Mostrando postagens com marcador beatles. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador beatles. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 1 de junho de 2017

MÚSICA: Sgt. Pepper's, a primeira vez de um clássico que completa 50 anos

A Rua Líbero Badaró em São Paulo nunca foi um bom ponto para uma loja de discos. Na vizinhança entre as apinhadas Ruas São Bento e Direita ou do outro lado, descendo a Avenida São João, nas Grandes Galerias, hoje chamada de Galeria do Rock, penetrando pelas concorridas Dom José de Barros, 24 de Maio ou Sete de Abril, fazia mais sentido e era possível encontrar diversas lojas que faziam a festa de adolescentes como eu. Ou de adultos que buscavam nas saudosas Bruno Blois ou Brenno Rossi os últimos lançamentos de jazz ou clássicos.

O Museu do Disco na Rua Dom José de Barros com os desejados lançamentos importados de pop/rock, completava o cenário daquele longínquo 1967. Entretanto, foi na Líbero Badaró, em uma loja deslocada, pouco expressiva, que vi pela primeira vez, colada na vitrine, a capa dupla aberta, com os rapazes em vistosos trajes de banda militar, os Beatles e Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

Da loja, sons estranhos invadiam a rua. Entrei, peguei, olhei todos os detalhes, mas não tinha a menor idéia do que estava acontecendo. Como qualquer garoto daquela época, eu tinha pouco acesso às notícias sobre a música que ouvíamos. As rádios e as lojas de discos eram nossos horizontes máximos e únicos.
O jornal, hoje revista, Rolling Stone nasceu um pouco depois e chegava irregularmente em algumas poucas livrarias. Outros jornais ingleses apareceram, mas meu inglês era quase nenhum. Eu tentava ler os artigos e capas de discos, segurando um dicionário. Eram dias para ler e mais ou menos compreender uma matéria.


Como então entender todas aquelas letras impressas na contracapa vermelha de Sgt. Pepper’s? Como absorver aqueles sons mesclando instrumentos orientais, orquestras e ruídos de animais? O que era tudo aquilo para o garoto de um mundo sonolento, de cenários vagos clamando por perspectivas?

Os beatles deixaram de se apresentar ao vivo em agosto de 1966 e passaram a exercitar toda a criatividade do grupo nos estúdios. Na verdade, vinham mudando o mundo musical desde 1965 quando lançaram Rubber Soul. Ali apresentaram a cítara indiana ao mundo, pianos que soavam como cravos e harmonias insuperáveis. Deram um passo maior ainda quando fizeram Revolver no ano seguinte. Baterias gravadas em reverso, guitarras distorcidas, arranjos de cordas e até submarinos amarelos. 

E entre o final de 1966 e início de 1967 gravaram três novas composições, duas delas, "penny lane" e "strawberry fields forever", foram lançadas como compacto em fevereiro do novo ano, por pressão da gravadora que queria novos produtos do grupo. A terceira, "when i'm sixty four", foi incluída em sgt. Pepper. 

Porém, naquele fevereiro, paul ainda não tivera a ideia de que no novo disco eles atuariam como se fossem um outro grupo, uma nova banda que iria apresentar em nome dos beatles as novas canções... Assim nasceu o conceito de sgt.pepper's lonely hearts club band. Nós saboreamos as mudanças no vento quando "penny lane" e "strawberry fields forever" chegaram às lojas. Estávamos avisados.

Mesmo assim e por tudo isso, o Sargento Pimenta e Sua Banda dos Corações Solitários abriram os portais de um admirável mundo novo. Nunca antes, nem depois, um impacto tão grande seria sentido na música, na indústria e nas rádios. Mudamos todos. Da primeira guitarra de Sgt. Pepper’s ao último piano de A Day In The Life, sonhávamos, acordávamos, perdíamos e recuperávamos nossa inocência. 

Todos nós, entendendo ou não, cantávamos com Ringo os versos de “With A Little Help From My Friends”... Quem era Lucy in the Sky with Diamonds? Era mesmo LSD? Ou simplesmente o desenho retratando uma coleguinha de escola de Julian, filho de John? Verdade é que a coleguinha, Lucy O’Donnell,  lembrava de desenhar com Julian e adulta deu entrevista dizendo que não gostava desse tipo de música. Lucy O’Donnell morreu em 2009, perdendo uma luta contra Lupus.

Paul McCartney, jovem e ansioso, não aguentou esperar que o produtor George Martin se desocupasse de outras tarefas do grupo e encomendou o arranjo de “She’s Leaving Home” ao competente Mike Leander que já havia escrito o naipe de violinos de “As Tears Go By” para os Rolling Stones. Foi a única vez que Sir George Martin não escreveu um arranjo para os Beatles.

Um antigo pôster anunciando um circo inspirou John a compor “Being For The Benefit Of Mr. Kite”, repleta de trampolins, cavalos amestrados dançando a valsa, pulando círculos de fogo e como escreveu John, “um momento esplendido está garantido a todos...” Para encerrar a faixa, imitando um órgão alimentado a vapor, tapes de sons aleatórios foram cortados em pequenos pedaços, lançados ao ar, depois colados um a um, reproduzidos em alta velocidade e adicionados à música.


George Harrison então crescia como compositor a passos largos e mesmo contribuindo com apenas uma canção, compareceu com uma mistura de orquestra e instrumentos indianos como nunca se viu antes. Acrescente-se a isso versos que cabiam em qualquer poema e temos “Within You, Without You”. “Quando você enxergar além de você, talvez encontre paz de espírito esperando por lá, e chegará o momento em que você verá que somos um só e que a vida flui em você e sem você.”

A pequena e enérgica reprise do tema de Sgt. Pepper abre as portas do estampido, do estouro final, em que todo o disco converge para a épica “A Day In The Life”, a visão apocalíptica de John para as notícias do jornal. A morte de Tara Browne,  herdeiro do império Guinness, os buracos em Lancashire, a guerra que a Inglaterra havia vencido, na verdade, um filme em que John participara. E então um crescendo das cordas nos leva até a explosão de um dantesco acorde de piano... Com menos de quarenta minutos de duração, Sgt. Pepper e os Beatles mudaram o mundo para sempre.

Artistas tentaram copiar, fazer algo parecido e um até enlouqueceu, o brilhante Brian Wilson, líder dos Beach Boys, cujo álbum Pet Sounds de 1966, de acordo com Paul McCartney, servira de inspiração para algumas passagens de Sgt. Pepper.
Ninguém chegou perto... Nunca. O disco que revolucionou a história da música e ainda é referência para todos, completou quarenta e cinco anos de idade em junho passado. 

Décadas depois, alguém, em algum lugar, perguntou se lembrávamos de quando havíamos ouvido Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band pela primeira vez. 

Eu lembro... Foi lá na Rua Líbero Badaró...



quinta-feira, 18 de novembro de 2010

MÚSICA MENSCH: Beatlemania


De 1962 a 1970 o mundo ouviu, viu e viveu a presença marcante dos Beatles. Paul, Lennon, George e Ringo formaram  a maior banda de todos os tempos e até hoje, décadas após seu “fim oficial” sucessos como Love me do,Yesterday, And I Love Her, entre tantas outras, embalam a trilha sonora da vida de muita gente. Gente que viveu a era Beatles e gente que sequer era nascida na época do The Fab Four, como a banda era conhecida.
Como explicar tamanha admiração, amor e Beatlemania?
Mensch entrevistou 02 gerações de Beatlemaníacos pra tentar dimensionar a importância dos Beatles na vida desses amantes das músicas que revolucionaram o Rock’n Roll, a geração dos anos 60 e, porque não dizer, todas as outras que se seguiram até hoje.
Jocílio Tavares, 58, é engenheiro elétrico que este ano realizou o grande sonho de ir até Liverpool conhecer o “Blue suburban sky”.  A história de Jocílio com os Beatles começou em Campina Grande, interior da Paraíba, em uma época em que os meios de comunicação eram precários ou inexistentes no local e descobrir “Os 4 Rapazes de Liverpool” foi mesmo uma grande sorte.
Incentivado pelas filhas, Mônica e Vanessa, Jocílio montou em casa um pequeno “museu” (ele diz que é só um ”espaço Beatle”, mas eu estive lá e posso dizer, tem porte de Museu!..rs) com várias coisinhas dos Beatles, como  souvenirs, livros, LP´s, DVDs e quadros.

Não é fácil determinar qual dos momentos mais me tocou porque tive muitas situações em que a música dos Beatles, principalmente na Beatlemania, envolveram minha vida, mas dois momentos posso afirmar que marcaram a minha vida Beatle. Um deles foi quando ainda em 1965, no interior da Paraíba, em Campina Grande aonde parecia distante se pensar em música inglesa e ainda dos Beatles. Não havia televisão, não havia rádio FM e ainda a mídia impressa era quase inacessível. Lembro que os jornais do sul do país só chegavam dois ou três dias da publicação. Nesse ambiente hostil de comunicação, por intermédio de um irmão curioso ouvíamos com bastante ruído algumas rádio em ondas curtas e transmissões da Voz da América e BBC de Londres eram fáceis de captar. Numas dessas transmissões ouvi pela primeira vez a música que começava a fazer sucesso na Inglaterra: I wanna hold your hand. Aquilo parecia estranho para a época, mas soou como o novo sentimento musical. Nada se assemelhava. Era único e permanente. Desde esse momento fiquei meio aficionado, mas sempre desconfiado de como poderia aquele ritmo, aquela música chegar melhor aos nossos ouvidos. O ruído da transmissão era horrível.

Sergio Mendonça, 30, publicitário e professor universitário, descobriu os Beatles fuçando os vinis de sua casa ainda com 15 anos e a relação dele com Paul, Lenon, Ringo e George é tão forte que o quarteto recebeu agradecimentos em sua dissertação de mestrado.
“Quando ouvi senti uma familiaridade muito grande, como jamais senti novamente. Passei a ouvir todo dia e a aprender inglês. Fui comprando discos e conhecendo as músicas, que jamais me cansam os ouvidos. Meu interesse foi crescendo e a paixão pela banda surgindo. Foi também uma época em que praticamente tudo o que fazia sucesso nas rádios faziam doer meus ouvidos adolescentes. Daí quando descobri a banda, senti que eu também era deste planeta.”
Com tanto amor pela banda,tanto Sergio como Jocílio concordaram ser injusto escolher a melhor música dos Beatles, mas arriscaram falar sobre as mais marcantes em suas vidas:

Uma das coisas mais difíceis de falar é sobre a melhor música dos Beatles, aquela que mais toca a alma, aquela que identifica. Tudo é difícil de afirmar. Parece que a gente está ofendendo as outras quando se dirige para uma música. Acho que as outras ficam magoadas. De qualquer forma e respeitando as demais fico com All you need is Love pela mensagem e It Won't Be Long pela leveza da letra e o embalo da música simples e gostosa de se ouvir. Não dá para esquecer Paul cantando The Fool On the Hill. É uma viagem. Sei que estou sendo injusto, mas essas me tocam de imediato. “ (Jocílio Tavares)
Não tenho música preferida. Sinto que escolher uma é negar, em parte, as outras. Admiro a obra como um todo. Mas, nas primeiras descobertas, a música que me fez compreender e dizer para mim mesmo "é disso que eu gosto" foi I feel fine. Tenho um carinho especial por ela.” (Sergio Mendonça)
Às vésperas do show de Paul McCartney em São Paulo Sergio e Jocílio não escondem a ansiedade e a emoção de ver o ex-beatle ao vivo. Haja coração para esses dois fãs de gerações diferentes, mas que compartilham uma mesma paixão: The Beatles.
Não tem como descrever o sentimento. Ver um ex-beatle se apresentando para mim é fechar um ciclo de realização. Certamente, para quem tem um alto envolvimento com a história do The Beatles e de Paul, vai ser mais que um show. Além disso, Paul McCartney, para mim, é o maior músico do século XX.” (Sergio Mendonça)
É mais um desafio para o coração. Tenho por Paul certa “intimidade”, pois sua música melodiosa me fez ser um colecionador de seus DVDs e CDs. Assim, o show, com alguma modéstia, me parecerá “familiar”.  Mas na verdade é outro sonho que se realiza. Gostaria que ele tocasse algumas canções que embalei sentimentos como I'll Follow The Sun e Hello, Goodbye, dos Beatles ou Mull Of Kintyre e Ebony And Ivory de Paul.” (Jocílio Tavares)

Acesse as entrevistas na íntegra aqui

Texto: Nadezhda Bezerra