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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

PERFIL: Felipe Carreras - O homem por trás do político

Escrever sobre um político sem tocar no tema política. Uma missão praticamente impossível ao se falar do pernambucano Felipe Carreras, atual secretário de Turismo, Esportes e Lazer do Governo do Estado. De sorriso largo e com cara de menino, é o que se pode chamar de um cara muito família. Pai de três meninas, com as quais sua vida pública disputa espaço, Maria Luiza de 7 anos, Letícia de 5 e Laís de 4, sempre que pode estar envolvido em brincadeiras e passeios divertidos. Segundo o secretário, a proximidade de idade delas faz com que tenham energia de sobra, e a bateria não descarrega nunca. Por isso tem que ter jogo de cintura para conciliar as três e as atividades de Governo. “Às vezes, o final de semana é muito demandado pela política, vira e mexe chamam pra uma agenda no interior ou uma reunião. Mas, quando consigo, paro tudo e fico com minhas filhas. Viajo com elas, fico em casa brincando e as levo para passear. Comprei até uma barraca de camping e coloquei na sala pra acampar com elas”, brinca Felipe.   


Mas a política está tão entranhada em sua vida que a única fase em que não a viveu foi na infância. Período, aliás, que Felipe considera como tendo sido o mais saudável e feliz possível. “Como morava em Casa Forte, minha infância foi brincando por ali, pela praça e no Poço da Panela, andando descalço. Chegava da escola e ia jogar bola, andar de bicicleta, empinar pipa na beira do rio, disputando com meus amigos quem derrubava a do outro. Negócio de moleque mesmo. Infelizmente a gente não vê mais isso na criançada de hoje”, pondera.

Nessa fase, que permeia as memórias afetivas do secretário, ele estudou na Escola Padre Donino, a mesma que o mestre Ariano Suassuna e o governador Eduardo Campos frequentaram. Mas foi mais ou menos na época da faculdade que sua história cruzou com a política. Depois de estudar na Escola Técnica Federal, foi para a Universidade Católica de Pernambuco. Foi por lá que entrou no Diretório Central dos Estudantes. “Logo no primeiro período, me chamaram para integrar uma chapa cujo nome era Depende de Nós, disputando com mais duas. Foi minha primeira vitória. Virei secretário geral do DCE em 1996”, diz.
De lá para cá, sua trajetória ascendente fez com que a rotina ficasse cada vez mais puxada, enfrentando hoje uma verdadeira maratona. Felipe começa o dia normalmente às 6h, e, por vezes, estica até 23h. Para aliviar um pouco o estresse, já que sempre teve intimidade com os esportes, gosta de correr. “Esse ano eu não estou do jeito que eu gostaria, a verdade é essa. Venho para a Secretaria quando não tenho agenda fora, mas normalmente até na hora do almoço eu trabalho. Sempre tenho um encontro com alguém que não tem brecha na agenda. Termina que o almoço vira reunião”, desabafa. 

O que pouca gente sabe é que enquanto sua história na política se desenrolava, Felipe passou um bom tempo como um próspero produtor de eventos. Fato curioso é que, o primeiro partido ao qual se filiou é o mesmo que permanece até hoje, o PSB, tendo sua ficha assinada por ninguém menos que Miguel Arraes. Mas quando o então governador perdeu a reeleição, em 1998, Felipe saiu e ficou desempregado. Precisando de dinheiro, iniciou sua segunda carreira. “Comecei a fazer evento com o amigo Augusto Acioli, que também trabalhava comigo no Palácio. Iniciamos com a maior calourada da história da Católica, quando éramos do DCE. Mas ainda era para o Diretório e não para nós. Também tinha o camarote para a juventude do partido no Carnaval de Olinda. Ou seja, no Governo e na Faculdade aprendemos a fazer festa. Com essa expertise, resolvemos entrar no mercado. A partir daí, dois eventos foram emblemáticos, o Olinda Beer, que veio dos camarotes, e um agito no bar Oitão na Copa do Mundo, que veio da calourada. Mesmo com o fim dos jogos, passamos a repetir semanalmente. Bombou, esgotava ingresso. E esse foi o início de tudo. Foi a partir daí que surgiu o Caldeirão”, revela.

