sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

CAPA: Os desafios e sucessos de Marcelo Serrado

Marcelo Serrado é desses caras com carisma natural. De uma linhagem de atores que ama a profissão e respeita muito o que faz, por si e pelo público. É um ator que se diverte levando à sério cada personagem, cada novela, peça, ou filme. Não se deixa levar por fama ou qualquer outra coisa fugaz e tão comum no meio artístico, . ela Ele acredita em emoção e trabalho. E isso não faltou na sua novela mais recente, Velho Chico, onde deu show de interpretação do começo ao fim.

“Um Bonde chamado Desejo” e você estreou como ator. E hoje, tantas décadas depois, quais seus desejos de ator? O que te move nessa profissão? Na verdade eu estreei lá substituindo. Eu era aluno do tablado e fazia peças com a querida Louise Cardoso que era minha professora na época. Foi o começo de tudo. O que me move são os personagens, é o que cada personagem pode dizer. O que me motiva é sempre poder fazer coisas completamente diferentes, estar sempre em busca de algo novo, algo que eu nunca fiz, que me coloque em prova, que eu possa errar também, aprender, está sempre aprimorando.

Como foi a experiência de “largar” as novelas da Globo para se arriscar na série Mandrake na HBO Brasil na pele do policial Raul? Foi incrível! Eu tinha terminado meu contrato com a Globo, naquela época, e aí me chamaram pra fazer Mandrake e trabalhar com amigos. ; Henrique Fonseca, Conspiração, Marcos Palmeiras, foi tudo uma junção de coisas boas. Poder encontrar meu amigo Marquinhos Palmeiras, agora em Velho Chico, foi fabuloso. Foi uma experiência única fazer Mandrake. Tem gente que lembra até hoje e fala comigo “Pô Raul (personagem de Marcelo na série), como é que tá?” Muito legal.


Falando em séries, elas ganham cada vez mais espaço, ainda mais depois do canais on demand. Você segue alguma? Sigo várias séries! Sigo The Walking Dead, Game Of Thrones, Black Mirror, The Bridge e agora estou vendo a do meu amigo Rodrigo Santoro, The Westworld, que é incrível. Uma série fantástica de Jonathan Nolan e produção de JJ Abrams, produtor que fez Lost. Vale a pena ver, tá na HBO no domingo à noite. Eu adoro séries, via muito Friends, Sienfield, durante muitos anos, Mother Family. Gosto bastante de séries.

Ainda nesse tema, plataformas como a Netflix mudaram o jeito de se assistir narrativas seriadas. De uma só vez você pode assistir toda uma temporada sem aquela angústia da espera ou o medo de chegar em casa atrasado e perder o capítulo. Como vê essa nova realidade de relação do espectador com a TV? Como vê a TV aberta nisso tudo? É incrível, realmente é uma comodidade muito boa. Por exemplo, ontem vi dois capítulos diretos de Narcos. Isso é muito bom. A Globo já está indo nesse caminho também, né? Eu pude ver cenas minhas quando a novela tinha acabado. Uma vez eu saí do estúdio, eram 10h da noite, eu estava no taxi, coloquei no Globo Play e vi minhas cenas da novela neste mesmo dia. Então não tem jeito... Isso é o futuro, não tem como fugir disso, não.

Crô, seu personagem na novela global Fina Estampa foi um sucesso entre todas as idades. Qual o carisma do personagem? E como foi levá-lo para o cinema? O Crô foi realmente daquelas coisas que acontecem às vezes. Uma vez na tua vida. O Crô é, para mim, como uma Carminha pra Adriana Esteves, um Félix pro Mateus Solano, um Sinhozinho Malta pro Lima Duarte, Nazaré Tedesco para Renata Sorah. É um personagem que ficou icônico. A viúva Porcina pra Regina Duarte. São personagens que ficam marcados em um ator. Eu agradeço todo dia a Deus, e a Aguinaldo Silva, por me dar esse presente que me marcou muito, que me deu 2 milhões de espectadores e o Crô está sempre na memória das pessoas aí, estão sempre perguntando por ele. É uma honra muito grande poder ter feito isso, poder ter levado essa alegria pras pessoas.


