade. A maioria parece ter saídos de Londres ou Chicago. Hoje são sedes de bancos, prédios do governo e hotéis de luxo, mas no passado já foram as sedes das empresas que movimentavam o porto de Xangai, que ficava bem ali no Bund. Também me impressionou na cidade o centro histórico com belos edifícios, praças e templos com centenas de anos de história. Xangai também é um dos melhores lugares para comer na China e a variedade de comidas de rua e restaurantes no estilo bandejão já possibilita uma boa experiência da gastronomia local. Para paladares mais refinados, existe em Xangai uma dezena de excelentes restaurantes; muitos deles no alto de prédios com vista para o Bund. Difícil aqui é evitar a muvuca. Caminhar pelo calçadão de Pudong à noite é quase como encarar Copacabana no ano novo. Com turistas vindos do interior da China, ocidentais chamam a atenção e o assédio de chineses querendo tirar fotos conosco faria a alegria de qualquer ex-Big Brother. Tiramos fotos com dezenas de adolescentes e senhoras. Todas sempre sorridentes, se aproximavam com muito respeito elogiando os cabelos cacheados da Ana. Os homens tiram fotos de longe e raramente se aproximam. 





A HISTÓRICA PINGYAO


Nossa próxima parada na China foi a pitoresca cidade de Pingyao. Patrimônio da humanidade, a cidade sobreviveu quase intacta à modernização de gosto duvidoso promovida pelo governo comunista após a revolução. Pingyao ainda conserva sua muralha medieval e mais de 4 mil casas que datam da dinastia Qing do século XVII. Para chegar lá tínhamos que voar duas horas e meia até uma cidade chamada Taiyuan e de lá pegar um trem. No trajeto foram fortes emoções. Fomos de metrô até o aeroporto doméstico de Xangai, e, sem informação do terminal de embarque, descemos no terminal errado. Até chegarmos no local certo de embarque faltavam apenas 35 minutos para a saída do nosso voo. Fomos os últimos a embarcar com o check in encerrando. Na correria, não consegui sacar dinheiro e fomos para o Norte com os poucos Yuan que sobravam no meu bolso. Chegando ao aeroporto de Taiyuan fomos assediados por pseudo taxistas e guias que queriam nos levar de carro direto a Pingyao. No balcão de informações turísticas, com a ajuda das simpáticas atendentes, que não falavam inglês, fomos colocados em um ônibus rumo à estação de trem. Taiyuan é exemplo vivo do milagre econômico da China. Estão construindo por lá centenas de torres residenciais de mais de trinta andares com o exato mesmo projeto arquitetônico. Algumas levam nomes chamativos em inglês como “The Elegance”, mas estão sendo construídas em frente a fábricas fumacentas. A cidade de Taiyuan parecia um enorme canteiro de obras e a estação de trens recém-inaugurada é impressionante. Apesar de ultramoderna, não tem caixas eletrônicos ligados à rede internacional. Ficamos aliviados quando descobrimos que o preço de duas passagens para Pingyao daria justo com os trocados que me restavam no bolso, deixando uma sobra para um taxi bem negociado em nossa chegada. Comprar a passagem foi outra função. As máquinas modernas de venda de bilhete têm opção de venda em inglês, mas ainda é impossível comprar uma passagem sem passar uma identidade chinesa pelo escâner da máquina. Éramos os únicos estrangeiros naquela estação imensa e nos custou até encontrar um guichê aberto com um humano disposto a vender uma passagem. Depois de tanta turbulência fomos agraciados com a descoberta de que em 2014 a China construiu uma nova linha de trens bala na região e o tempo de viagem à Pingyao hoje é apenas 40 minutos. 


Nossa chegada à Pingyao não foi nada glamorosa. A nova estação foi construída em uma região rural cercada de plantações de milho e fábricas sinistras, com suas chaminés expelindo nuvens de fumaça preta. Barganhamos o taxi e seguimos para a cidade antiga. Fomos deixados em um dos portões de onde teríamos que caminhar até a nossa pousada. Tínhamos reservado um hotel tradicional em um dos casarões antigos e eu já previa que encontra-lo no labirinto de vielas não seria tarefa fácil. Mesmo perdidos na multidão, ficamos felizes com o visual com que nos deparamos na primeira rua dentro da cidade murada. Lanternas vermelhas no estilo chinês antigo iluminavam casarões históricos em ruas lotadas de barracas com vendedores de rua. Era a imagem da China tradicional que eu sonhava em conhecer. Decidi entrar na primeira pousada e mostrar a nossa reserva com o nome do hotel em mandarim. Um rapaz simpático com sua filha pequena, mesmo não falando inglês, nos levou até a porta da pousada que ficava duas vielas depois. 