Apesar dos negócios promissores, ainda jovem, a paixão pela política nunca o abandonou. Sua relação forte com o saudoso Eduardo Campos, o fez praticar a militância em todas as suas campanhas. “Quando trabalhei na juventude da campanha de Eduardo (1992), aos 16 anos, lembro que foi meu primeiro voto”. Em 94, Felipe integrou a juventude na campanha de Arraes, que saiu vitorioso, e passou a trabalhar no gabinete do Governador. “Escolheram os jovens mais ativos. Eu era só um jovem cheio de ideais. Mas Eduardo (Campos) era o secretário do Governo. Ele sabia que eu era ativo e me deu a chancela”. Já em 95, organizou o primeiro Fórum Jovem da Frente Popular. Em 96 foi eleito secretário nacional da Juventude do PSB, membro da executiva nacional do partido. 

Mas, foi no ano de 2012 que a história de Felipe Carreras começou a fazer parte mais ativamente da vida pública local, quando chamado para ajudar a coordenar a campanha a prefeito de Geraldo Júlio. “Estava chegando ao Centro de Convenções (de Pernambuco), Eduardo liga e pergunta – “O cavalete da campanha tá guardado ainda? Tem material de som?” Respondi: tá tudo guardado. Ele contou que lançaria Geraldo Júlio candidato e que precisaríamos estar no final de julho com dois dígitos para ele. Eu disse, governador meu nome é pronto, ‘vamo simbora’. O prefeito se elegeu e fui sondado pra entrar na Prefeitura. Conversei com meu sócio sobre isso e ele perguntou se eu tinha esse sonho, eu disse que sim e ele disse que tomava conta das coisas no nosso negócio”, relembra.

Segundo o secretário, nesse momento sua cabeça ‘virou a chave’. Saiu de sua zona de conforto, já era dono do próprio negócio e acordava e trabalhava a hora que queria. “Se Augusto quisesse fechar a porta depois do almoço da sexta e tomar uma cerveja a gente podia, e era o que normalmente acontecia”. Ao entrar na Prefeitura, sua rotina mudou completamente. Logo passou a ser o secretário de Turismo e Lazer do Recife, onde passou 15 meses. Depois lançou candidatura a deputado federal, a pedido do partido, “eles achavam que eu tinha perfil metropolitano jovem e tinha um papel a cumprir, com a linguagem da nova política que Eduardo pregava”. Obteve uma grande votação, sobretudo para um candidato que nunca havia disputado nada.  Contudo, não foi para a Câmara representar o Governo. “A forma que tenho de compensar os eleitores por não estar em Brasília é fazendo e realizando aqui, justamente por eu ter esse perfil executivo que eu consegui acumular com as realizações da Secretaria da Cidade e que posso, hoje, transferir para a Secretaria do Estado, colaborando com o governador Paulo Câmara”.



E assim segue Felipe, sempre a postos para um novo desafio, político ou pessoal, ao lado de suas três filhas. Seja no Gabinete, seja na cabaninha na sala de sua casa.

Assista o making of do ensaio:


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

ENTREVISTA: Uma conversa franca com Luciano Bivar sobre política, esporte e intuição

Luciano Bivar, é um empresário com várias experiências que extrapolam a rotina de negócios. Além de presidente do Conselho de Administração da Companhia Excelsior de Seguros, Bivar já foi seis vezes presidente do Sport Clube do Recife, presidente nacional do Partido Social Liberal (PSL) e é apaixonado por tênis e barcos. Conversamos sobre essas múltiplas funções e ouvimos dele respostas para perguntas que envolvem futebol, política, crise e seu mais novo livro. Um livro que por sinal cai bem para o momento em que vivemos entre a razão e a emoção para evitar erros e cometer mais acertos.

Vamos começar pela novidade, seu mais novo livro. Você já publicou livros sobre política, Cuba e a situação do Sport Club... Como é esse novo livro? É uma tese nova que nós tratamos, o livro é uma visão jamais abordada sobre o cérebro humano, e as reações de nossas mentes no dia de cada um. Ele nasce de uma busca incessante de todos nós pelo "porque" de nossas emoções, de nosso estado de espírito. Trata da maneira pela qual possamos administrar nossa cabeça, para que tudo seja mais colorido. E tudo isso decorre de uma terceira mente, que identificamos como a Mente Intuitiva. O livro tem uma linguagem simples a acessível, seu original foi comprado pela MBooks e estará sendo vendido em todas as grandes redes de livraria do País.