No palco foram mais de 20 peças, entre elas “Não existe mulher difícil” de 2011. Em tempos de empoderamento feminino, estando no seu terceiro casamento e tendo uma filha, como vê o espaço da mulher em nossa sociedade e temas como aborto e estupro? A mulher tá aí, né? A mulher domina a gente. Eu sou completamente cercado de mulheres. Da minha mãe, da minha mulher Roberta, da minha filha Catarina. Nós precisamos delas. Eu acho fundamental essa emancipação da mulher de uns anos pra cá. Direitos iguais, a mulher tem de comandar, ser diretora das empresas. Eu já peguei um avião que uma mulher era piloto. Então é isso. Jogar futebol, times de futebol femininos. E sobre essas questões de aborto, eu acho que deveria ser um direito da mulher, ter um filho ou não. Às vezes é um estupro, às vezes é um filho não desejado...Isso é uma coisa que deveria ser mais estudada, não deveria ser proibido, a mulher deveria ter o poder de ter o filho ou não.

“Malu de Bicicleta” de 2010, lhe rendeu prêmio de melhor ator do Festival de Paulínia. Como lida e enxerga a premiação no mundo artístico, desde as regionais até o Oscar? Foi um prazer ganhar esse prêmio. Ganhei em Gramado de melhor ator com outro filme. Prêmio é sempre muito bacana, é uma espécie de carimbo daquilo que você está fazendo, mas não muda muito a carreira do ator. O que muda é o dia a dia, o trabalho, o suor. Trabalho, trabalho, trabalho e trabalho!

Filhos. Como e para que educá-los? Quais as maiores dificuldades que vê na educação contemporânea e quais as delícias da paternidade? Ah, filho é um barato, né? É muito difícil educar, saber se está dando a educação certa, se você está no caminho certo...Mas é uma descoberta, você descobre com seu filho também. Eles ensinam também e você aprende junto. Mas eu acho fundamental. Quem não tem filhos não imagina como é a vida sendo pai. A vida se completa. Eu não consigo me imaginar sem ser pai. É uma nova janela que se abre. É mais que sua continuação, é uma troca de generosidade. Você passa de olhar pra você pra olhar pro outro. Você deixa de ser ego centrado e tem uma pessoa ali que depende de você, e que você acha até que é mais importante que você.



No Fla x Flu que anda a nossa política, muitos artistas têm se manifestado publicamente em prol disso ou daquilo. Nessas horas é o artista formador de opinião dando seu testemunho ou o cidadão comum exercendo suas escolhas? Eu acho importante o artista se posicionar, mas também já mudei um pouco de opinião depois que eu me posicionei na internet. Tomei paulada, mas acho que esse Fla x Flu não interessa a ninguém. Na verdade as pessoas pensam diferente. A tolerância é fundamental nesse momento. E a internet deu voz aos idiotas como diz Umberto Eco, escritor italiano que eu acho incrível. A gente tem de tomar cuidado por ser pessoa pública. Posicionar-se é importante, mas hoje em dia eu prefiro não entrar muito no debate político, principalmente na internet. Porque é uma opinião minha, não vou mais dividir isso com ninguém. Até porque às vezes as suas certezas não são tão certas, já que, a meu ver, na política brasileira são todos enrolados . É difícil você citar um político aí que não esteja com “o rabo preso”. Existem bons políticos, mas são raros. É difícil você defender um partido ou outro, porque, a meu ver, está tudo no mesmo saco.

Velho Chico, recém finalizada, trouxe à tona a velha (?) política dos coronéis, a exploração do sertanejo, a luta de classes, a disputa de poder, casamentos arranjados, brigas de família...Que lições e reflexões considera que a novela deixou? Eu acho que Velho Chico foi um marco na televisão brasileira. Acho que foi uma novela tipicamente brasileira, uma obra brasileira, que a população falava. Dos ribeirinhos, mas também dos coronéis, dos mandos e desmandos destes coronéis do sertão. A gente falava sobre sintropia, a gente falava sobre questões que nós da cidade grande estamos pouco habituados a lidar, né? Então foi uma novela que fez um grande serviço e deu um novo olhar. Você poder ligar a televisão e ver um outro tipo de novela, outra imagem, com personagens diferentes. Eu sou muito grato de ter feito essa novela e muito feliz de ter participado. Muito grato mesmo, principalmente a quem me chamou, a Edimara Barbosa, - autora e ao Luiz Fernando Carvalho, junto com o Bruno, que escreveu e o Benedito. Eu acho que é uma novela que entrou pra ficar.