A pousada, apesar de bem simples, ficava em um casarão antigo maravilhoso com várias pequenas casinhas no jardim que serviam de quartos. Ao entrar em nosso quarto vimos que a experiência seria realmente autêntica. A cama de madeira tradicional tinha um colchão bem fino e duro de palha, e o quarto inteiro não parecia ter mais que 6 metros quadrados. Tínhamos um banheiro privativo com uma “luxuosa” privada ocidental. O espaço no banheiro era reduzido mas ficamos felizes com um banho antes de sair para a rua. Passamos dois dias intensos em Pingyao desbravando vielas e casarões. No dia seguinte consegui finalmente sacar dinheiro no único caixa eletrônico da cidade que estava conectado à rede internacional. Mesmo com dólares e euros, trocar o dinheiro por moeda local é tarefa difícil. O governo regula todas as atividades de cambio, então não existem casas de câmbio fora dos principais centros e aeroportos. Com dinheiro no bolso, nos esbaldamos com a deliciosa comida local. A especialidade é o Pingyao Beef, que combina pedaços de carne bovina cozidos em um molho doce com legumes. Outro ponto curioso de Pingyao é que aqui foram fundados os primeiros bancos da China há mais de duzentos anos. A riqueza arquitetônica e a belíssima muralha valem uma visita de pelo menos dois dias. 

OS GUERREIROS DE XIAN


Nosso próximo e último destino na China seria Xian, onde pretendíamos visitar os famosos guerreiros de Terracota. Xian, além de ter os guerreiros, é uma cidade muito interessante para experimentar de forma mais autêntica a vida na China. Apesar de ainda ter uma muralha preservada que circunda o centro, Xian hoje é mais uma grande metrópole da China. Muito do patrimônio histórico foi destruído na modernização da cidade, mas ainda há muita riqueza cultural. Uma das principais atrações da cidade é o mercado da comunidade chinesa muçulmana que vive em Xian desde o tempo da rota da seda. Visitar o mercado noturno que acontece na rua principal do bairro foi uma das experiências mais caóticas e divertidas que tivemos em toda a viagem. A comida é completamente diferente do resto da China. Comemos batatas assadas com uma dúzia de especiarias e um delicioso sanduiche de cordeiro com molho não identificado. O cordeiro era cozido em caldeirões enormes no meio da rua. Também é tradicional do bairro tomar uma sopa com um pão que parece uma versão mais rustica do pão pita libanês. Bem massudo, ele deve ser picado pelo próprio cliente e colocado dentro de uma cumbuca onde a sopa é servida. Sugiro seguir as instruções do vendedor e deixar o pão bem picadinho. Se ele achar que você fez o trabalho mal feito não vai titubear em meter a mão no seu pão e demonstrar como deve ser feito. Os padrões de higiene na China são bem diferentes do nosso.

No dia seguinte fomos conhecer os famosos guerreiros de Terracota. A peregrinação até o mausoléu do imperador, que fica em uma região remota da periferia, incluía decifrar dois ônibus. O primeiro até que foi fácil, já o segundo saía da estação central de Xian, que para variar, era um caos humano difícil de navegar. Chegamos sãos e salvos no mausoléu perto do meio dia. Apesar da região próxima estar repleta de fábricas fedorentas, o governo fez um bom trabalho transformando uma área bem grande ao redor das escavações em parque nacional. A estrutura do parque é excelente. Felizmente o feriado chinês já tinha acabado e conseguimos visitar tudo sem grandes apertos. O complexo possui três tumbas, sendo a primeira a mais impressionante com milhares de guerreiros em tamanho natural, cada um com uma feição e detalhes da vestimenta única. Sem dúvidas a visita vale todo o esforço. 