A que se daria isso? A pessoa tem que está aberta... A pessoa tem que estar aberta a isso ou alguns tem mais facilidade? Todos têm o dom da intuição. Só que uns ouvem, outros não. E no livro, não só pesquiso como relato pequenas histórias de minha vida, às quais não dei a devida importância a minha intuição. Às vezes fui seduzido, às vezes não, por outros valores e me perdi pelas opções erradas que percorri. Mas o alerta da "luz amarela" havia piscado, eu é que não soube dar o verdadeiro valor. Esses acontecimentos são lições que armazenamos em nosso córtex frontal, e servem como memória numa terceira mente, para rebuscarmos em comportamentos futuros. Tenho certeza que o leitor vai gostar muito. Com diz Oliver Sacks: “não penso em mim como homem de letras, o que tento é dizer e apontar coisas do que realmente acontece no labirinto de nossas mentes”. 

Como você ver o futebol hoje? O Sport está até indo bem, mas como você o vê? Você não pode falar do futebol pernambucano sem falar no macro, o futebol brasileiro como um todo. Depois do advento da Lei Pelé, decaiu vertiginosamente. Há muito esbravejava e escrevia que o populismo de uma mídia desavisada, onde entendia que vivíamos um processo escravocrata, e tirou dos clubes, seu principal ativo, que era os passes dos jogadores. Depois disso, o que aconteceu: os clubes de futebol ficaram falidos e os intermediários de jogadores se tornaram milionários. Apenas a minoria, foi beneficiada e a grande maioria de atletas perdeu seus vínculos com os clubes e acabaram no esquecimento. O Brasil hoje tem 60% menos atletas registrados nas Federações do que antes da lei Pelé, consequentemente menos investidores, e um universo bem menor para catalogar talentos. O Sport, acredito que foi um dos poucos clubes que, após a lei Pelé, conseguiu equilibrar-se financeiramente, diferentemente dos maiores clubes do futebol brasileiro que devem fortunas impagáveis ao fisco e à Justiça do Trabalho. Isso, naturalmente, deveu-se a um processo de austeridade em várias gestões, de gastar aquilo que recebia, um orçamento rigorosamente observado. Hoje, já não sei se essa política continua vigendo.


E hoje você não vê possibilidade disso ser revisto? Ou você vê com cerimônia, vai continuar assim ou vamos usar um pouco da intuição por que esse negócio não está dando certo? Como disse há pouco, em outras palavras, o populismo sobre a lei do passe é tamanha, que poucos têm coragem de criticar essa famigerada lei. Fala-se de tudo, menos alterar a lei do passe e, esse é o verdadeiro motivo da derrocada do futebol brasileiro. Minha intuição já dizia isso, muito bem retratada em artigo que escrevi no Jornal do Comércio e em outros veículos de divulgação em 27 de setembro de 2000, cujo título se não me falha a memória era Rèquiem para o futebol.

Hoje se tem passes altíssimos, você tem um valor padrão Neymar... Isso daí também para quem quer começar no esporte, acha que isso aí é a solução, que vai ficar milionário se for um bom jogador. Eles terminam esquecendo de fazer a base. Onde você pode ser mediano e ganhar bem sem necessariamente ter que ir pra fora. Você não acha? Exato. Com a Lei Pelé, você beneficiou os super-craques e esqueceu a base. Não só os grandes clubes, como toda periferia. Ninguém investe na garotada. Quando um atleta chega ao Clube, já tem dois ou três procuradores, detentores de seus direitos federativos, usam os clubes como barrigas de aluguel.

Estamos passando por uma crise política, economia e de identidade. Não sei se quando você foi candidato, um dia vislumbrou que poderíamos chegar a isso. Você imaginava que um dia chegaríamos a esse cenário? Olha, num primeiro ano do governo da Dilma eu cheguei num programa em cadeia nacional, e disse que ela era uma mulher com honestidade de propósito. Eu me enganei. Quer dizer, todos os brasileiros foram enganados. Eu acho que na cúpula, hoje no Brasil, não tem mais honestidade de propósito. Quando você vê o caso do BNDS, o Brasil emprestar um dinheiro para receber 25 anos depois, segundo a revista Época, para trocar em medicamentos. Com tantas coisa que você tem que fazer. Por que eu nunca vi uma coisa tão orquestrada para a evasão de divisas do Brasil, e você não sabe como esse pessoal se beneficiou. Eu estou falando pelo que leio. Não faço parte da equipe do Procurador Geral, mas pelo que a gente lê, o que sai nas revistas... pela credibilidade que as revistas passam, a gente só pode se guiar por aí.