Mas além de questões sociais, Velho Chico também trouxe a tônica do amor maior que tudo, o respeito pela terra, pela natureza, isso sem falar da belíssima fotografia. Qual o seu conceito de amor? O amor é o respeito, amor ao próximo, amor à terra, amor aos animais. Meu conceito de amor é que estamos num todo. A gente está ligado à terra. Esse amor pela terra, por exemplo é fundamental. E hoje em dia eu tento comer menos animal e comer mais coisas ligadas à terra. Eu vi, na novela, que pode ter uma terra que não seja mais cuidada, que não tenha mais como plantar e tem gente que consegue transformar aquela terra em uma boa plantação, mesmo aquela terra não sendo adequada. Então a novela mostrou certas coisas que a gente não sabia.

Acha que seu personagem teve o destino merecido? Acho que sim, né? Ele foi tragado pelo sertão. O sertão engoliu o personagem. Incrível aquela cena. O personagem teve o final que merecia, aquele vilão caústico, vestido de preto, aquela áurea de corvo, um Darth Vader do sertão. Eu gostei muito.

Ser ator é viver várias vidas. O que tira de melhor dessas possibilidades? Exatamente, viver várias vidas, né? Ser pessoas diferentes, poder viver personagens diferentes, hoje vou ser isso, amanhã serei aquilo, isso é um barato na vida do ator. É o que nos move. Essa inquietude da gente poder acordar e ser outra pessoa. Mas eu também não sou um ator que levo o personagem pra casa não. Às vezes eu fico um pouco impregnado, mas tento separar bem as duas coisas, o que é a profissão e o que é a vida pessoal. Desligar aquela chave e tirar a roupa do personagem. Eu amo o que eu faço. Estou completamente devoto à minha profissão. Eu sou um cara totalmente dedicado, estudioso. Eu levo a minha profissão bastante a sério, também com muito humor e muita brincadeira, mas levo no sentido a sério de...É uma profissão que leva emoção as pessoas, então eu tenho que fazer o meu máximo pra levar emoção para as pessoas que estão me vendo no palco ou em casa.



Fotos Edu Rodrigues
Produção Executiva e Direção Criativa Márcia Dornelles
Stylist Marlon Portugal
Beleza Dani Kobert 

MARCELO VESTE: Look 1 - Bermuda Wollner, camisa Forum, tênis Reserva; Look 2 - Malha Redley, camisa Ellus, blazer Zara, calça Wollner, polo Reserva, pull Reserva, costume Calvin Klein, calça Calvin Klein, tênis Reserva.

CINEMA: Match - Um curta-metragem que expõe as relações em tempo de redes sociais

Um curta que deu muito o que falar em 2016 em alguns festivais foi Match, de Diana Chao, que tem como protagonista o ator Domingos Antonio (nossa capa em 2013), e fala das relações em época de redes sociais. A MENSCH conversou com eles para entrar no clima de Match e entender um pouco mais das relações em tempo de redes sociais.  

Quando e como surgiu a ideia para o curta Match? Domingos Antonio - Passei boa parte do ano passado em Los Angeles e durante a minha estadia pude vivenciar, in loco, a experiência de se morar numa cidade impulsionada por uma indústria, por definição, extremamente egocêntrica. É perceptível que os losangelenos possuem algumas bolhas particulares. Suas casas e mais proeminentemente seus carros, imprescindíveis numa cidade gigantesca como Los Angeles. Essas bolhas são uma infeliz realidade de qualquer grande metrópole, porém por lá a solidão que essas bolhas suscitam é curiosamente maquiada pelo céu sempre azul e por sorrisos perfeitos (e vazios).