Outro passeio bacana na cidade é alugar uma bicicleta para dar a volta completa em torno da enorme muralha que circunda o centro. A vista lá de cima é incrível e as calçadas largas tornam o passeio a pé ou de bicicleta bem tranquilo. Terminamos nossa semana na China apreciando o último pôr do sol na névoa de poluição do alto da muralha de Xian. Estávamos exaustos, mas felizes com a experiência. Visitar a China é para os fortes, e minha maior recomendação é não tentar desbravar todas as principais cidades desse enorme país em uma só viagem. 





DICA IMPORTANTE: Vale fazer o roteiro com mais calma intercalando alguns pontos de descanso e investir um pouco mais em hospedagem, principalmente na localização, para evitar grandes deslocamentos em transporte público. Voltar para um quarto fresco e confortável é sempre acolhedor. 

terça-feira, 18 de julho de 2017

AVENTURA: Aprendendo kung fu na Tailândia


Antes de janeiro, minha única experiência com artes marciais tinha sido boxe na adolescência. Uma tentativa, na época, de tentar a sorte em algum esporte que não envolvesse uma bola e me ajudasse a perder alguns quilos. Já a minha esposa, Anaisa, tinha alguns anos de balé e um curso básico de Yôga. Foi assim que chegamos a um retiro de Kung Fu de um mês nas montanhas do Norte da Tailândia. Nossa intenção era fazer um detox, colocar nossos corpos para trabalhar e deixar nossas mentes descansar. 

Chegamos a cidade de Pai em um teco-teco de 10 passageiros vindos de Chiang Mai. Apesar do Kung Fu Shaolin ter suas origens nos templos da China, mestre Iain Armstrong escolheu Pai para montar uma filial do clube do Kung Fu Nam Yang, que tem sede em Cingapura. Pai fica no final da cadeia dos Himalaias e por isso recebe o ar puro vindo das montanhas, que é a base da energia do Kung Fu. A proposta do retiro é receber alunos de todos os níveis que queiram passar por um treinamento intensivo de Kung Fu e conhecer a filosofia de vida que sustenta tal arte marcial. Diferente de outras artes marciais que tem suas regras adaptadas ao esporte, o Kung Fu no formato tradicional é usado somente como último recurso. 

Logo pela manhã nosso dia começava com o Chi Kung, uma técnica chinesa milenar para recarregar o corpo com a energia universal conhecida como Chi. Misto de alongamento com meditação, o Chi Kung era feito diariamente ao nascer do sol, com uma vista espetacular das montanhas. Na sequência, treinávamos as rotinas do Shuang Yang, semelhante ao Tai Chi Chuan, que tem o objetivo de ajudar os alunos a incorporar os movimentos básicos do Kung Fu de forma relaxada e em flow. No intervalo da manhã tomávamos chá com o mestre e entrávamos a fundo na filosofia do Kung Fu. À tarde o treino ia se intensificando para técnicas de combate com armas e treinos físicos acompanhados de muito alongamento. Nas refeições, comíamos uma dieta balanceada de alimentos orgânicos com ervas medicinais chinesas. 

Como um bom amador, cheguei ansioso para aprender a chutar, já que achava que nos chutes e socos eu já conseguia me virar com a minha base do boxe. Logo descobri que antes de chegar nos chutes eu teria que reaprender a andar, respirar e, principalmente, relaxar. Os anos de musculação e tensão no trabalho tinham me deixado com os ombros duros, e no Kung Fu a flexibilidade e relaxamento total da musculatura são essenciais para se defender e atacar com rapidez e força. A primeira e grande lição que tivemos sobre Kung Fu é que sem relaxar não conseguimos lutar. No ocidente temos a crença de que estarmos sempre super ocupados faz parte da rotina de trabalho e o estresse pode ser aliviado em nossos horários livres. Na realidade, assim como no Kung Fu, o estresse bloqueia nossa capacidade de atacar nossos problemas com rapidez e criatividade. Acho que ouvi a palavra “relax” centenas de vezes dos instrutores sempre que eu me atrapalhava em alguma rotina. 