Dentro desse cenário de crise política, o que a gente deve esperar nos próximos 2 ou 3 próximos anos? Olha, primeiro a origem disso aí a gente não sabe, a gente sabe que existe. Agora até onde vai perdurar isso, eu não sei. Felizmente a gente tem um poder muito grande, que é o poder da imprensa. Que é independente. O Brasil é um país, graças a Deus, que tem uma infraestrutura de produção. Diferentemente da Grécia, de outros países que não têm condição nenhuma. Basta que agente começasse a administrar, gerenciar, o país de maneira correta. Eu não sei se dentro dessas investigações todas, ela (a Presidente) vai ter sustentação, credibilidade para administrar o país.

Durante sua campanha você defendeu muito o “imposto único”. Você ainda é defensor? Ainda sou defensor. Hoje com o avanço da tecnologia, o negócio é você simplificar, você fazer cobranças eletrônicas. A gente tem um verdadeiro manicômio tributário. Então, se a gente simplifica pro país, em termos de arrecadação, esse imposto simplificaria demais. E você teria uma economia muito grande da máquina arrecadadora, que na época, segundo estudo levantado por nós, consumia o equivalente a 3% do PIB brasileiro. Então, você imagina que valor não é para ter uma máquina arrecadadora. Então tudo isso seria eliminado. 

A Excelsior é uma das empresas investidoras no Porto do Recife. Como você vê a revitalização dessa área? Que incentivos receberam? Ou poderia ser melhor tratada essa questão? Eu que tenho que ser melhor tratado, mas isso mesmo não acontece na realidade, os problemas que a gente tem com os órgãos ambientais, os órgãos sociais da Prefeitura. Não recebemos nenhuma benesse, nenhum incentivo fiscal. Muito pelo contrário, eles cobram taxas exorbitantes pra a gente investir com recursos próprios numa coisa para a cidade. Essas coisas é que, eu volto a dizer, são desestimulantes. Quando investimos uma vez, eu e outro empresário, lá no Porto Madeiro, em Buenos Aires, nós recebemos incentivos da Prefeitura de Buenos Aires. Aqui muito pelo contrário. Só temos dificuldades. E exigindo taxas de mitigação, como se a gente tivesses criando impactos ambientais, aí no Porto do Recife. Para você ver como nós estamos.

Além dos investimentos que você tem em Recife, você tem em Miami. É um fluxo natural que você está vendo nesse momento? A grande opção que a gente tem como ocidental, quando você tem seus recursos, que foram tributados que você ganha honestamente, você investe onde dá retorno. Embora que,  como pernambucano, todos os nossos negócios têm sido aqui. Nós da Excelsior, somos a única seguradora do Brasil que tem matriz no NE. E não é fácil isso. Miami foi uma opção pessoal, não da Empresa e tem sido de alguns brasileiros, mas hoje não temos quase nada. Também foram desestimuladas até pela necessidade da gente repatriar nosso capital.

Como anda a paixão por barcos? Não digo nem que seja paixão, está mais para meu prosac (risos) só, que qualquer outra coisa, mas não posso dizer, que não fazem parte de minhas alegrias.

Que recado você deixaria para esse momento delicado da economia, para usar mais essa intuição, essa terceira força? No livro eu até falo que você tem intuição, óbvio, mas você tem que trabalhar no sentido certo. Não acredito intuição sem alma, como não acredito em progresso sem trabalho. Acho que o Governo perdeu a alma e se não recobrá-la a curto prazo, não tem plano econômico que dê jeito. Reformas urgem, para diminuir o custo Brasil, para deixarmos de ser um país pseudo assistencialista, e nos tornarmos uma Nação moderna e produtiva.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

CIDADANIA: Das ruas às urnas - E agora, é melhor um plebiscito ou um referendo para se consolidar a reforma política de que tanto precisamos?

O povo saiu às ruas e o gigante acordou. Esse foi o brado de milhares de pessoas que se juntaram em grandes manifestações que o Brasil não via há mais de 20 anos. Os cartazes nas ruas, a falta de liderança clara, a multiplicidade de desejos e a horizontalidade do movimento refletem bem os novos tempos em que somos todos protagonistas da história. Afinal, a informação, motor propulsor das mudanças, hoje é curtida, compartilhada, retuitada e atualizada em um piscar de olhos. 

E, naturalmente, as vozes da rua não passaram despercebidas. O grito de insatisfação fez-se ecoar Brasil afora. Logo, todas as instâncias políticas reagiram, ou declinando de seus pontos de vistas (afinal não é só por R$ 0,20!) ou sendo propositivos, com pactos de compromisso para efetuar as mudanças que se faziam chamar. E, desse novo momento, nasceram algumas ideias que estão deixando governo e povo cheios de dúvidas.  E agora, é melhor um plebiscito ou um referendo para se consolidar a reforma política de que tanto precisamos? 

