terça-feira, 22 de setembro de 2015

DIÁRIO DE BORDO: Coréia do Sul - Queimando a língua em Seul

Se em Tóquio ficamos impressionados com os templos, Seul nos impressionou com seus palácios. Muitos deles estão na lista de patrimônio da humanidade da UNESCO. O principal deles, o palácio nacional de Gyeongbokgung, é também responsável pela geografia única da cidade, cujo bairro central está nos arredores do complexo do palácio ao pé da montanha. Comprar o ingresso para visitar o palácio de Gyeongbokgung é como deixar a cidade e ir para o campo com uma paisagem totalmente bucólica, muito verde e belas montanhas. Os jardins do palácio são enormes e toda a região atrás do complexo é um parque nacional de acesso controlado. No auge da guerra fria, espiões norte coreanos tentaram assassinar o primeiro ministro da Coréia do Sul atravessando as montanhas do parque. O local tem belas trilhas que atualmente só podem ser acessadas por turistas que apresentarem seus passaportes e fizerem um cadastro com a equipe de segurança do palácio.


Por conta da geografia da cidade a localização do hotel precisa ser estratégica. Seul é uma cidade grande com mais de 12 milhões de habitantes. Como o centro político e comercial fica aos pés da montanha, a cidade cresce apenas em uma direção e apesar do sistema de metrô excelente, ficar longe do centro pode render longas viagens diárias pelos subterrâneos. Nós alugamos um apartamento na ilha de Yeouido, que apesar de ser um bairro moderno, atraente e ficar próximo a Assembleia Nacional, estava há quarenta minutos em metrô das principais atrações da cidade. O segredo é tentar se hospedar próximo à estação Angkur. Aqui fica o bairro de Bukchon, um dos mais antigos da cidade e com casarões históricos que sobreviveram a destruição da guerra das Coreias. A vista do alto da colina é maravilhosa, principalmente com o contraste dos antigos palácios e os novos edifícios de arquitetura moderna do centro. Passear pelas ruas estreitas do bairro de Bukchon é também uma ótima oportunidade para experimentar a comida de rua Coreana em porções mais reduzidas e com explicação em inglês. Muitos dos casarões históricos viraram hoje bons restaurantes e foi em um deles que fomos jantar com meu amigo Cheemin e sua família.




Na noite anterior, desbravando as ruas do nosso bairro Yeouido, tínhamos tido nossa primeira experiência com a gastronomia Coreana. Encontramos um restaurante cheio e animado, com o público dos escritórios do bairro bebendo e falando alto, pareciam bastante empolgados com os pratos da mesa. Fomos bem recebidos pela simpática senhora que servia as mesas, e logo nos sentou e entregou o cardápio com apenas cinco pratos ilustrados por fotos. Felizmente, apesar da grande maioria dos restaurantes não ter cardápio em inglês, quase todos têm menus com fotos dos pratos, o que ajuda com pistas visuais do que está por vir. Dentre as cinco opções, me encantei com uma gororoba que parecia um espaguete com um molho escuro com carne e legumes. Não avistei na foto nenhum pé de galinha ou pedaço duvidoso da fauna local que pudesse comprometer a refeição e por isso decidimos arriscar. Confesso que me assustei um pouco quando a senhora trouxe à mesa dois pratos, dois pares de palitos e uma tesoura enorme daquelas de cortar peru de natal. Ana me olhou com cara de desespero, e eu já me preparava para desossar um leitão ou algo parecido. Quando o prato chegou, seguimos sem entender a função da tesoura e começamos a batalha com enormes fios de macarrão grosso banhado ao molho bem apimentado. Vendo a nossa luta, a simpática senhora demonstrou como deveríamos usar a tesoura para cortar o espaguete, antes de tentar enfiá-lo na boca ou enrola-lo no palito. Nos deliciamos com o prato apesar de sentir os lábios queimando e inchando. A culinária coreana é forte em pratos apimentados e se algum garçom disser que o prato é spicy, deve ser levado muito a sério. No dia seguinte, nossa experiência gastronômica seria ainda melhor com meu amigo Cheemin.


A primeira pergunta que Cheemin me fez quando combinamos de jantar era se eu me importava em sentar no chão para comer. Eu logo disse que não, e pedi para que nos levasse em seu restaurante favorito. Nos encontramos as 17:30 na boa e velha estação Angkur, e caminhamos por vielas do bairro antigo até chegar em um beco sem saída com um casarão de madeira. Lá dentro já estavam sua esposa e filha guardando em uma sala particular com tatame que ele tinha reservado para o nosso jantar. Logo sentamos e fomos recebidos com uma série de mais de 30 pequenos pratos em uma degustação completa da culinária coreana. Me lembro de provar mais de dez legumes exóticos, um delicioso porco agridoce, belos camarões grelhados e um fantástico espaguete com legumes, servido gelado. Já havíamos provado pratos de massa gelada no Japão, mas essa estava realmente especial e perfeita para um dia quente de verão. 