Outro desafio foi entrar no flow do Kung Fu. Diferente da minha experiência com boxe e da forma como apreendemos no ocidente, não existe uma receita precisa a ser seguida de como se defender ou atacar no Kung Fu. O lutador eficiente entra na luta com a mente aberta e consegue responder aos golpes usando a força do oponente contra ele próprio. No Kung Fu, a força dos músculos não é importante e pode atrapalhar a flexibilidade de ligamentos e tendões usados de forma rápida e precisa para iniciar sequências de golpes que dependem exclusivamente de como se movimenta o adversário. O lutador que planeja sua sequência de golpes não consegue se defender com rapidez e eficiência. Toda a filosofia do Kung Fu deriva dos princípios do Tao de que não conseguimos controlar o ambiente e temos que nos adaptar à ordem natural das coisas, reagindo aos desafios que encontramos no caminho. O objetivo é entender o flow e usá-lo a nosso favor. 


Após a primeira semana de dores musculares, fomos nos adaptando ao treino e evoluindo com uma rapidez impressionante. Ajuda muito a filosofia do Kung Fu de não competição entre membros do clube. A ideia é que cada aluno se concentre em ser melhor hoje do que era ontem, canalizando a competição para um processo de evolução própria, respeitando o tempo de cada um. No Kung Fu não há faixa preta e objetivo final a ser alcançado. O que se espera do aluno é que ele comece e não desista. A evolução virá ao longo de toda a vida. Desde de criança aprendemos a competir com os outros e o resultado muitas vezes é frustrante. Queremos ser melhores que nossos colegas e um dia tão bons quanto o mestre. No Kung Fu aprendemos a desenvolver nosso próprio estilo, melhorando a cada dia. 

Partimos de Pai após um mês de Kung Fu com alguns quilos a menos e nos sentindo renovados pelos treinos e lições de vida. Decidimos tornar o Kung Fu parte da nossa rotina e incorporar o que aprendemos além da arte marcial. Mesmo com tantos países na lista de destinos a visitar, o plano é voltar para a Tailândia no ano que vem, quem sabe da próxima vez mais relaxado.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

DIÁRIO DE BORDO: Munique - Lazer e turismo típicos da bavária

Munique é conhecida mundialmente pela cerveja, mas foi a água o que mais nos impressionou. Como uma cidade de quase 6 milhões de habitantes tem um rio completamente limpo que atravessa o centro? Quem mora em Munique desfruta de um privilégio que há muito tempo perdemos nas cidades brasileiras: tomar um banho de rio no centro. O rio no verão, quase mais do que a cerveja, é um dos grandes atrativos da cidade. Suas margens viram praias e dar um mergulho após um dia quente de trabalho é costume local.


A cidade também tem vários parques e áreas verdes, entre eles, o maior e mais frequentado pelos locais é o Englischen Garten. Aqui, um dos esportes mais praticados é o surf de rio. A correnteza, formada no parque por canais artificiais, deu espaço à modalidade. Na principal onda, os mais experientes fazem todo o tipo de manobra para o delírio dos que assistem de cima da ponte. Quem não tem habilidade com a prancha, pode curtir outro esporte radical que é ser arrastado pela correnteza rio abaixo. Vimos várias pessoas curtindo a brincadeira e resolvemos testar. De fora tudo parecia fácil, mas logo vimos que a força do rio era maior do que esperávamos. Fomos arrastados por mais de 1 km e nos perdemos em meio a correnteza. Só consegui sair do rio me agarrando em galhos de uma árvore na beirada e me ralando inteiro nas pedras. Por sorte a esposa tinha conseguido sair com mais facilidade um pouco rio acima. Confesso que pensei que poderia ter ficado viúvo. Depois que sai do rio, reparei que as pessoas que se aventuravam pela correnteza tinham em média 16 anos.




Melhor que se afogar nas águas límpidas do Englischen Garten é curtir um de seus muitos Bier Gartens. Esses jardins da cerveja são grandes bares a céu aberto montados no verão e paradas obrigatórias para o happy hour. Todos servem boa comida típica da Bavária e os tradicionais canecos de cerveja de 1 litro. Depois da minha experiência de quase afogamento, nada como repor as energias com uma cerveja de trigo e um joelho de porco assado. Entre os mais bacanas que visitamos está o Chinesischer Turm, com uma estrutura enorme no meio do parque que parece um templo chinês cercado de mesas e barracas de cerveja e comida. Na cúpula desse templo cervejeiro, ao invés de monges, uma banda toca as músicas típicas da Bavária que aqui não são tocadas apenas em locais de turistas. 






Para conhecer melhor Munique vale a pena alugar uma bicicleta. A cidade é inteira cortada por ciclovias. Além dos belos parques, Munique tem um centro histórico bem preservado com cervejarias tradicionais e bons restaurantes para provar a deliciosa comida local.  

Para saber mais do "projeto 150 países" acesse o site oficial: www.projeto150paises.com

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

DIÁRIO DE BORDO: Omã - O melhor das Arábias

Omã é o oposto de seus vizinhos no Golfo Pérsico e por isso entrou há algum tempo na minha lista de países a conhecer. Diferente do vizinho Emirados Árabes, em Omã não existem aqueles prédios modernos que figuram entre os mais altos do mundo. Na capital Muscat, os edifícios são construídos seguindo a arquitetura tradicional Islâmica. Talvez por isso as fotos que vi da cidade no século 19, expostas no interessante museu Bait al Zubair, ainda parecem muito com a Muscat do século 21. O pequeno país da península arábica, assim como os vizinhos, é um gigante do petróleo, mas sua riqueza natural e a maneira como preserva seu patrimônio histórico fazem dele um dos melhores destinos do Oriente Médio. 




MUSCAT 

Começamos a nossa viagem de uma semana à Omã pela capital Muscat. A cidade é difícil de navegar sem um carro. O calor infernal que faz no Golfo Pérsico durante grande parte do ano influencia em muito o estilo de vida na capital. Aqui todos parecem ter carro, o transporte público é quase inexistente, e encher o tanque com gasolina é bem mais barato do que abastecer a geladeira com água. Por isso, o primeiro desafio em Muscat é escolher onde ficar. Meu critério principal na hora de escolher a hospedagem é sempre a localização. Gosto de me hospedar em um local que me permita conhecer boa parte das atrações da cidade a pé. Em Muscat isso não é possível. A cidade se espalha pelo litoral em uma bela faixa de praia, e conhecê-la exige alugar um carro ou utilizar o simpático serviço de taxi da cidade. 

Com poucos turistas visitando Omã, é fácil encontrar um taxista disposto a fazer o papel de guia e anfitrião. Escolhemos ficar no hotel Park Radisson, que além de bem avaliado parecia ter bom custo benefício e ficava ao lado de um dos grandes shoppings, que tem bons restaurantes. Vindo do Sudeste Asiático, já prevíamos que o shopping seria uma das nossas primeiras paradas para comprar roupas adequadas para caminharmos pelas ruas. Omã é bem conservadora e a expectativa no interior, independente do calor, é que mulheres andem pelas ruas cobertas dos pés à cabeça e homens caminhem pelo menos de calça comprida. Em Muscat ainda é possível passar batido com uma bermuda, mas no interior, aderir ao costume local é importante para que o visitante desfrute da maravilhosa hospitalidade omanita. 


Segundo a tradição, todo visitante deve ser recebido com muito café e tâmaras secas. Nunca fui grande fã de frutas secas, mas as tâmaras de Omã são maravilhosas. Segundo a tradição o convidado deve sacudir a taça quando não quiser mais café, o que normalmente acontece na terceira xícara. Isso pode significar alguns litros de café e dúzias de tâmaras ao ser recebido em uma vila. 

Começamos nossa experiência em Muscat por Muttrah, um dos povoados mais antigos da costa e onde está localizado o principal “Souq” – mercado da cidade. O Souq de Muttrah é uma boa iniciação cultural em Omã. Visitamos no final da tarde e logo acompanhamos a chamada da reza pelos auto-falantes das muitas mesquitas que existem no bairro. O souq tem mercadorias de vários países árabes, mas o maior sucesso entre os turistas são as famosas facas omanitas. Também vale conferir os tradicionais incensos que em Omã são presença marcante em todas as casas. No centro antigo fica o palácio do Sultão Qaboos, que está no poder desde de 1970. Não é permitido entrar no palácio, mas o visual do belo prédio cercado de antigos fortes portugueses já vale a visita. O centro antigo da capital é dominado por prédios públicos e o calor espanta todos da rua. Caminhamos pelas ruas sozinhos, pulando de museu em museu para nos refrescarmos no ar condicionado. 





Além do patrimônio histórico, Muscat tem ótimas praias e muitos dos melhores hotéis da cidade estão longe do centro, mas à beira mar. O nome do sultão, além de batizar a principal estrada que corta a cidade está na mesquita moderna mais espetacular que tive o privilégio de conhecer em minhas empreitadas pelo oriente médio. Inaugurada em Maio de 2001, a imponente mesquita está aberta à visitação fora dos horários de reza. O prédio imenso, todo construído em mármore, guarda o segundo maior tapete persa do mundo e tem capacidade para receber até 20 mil fiéis. O lustre do salão principal é uma obra de arte. Vale a pena colocar uma calça e uma camisa de manga comprida, e atravessar o jardim da mesquita embaixo do sol escaldante para visitar o templo. 




NIZWA 


Depois de quatro dias explorando a capital, alugamos um carro e seguimos rumo ao deserto e o oásis de Nizwa. Onde hoje há uma estrada impecável, existiu no passado uma rota de caravanas que atravessavam o deserto, parando de oásis em oásis, rumo ao que hoje conhecemos como Arábia Saudita. Para desbravar a região, nos hospedamos em uma antiga vila no oásis de Misfah. A vila havia sido quase totalmente abandonada pela população local, que deixou as antigas casas de pedra por casas mais modernas no lado oposto do oásis. Uma das famílias decidiu converter a sua casa antiga em uma pequena pensão para receber turistas com a tradicional hospitalidade omanita. Chegamos em Misfah no final da tarde e fomos recebidos por Sultan, o sobrinho do proprietário, na entrada da vila. Ali deixamos o carro estacionado e seguimos a pé pela vila até a pousada Misfah Old House, a única do vilarejo. 







Como manda a tradição, fomos recebidos com café e tâmaras. Da varanda da casa, a paisagem seca do deserto era quebrada pelo verde do oásis, repleto de palmeiras e canais de irrigação. A vila vive das frutas plantadas no oásis, principalmente tâmaras. O quarto onde nos hospedamos era simples, mas muito aconchegante. Nos sentimos privilegiados pela oportunidade de nos hospedar em um local tão especial e cheio de história. À noite, a família serve o jantar para todos os hospedes sob o céu apinhado de estrelas. Durante o dia, os hóspedes saem cedo para desbravar os belos wadis (canyons) da região. Além das belezas naturais, as principais cidades tem fortificações medievas construídas para controlar o fluxo das caravanas. Entre os fortes visitamos a espetacular fortaleza de Bahla, que acaba de ser restaurada e declarada patrimônio mundial pela Unesco. O número de visitantes é tão pequeno que pela manhã algumas salas do forte ainda estão lotadas de morcegos. 





Seguimos deserto adentro até a fortaleza de Jabrin, que ainda preserva parte de seus cômodos decorados como antigamente. O ponto alto da visita à região é chegar até o topo das montanhas de Jebel Shams onde fica o Grand Canyon de Omã. Sem um 4X4, começamos a subir morro acima sem grandes esperanças de chegar ao topo. O visual era incrível, com vilas de pedra abandonadas e belíssimas montanhas áridas com vista panorâmica do deserto. De vez em quando, um bode dava o ar da graça e nos observava com cara de reprovação. Cruzando apenas veículos 4X4 pela estrada eu já me preparava para dar meia volta quando o carro chagasse no limite. Quando o asfalto virou cascalho, já lá no alto, resolvi parar e admirar a paisagem do ponto que estávamos. Logo apareceu um Toyota pilotado por um habitante local nos oferecendo uma carona até o topo. Infelizmente a carona não era pura hospitalidade omanita e nosso anfitrião pediu uma quantia razoável para nos levar até o Canyon. Decidimos encarar a aventura mesmo assim e descobrimos que o tal Grand Canyon de Omã faz jus ao nome, e não deixa nada a desejar a seu primo norte-americano. De volta ao nosso Renault, retornamos à Misfah para curtir nosso último pôr do sol no oásis. A semana em Omã voou e só deu tempo de conhecer um terço do belo país. Para quem quer experimentar a cultura árabe no Oriente Médio de forma autêntica e sem perrengues, não há nada melhor que Omã.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

DIÁRIO DE BORDO: Coréia do Sul - Queimando a língua em Seul

Se em Tóquio ficamos impressionados com os templos, Seul nos impressionou com seus palácios. Muitos deles estão na lista de patrimônio da humanidade da UNESCO. O principal deles, o palácio nacional de Gyeongbokgung, é também responsável pela geografia única da cidade, cujo bairro central está nos arredores do complexo do palácio ao pé da montanha. Comprar o ingresso para visitar o palácio de Gyeongbokgung é como deixar a cidade e ir para o campo com uma paisagem totalmente bucólica, muito verde e belas montanhas. Os jardins do palácio são enormes e toda a região atrás do complexo é um parque nacional de acesso controlado. No auge da guerra fria, espiões norte coreanos tentaram assassinar o primeiro ministro da Coréia do Sul atravessando as montanhas do parque. O local tem belas trilhas que atualmente só podem ser acessadas por turistas que apresentarem seus passaportes e fizerem um cadastro com a equipe de segurança do palácio.


Por conta da geografia da cidade a localização do hotel precisa ser estratégica. Seul é uma cidade grande com mais de 12 milhões de habitantes. Como o centro político e comercial fica aos pés da montanha, a cidade cresce apenas em uma direção e apesar do sistema de metrô excelente, ficar longe do centro pode render longas viagens diárias pelos subterrâneos. Nós alugamos um apartamento na ilha de Yeouido, que apesar de ser um bairro moderno, atraente e ficar próximo a Assembleia Nacional, estava há quarenta minutos em metrô das principais atrações da cidade. O segredo é tentar se hospedar próximo à estação Angkur. Aqui fica o bairro de Bukchon, um dos mais antigos da cidade e com casarões históricos que sobreviveram a destruição da guerra das Coreias. A vista do alto da colina é maravilhosa, principalmente com o contraste dos antigos palácios e os novos edifícios de arquitetura moderna do centro. Passear pelas ruas estreitas do bairro de Bukchon é também uma ótima oportunidade para experimentar a comida de rua Coreana em porções mais reduzidas e com explicação em inglês. Muitos dos casarões históricos viraram hoje bons restaurantes e foi em um deles que fomos jantar com meu amigo Cheemin e sua família.




Na noite anterior, desbravando as ruas do nosso bairro Yeouido, tínhamos tido nossa primeira experiência com a gastronomia Coreana. Encontramos um restaurante cheio e animado, com o público dos escritórios do bairro bebendo e falando alto, pareciam bastante empolgados com os pratos da mesa. Fomos bem recebidos pela simpática senhora que servia as mesas, e logo nos sentou e entregou o cardápio com apenas cinco pratos ilustrados por fotos. Felizmente, apesar da grande maioria dos restaurantes não ter cardápio em inglês, quase todos têm menus com fotos dos pratos, o que ajuda com pistas visuais do que está por vir. Dentre as cinco opções, me encantei com uma gororoba que parecia um espaguete com um molho escuro com carne e legumes. Não avistei na foto nenhum pé de galinha ou pedaço duvidoso da fauna local que pudesse comprometer a refeição e por isso decidimos arriscar. Confesso que me assustei um pouco quando a senhora trouxe à mesa dois pratos, dois pares de palitos e uma tesoura enorme daquelas de cortar peru de natal. Ana me olhou com cara de desespero, e eu já me preparava para desossar um leitão ou algo parecido. Quando o prato chegou, seguimos sem entender a função da tesoura e começamos a batalha com enormes fios de macarrão grosso banhado ao molho bem apimentado. Vendo a nossa luta, a simpática senhora demonstrou como deveríamos usar a tesoura para cortar o espaguete, antes de tentar enfiá-lo na boca ou enrola-lo no palito. Nos deliciamos com o prato apesar de sentir os lábios queimando e inchando. A culinária coreana é forte em pratos apimentados e se algum garçom disser que o prato é spicy, deve ser levado muito a sério. No dia seguinte, nossa experiência gastronômica seria ainda melhor com meu amigo Cheemin.


A primeira pergunta que Cheemin me fez quando combinamos de jantar era se eu me importava em sentar no chão para comer. Eu logo disse que não, e pedi para que nos levasse em seu restaurante favorito. Nos encontramos as 17:30 na boa e velha estação Angkur, e caminhamos por vielas do bairro antigo até chegar em um beco sem saída com um casarão de madeira. Lá dentro já estavam sua esposa e filha guardando em uma sala particular com tatame que ele tinha reservado para o nosso jantar. Logo sentamos e fomos recebidos com uma série de mais de 30 pequenos pratos em uma degustação completa da culinária coreana. Me lembro de provar mais de dez legumes exóticos, um delicioso porco agridoce, belos camarões grelhados e um fantástico espaguete com legumes, servido gelado. Já havíamos provado pratos de massa gelada no Japão, mas essa estava realmente especial e perfeita para um dia quente de verão. 