VAMOS POR PARTES! 

Primeiro, por que uma reforma política? Assim, de forma bem simples e crua: porque tem alguma coisa muito errada no que está aí há muitos séculos. Não é de hoje, nem de ontem, mas a corrupção faz parte da própria formação brasileira, não é exclusiva dos políticos, mas intrínseca aos 200 milhões de brasileiros. Porém, é na política que ela encontra um terreno fértil para se enraizar e provocar estragos monumentais na sociedade. O sistema político que nós temos está visivelmente falido. Por não ser transparente, produz aberrações e dá brechas para oportunistas e aproveitadores. Por isso, um dos caminhos mais viáveis e rápidos de se combater a corrupção (a maior demanda das ruas) é com uma reestruturação no sistema político brasileiro. Mas, como o buraco é mais embaixo, a reforma já rola na câmara há muito tempo sem chegar a um consenso e depende justamente deles, do Legislativo, dos nossos queridos deputados e deputadas. Tudo bem, a gente tem consciência de que fomos nós mesmos que os colocamos lá, mas, vamos combinar, ficaria meio estranho eles decidindo sobre o futuro deles mesmos.

Foi então que o governo, ouvindo o clamor popular, propôs que a sociedade se manifeste legalmente e não só em cartazes escritos nas ruas. Como você quer essa reforma política? O que você considera importante mudar? Isso só seria possível por meio de um plebiscito (ou de um referendo, como quer a oposição). Quando a ideia foi lançada em pronunciamento oficial pela Presidenta da República, logo se tornou a estrela dos noticiários e o centro dos debates políticos do país. Afinal, essa coisa de plebiscito é meio estranha para os brasileiros. O último foi em 1993, quando foi questionada ao povo qual a forma de governo desejado: República ou Monarquia (serio?!); e qual o sistema se Parlamentarismo (como é mesmo?) ou Presidencialismo (ah, esse sim!). Isso foi determinado pela então recente constituição de 1988. Era só para bater o martelo mesmo. E, claro, o regime Republicano venceu com 86,6% dos votos e o sistema Presidencialista, com 69,2%. Passada a euforia de quem seria nosso Rei, só voltamos novamente às urnas para uma consulta popular 12 anos depois. 

A VOZ DO POVO

Dessa vez foi um Referendo (a diferença a gente vê já já). Em 23 de outubro de 2005, pouco mais de cento e vinte e dois milhões de brasileiros foram às urnas para decidir se o comércio de arma de fogo e munição deveria ou não ser proibido no Brasil Foi um marco histórico. Foi a primeira vez no mundo que uma população foi consultada sobre a comercialização das armas. Aposto que esse você lembra! Até porque esse Referendo dividiu o país entre os que eram a favor e os que eram contra. Mas dificilmente você vai lembrar se votou sim ou não. Afinal, a pergunta foi meio complicada... O comércio de arma de fogo e munição deve ser proibido no Brasil? O sim dizia não às armas e o não dizia sim às armas. Pronto! O bicho pegou, foi uma confusão, ninguém sabia direito o que queria, nem o que queria dizer com seu voto. O resultado final foi uma virada de mesa: o não ganhou com 63,94% dos votos. E viva as armas! 

Apesar de as consultas populares serem um método bastante popular em outros países - a Suíça, por exemplo, já realizou mais de 500 Referendos na sua história - esse é um fato novo para o Brasil. Seja um plebiscito ou um referendo. O primeiro é convocado antes da criação da norma, e é o povo, por meio do voto, que vai aprovar ou não a questão que lhe for submetida; o segundo, por sua vez, é convocado após a edição da lei, devendo o povo ratificá-la ou não. É assim: ou o povo diz antes a sua vontade, ou depois diz se concorda ou não. Simples assim! 

Sendo um ou outro, uma consulta popular é, por excelência, o momento majestoso de um governo democrático. Nada mais representativo do que a escolha do povo sobre um determinado tema. É a vontade da maioria que será expressa em lei. É através desse acontecimento político que a democracia direta prevalece – cada voto dos milhões de eleitores tem o mesmo peso e valor e, ao final da contagem, sua vontade será lei. A proposta de um plebiscito vem bem a calhar em um momento que o povo quer falar e se manifestar. Eis o momento de tornar real o grito das ruas. Mas, isso requer um pouco mais de responsabilidade do que fazer posts engraçados no Facebook e cartazes criativos nas passeatas. É hora de analisar, pesquisar e decidir com consciência a escolha final. Afinal, seu voto agora é lei! 



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