Como é de se esperar em esse tipo de banquete, logo viriam algumas iguarias de sabor mais exótico para provarmos. A mais estranha entrou na minha lista das cinco coisas mais bizarras que eu comi em todas as minhas viagens. Meu amigo descreveu o prato como peixe fermentado, consta que é tradição em algumas ilhas na Coréia deixar o peixe apodrecer por alguns dias antes consumi-lo. O método, segundo o Cheemin, era algo semelhante ao do queijo Suíço, e na Coréia eram poucas as pessoas que apreciavam a iguaria como ele. Avestruz que sou, mandei um pedaço para dentro sem medo de ser feliz. Um sabor fortíssimo de amônia tomou conta da minha boca desentupindo o meu nariz como um pote de vick vaporube. Felizmente o resto do banquete estava delicioso e os pratos tinham sabor bem mais delicado que a tal iguaria.  Após o jantar, Cheemin ainda nos levou em sua casa de chás favorita. A bela casa com decoração antiga e mesas em tatame servia as típicas sobremesas coreanas que foram os melhores doces que comemos na viagem. Provamos uma sopa gelada de framboesa com gelo moído e outra de feijão doce com calda de gengibre. Para acompanhar, bolinhos de chá verde à base de arroz com cobertura de mel. Tudo servido com chás deliciosos. A simpática dona do lugar ainda nos convidou para um festival de música tradicional coreana que aconteceria em um parque no dia seguinte. Fomos ao festival no início da noite de domingo esperando milhares de pessoas, e para a nossa surpresa era um pequeno evento quase sem turistas. Haviam dois pequenos palcos embaixo de árvores com atrações que se revezavam. Pessoas de todas as idades se acomodavam no gramado. Foi interessante conhecer um pouco da música tradicional coreana e observar o orgulho que eles têm de sua história e tradições.  

Nos nossos últimos dias em Seul exploramos os cantos mais modernos da capital, como o famoso bairro de Gangnam, que ficou conhecido internacionalmente pela música de um gordinho fashionista que rebolava de forma esquisita cercado de belas mulheres coreanas. Lembro que a música tocava em todos os cantos do mundo no ano que foi lançada, mas pouca gente sabe de onde vem o tal do Gangnam que serve de refrão. Logo que saímos da estação de metrô, demos de cara com um palco montado na principal avenida do bairro com o nome da música. O turista que quiser pagar um mico na avenida principal onde passam milhares de pessoas por minuto, pode subir no palco e apertar um botão que a música começa a tocar e você pode arriscar suas habilidades reproduzindo a famosa dancinha. 





Completando nosso momento globalização da música, enquanto observávamos um grupo de turistas espanhóis dançando ao som de Gangnam Style, um telão gigante na avenida mostrava nosso querido Neymar cantando Ai se eu te Pego com o Michel Teló. Ainda bem que esse telão não vinha com o botão de som. Muito além da música brega, Gangnam é um bairro moderno e fascinante com muitos bares e restaurantes lotados de gente jovem e feliz. Estranho imaginar que há 100 quilômetros dali fica a vizinha Coréia do Norte, onde o gordinho esquisito mais famoso não é o cara que canta e rebola, mas o ditador que governa o país. 

Quem quiser conhecer a fronteira das Coreias pode contratar um tour oficial da DDR, zona desmilitarizada que divide os dois países. Eu pretendo ir mais a fundo e desbravar a capital Pyongyang por alguns dias. Não é possível atravessar a fronteira entre as Coreias, mas é possível visitar a Coréia do Norte a partir de Beijing, comprando pacotes de viagem com agencias chinesas que incluem a experiência de voar com a companhia aérea norte-coreana, eleita muitas vezes a pior CIA aérea do mundo pela Sky Trex. Um dia espero compartilhar as minhas aventuras na Coréia do Norte aqui nesse blog, mas essa fica para uma próxima viagem. Por enquanto deixo aqui meus agradecimentos a hospitalidade calorosa que recebemos em Seul nos belos dias que passamos por lá. Diferente do vizinho o acesso ao sul é fácil e sem a necessidade de visto. Uma visita a Seul pode ser facilmente combinada com Japão ou China.




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