Como é de se esperar em esse tipo de banquete, logo viriam algumas iguarias de sabor mais exótico para provarmos. A mais estranha entrou na minha lista das cinco coisas mais bizarras que eu comi em todas as minhas viagens. Meu amigo descreveu o prato como peixe fermentado, consta que é tradição em algumas ilhas na Coréia deixar o peixe apodrecer por alguns dias antes consumi-lo. O método, segundo o Cheemin, era algo semelhante ao do queijo Suíço, e na Coréia eram poucas as pessoas que apreciavam a iguaria como ele. Avestruz que sou, mandei um pedaço para dentro sem medo de ser feliz. Um sabor fortíssimo de amônia tomou conta da minha boca desentupindo o meu nariz como um pote de vick vaporube. Felizmente o resto do banquete estava delicioso e os pratos tinham sabor bem mais delicado que a tal iguaria.  Após o jantar, Cheemin ainda nos levou em sua casa de chás favorita. A bela casa com decoração antiga e mesas em tatame servia as típicas sobremesas coreanas que foram os melhores doces que comemos na viagem. Provamos uma sopa gelada de framboesa com gelo moído e outra de feijão doce com calda de gengibre. Para acompanhar, bolinhos de chá verde à base de arroz com cobertura de mel. Tudo servido com chás deliciosos. A simpática dona do lugar ainda nos convidou para um festival de música tradicional coreana que aconteceria em um parque no dia seguinte. Fomos ao festival no início da noite de domingo esperando milhares de pessoas, e para a nossa surpresa era um pequeno evento quase sem turistas. Haviam dois pequenos palcos embaixo de árvores com atrações que se revezavam. Pessoas de todas as idades se acomodavam no gramado. Foi interessante conhecer um pouco da música tradicional coreana e observar o orgulho que eles têm de sua história e tradições.  

Nos nossos últimos dias em Seul exploramos os cantos mais modernos da capital, como o famoso bairro de Gangnam, que ficou conhecido internacionalmente pela música de um gordinho fashionista que rebolava de forma esquisita cercado de belas mulheres coreanas. Lembro que a música tocava em todos os cantos do mundo no ano que foi lançada, mas pouca gente sabe de onde vem o tal do Gangnam que serve de refrão. Logo que saímos da estação de metrô, demos de cara com um palco montado na principal avenida do bairro com o nome da música. O turista que quiser pagar um mico na avenida principal onde passam milhares de pessoas por minuto, pode subir no palco e apertar um botão que a música começa a tocar e você pode arriscar suas habilidades reproduzindo a famosa dancinha. 





Completando nosso momento globalização da música, enquanto observávamos um grupo de turistas espanhóis dançando ao som de Gangnam Style, um telão gigante na avenida mostrava nosso querido Neymar cantando Ai se eu te Pego com o Michel Teló. Ainda bem que esse telão não vinha com o botão de som. Muito além da música brega, Gangnam é um bairro moderno e fascinante com muitos bares e restaurantes lotados de gente jovem e feliz. Estranho imaginar que há 100 quilômetros dali fica a vizinha Coréia do Norte, onde o gordinho esquisito mais famoso não é o cara que canta e rebola, mas o ditador que governa o país. 

Quem quiser conhecer a fronteira das Coreias pode contratar um tour oficial da DDR, zona desmilitarizada que divide os dois países. Eu pretendo ir mais a fundo e desbravar a capital Pyongyang por alguns dias. Não é possível atravessar a fronteira entre as Coreias, mas é possível visitar a Coréia do Norte a partir de Beijing, comprando pacotes de viagem com agencias chinesas que incluem a experiência de voar com a companhia aérea norte-coreana, eleita muitas vezes a pior CIA aérea do mundo pela Sky Trex. Um dia espero compartilhar as minhas aventuras na Coréia do Norte aqui nesse blog, mas essa fica para uma próxima viagem. Por enquanto deixo aqui meus agradecimentos a hospitalidade calorosa que recebemos em Seul nos belos dias que passamos por lá. Diferente do vizinho o acesso ao sul é fácil e sem a necessidade de visto. Uma visita a Seul pode ser facilmente combinada com Japão ou China.