Por onde quer que se ande o resultado palpável disso é uma enorme dificuldade de se construir conexões humanas autenticas e significativas o que em mim criou uma frustração angustiante à medida que precisei recorrer a aplicativos de relacionamento como o Tinder com muito mais frequência a fim de conhecer novas pessoas e paquerar, entretanto em uma cidade em que a desconexão humana é uma norma a distância entre pessoas fica ainda mais acentuada quando existe uma tela de celular entre elas. Foi dessas frustrações e percepções de quão desconectado eu estava com minha própria humanidade e com as pessoas ao meu redor que surgiu Match. 

As relações mais frias e digitais são uma rica fonte de inspiração para histórias hoje em dia? Domingos Antonio - Sinto que vivemos na era do sou visto logo existo e uma premissa como essa é certamente extremamente rica para um mergulho na alma humana. Nossos egocentrismo e narcisismo são imutáveis, fazem parte de nós desde sempre, porém eles se adaptam às novas ferramentas e adquirem novas formas. Séries como Mr. Robot e a espetacular Black Mirror são cirúrgicas ao capturar o inconsciente coletivo da nossa geração e por isso são, até certo ponto, apavorantes. Nós, contadores de histórias, erguemos o espelho no qual a humanidade é refletida e o que vemos no espelho nesse momento é essa fria distancia que nos separa.


Diana Chao - As relações digitais acabaram se tornando parte do storytelling contemporâneo. As pessoas dependem muito de aplicativos como Whatsapp e Facebook Messenger nas suas vidas corriqueiras assim como para conhecer pessoas através aplicativos de relacionamento como Tinder e OkCupid também mas todos esses aplicativos não deixam de ser apenas meios de comunicação e não a história em si. As histórias que vemos hoje em dia são apenas um reflexo da forma como as pessoas usam e interagem com a tecnologia porém no núcleo de qualquer temática sempre estará a condição humana.

O curta está rodando o mundo e recentemente participou do Los Angeles Brazilian Film Festival e do Port Shorts International Film Festival em Port Douglas (Australia). Como é para vocês ver essa trajetória do trabalho? Domingos Antonio - Estamos todos encantados com a maneira que o filme vem sendo recebido nos festivais em que participou até agora. Match foi completamente finalizado há pouco mais de quatro meses atrás e enviado para a consideração de, relativamente, poucos festivais até agora porém já conseguimos fazer parte da seleção oficial de dois excelentes festivais. Esses são bons indicadores de que a carreira internacional e nacional do curta em 2017 pode ser promissora.

Diana Chao - É muito bom estarmos fazendo parte desses bons festivais e é muito bom ver que o filme está girando o mundo todo.  

Qual a maior dificuldade de se produzir um curta? E como o público recebe isso? Diana Chao - A maior dificuldade é fazer o filme dentro de um tempo e orçamento limitados mas o público não precisa saber dessas dificuldades para poder apreciar a obra. O filme apenas precisa ser forte o suficiente para valer a pena ser assistido. Todas essas dificuldades é algo que nós cineastas mantemos somente para nós mesmos ou preferencialmente algo que o público venha a descobrir somente depois da exibição. Quando o público assiste e aprecia o filme de certa forma ele aprecia também as dificuldades em sua feitura. Não existe isso de cinema fácil.  Cinema sempre envolverá dificuldades. Filmes bons ou ruins custam tempo, dinheiro e muito esforço. No final das contas o produto na tela é que deve ser aquilo a passar pelo critério do público.



No final de Match ficou um gostinho de quero mais. Podemos esperar uma sequência? Ou outros seguindo essa linha das relações na era digital? Domingos Antonio - A intenção era de fato suscitar essa curiosidade em quem assiste o curta. A maioria dos feedbacks que estamos recebendo das pessoas que já assistiram Match sempre aponta na direção de que a história pós curta dos personagens precisa continuar. Eu, particularmente, tenho inúmeras ideias para desenvolver essa temática de Match num roteiro de longa-metragem. Amigos roteiristas e cineastas tanto aqui no Brasil como nos Estados Unidos que já assistiram o curta vem sempre jogando novas ideias para o roteiro de um eventual longa, entretanto, no momento, eu ainda prefiro esperar para saber como será a recepção em outros festivais. De qualquer forma essa é uma temática a qual conheço bastante que me fascina e me deixa com medo o que é perfeito para a criação de uma nova história.

Assista o trailer: