quinta-feira, 20 de julho de 2017

MÚSICA: Ney Matogrosso - Um prêmio para a música brasileira

Nessa quarta, 19 de julho, a 28a edição do Prêmio da Música Brasileira homenageou o cantor Ney Matogrosso. Que com seu talento e carisma conquistou a todos. Em homenagem a esse grande artista vamos rever sua entrevista para a MENSCH em 2015. Foi um belo papo sobre cultura, evolução humana, sinais e claro, música brasileira.

Ney Matogrosso não se define, não se encerra em uma ou outra característica já impressa em um dicionário, nem mesmo o Aurélio. Ney é Ney é vida e movimento incessante, criatividade que pulsa em ritmo acelerado, é performance e metamorfose. É arte, música, som, ar... É Ney Matogrosso. Ao completar 40 anos de carreira, Ney lançou novo show, “Atento aos Sinais”, ganhou Grammy Latino e está em eterna evolução como homem e artista. A MENSCH conversou com esse admirável artista e o resultado você confere aqui nessas páginas. 

Como estar atento aos sinais e entendê-los? Olha, eu considero que se estar atento é não ser uma pessoa que viva no mundo da fantasia nem da ilusão. Estou vivo no mundo da realidade, prestando atenção a tudo que acontece no mundo, o que acontece no nosso país. Prestar atenção a todos os movimentos de todos os lados.


Em seu novo show, “Atento aos Sinais”, você aos 73 anos, parece estar mais elétrico que nunca. À que você atribui essa força toda? Realização do que ama fazer? Sim! Na verdade quem criou tudo isso fui eu. Houve um momento que eu vi que era uma coisa muito pesada, mas aí eu pensei: “ué, mas foi você quem inventou então você vai fazer!”, e faço. Todos os meus shows foram criados por mim, eu inventei e eu faço.

Você foi eleito pela revista Rolling Stone como a terceira maior voz brasileira de todos os tempos...Como se sente e o que acha disso? Nada dessas coisas, desses prêmios, dessas citações, nada disso sobe na minha cabeça. Eu não tenho mais tempo pra isso, sabe? Eu acho que se isso tivesse chegado durante os meus 30 anos, talvez isso tivesse subido de alguma maneira. Fico feliz com o reconhecimento, mas isso não me vira à cabeça, nem quero ter a ilusão de nada.

Final do ano passado você recebeu o prêmio pelo conjunto da obra do Grammy Latino e em seu discurso falou que jamais pensou que isso pudesse acontecer. Por que não? O que esse prêmio significou para você? É um reconhecimento ao meu trabalho, que me deixa feliz, mas que também não muda nada na minha vida. Quando eu disse que não imaginava isso, é porque não imaginava que eles estivessem prestando atenção porque a coisa é lá. Então, eu nunca imaginei que eles estivessem prestando atenção no que eu estivesse fazendo aqui no Brasil, tão longe daquilo e tão sem contato com eles. Houve uma época, quando eu fui indicado outra vezes, por discos, em que eles tentaram que eu me envolvesse, que eu fosse uma das pessoas que votasse, porque eles têm artistas da América Latina toda, mas eu nunca quis me envolver com isso. Então eu achava também por essa razão que pelo fato de não ter me envolvido quando eles tentaram se aproximar de mim que eles não iam me buscar de novo. E fiquei surpreso, realmente.

Ao longo de 40 anos da carreira algum arrependimento? Não tenho nenhum arrependimento de nada. Eu fui pelo caminho mais difícil, porque eu não me submeti às gravadoras quando elas eram poderosas, opinavam e decidiam. Eu nunca permiti isso. Para não permitir isso eu passei por 6, porque quando elas chegavam querendo impor eu dizia: "Não, tô saindo!". Eu faria de novo, da mesma maneira, porque eu precisava da minha independência artística, e eu tenho essa independência artística. Eu estaria fazendo o que muita gente faz, isso nunca me interessou. Se eu ainda mantenho interesse 41 anos depois é porque eu faço alguma coisa original. 


E quais as glórias são mais lembradas (além desse Grammy)? Uma glória é ter atravessado 41 anos com uma carreira estável, num país considerado de memória muito descartável e que se esquece rapidamente das pessoas e eu tenho atravessado, estou aqui 41 anos depois ainda reconhecido, trabalhando. No começo eu era um hippie, eu era contra o sistema e eu não queria ser aplaudido. Quando as pessoas me aplaudiam eu me fechava todo, porque eu não estava ali para ser aplaudido, eu estava ali para desacatar as autoridades. Então quando as pessoas batiam palmas pra mim eu me fechava todo, eu não aceitava, eu não recebia. E hoje em dia eu entendo isso de outra maneira, eu entendo que é uma retribuição ao que estou fazendo e me abro totalmente, para receber os aplausos.

O que há em Ney Matogrosso hoje do Ney dos tempos do “Secos e Molhados”? Ainda sou idealista! Ainda tenho um grande impulso para realizar meu trabalho, ainda acredito nos mesmos princípios, eu não me desviei deles.

Qual sua maior fonte de inspiração? Não é que seja a maior fonte de inspiração, mas eu necessito de um contato regular com a natureza. Necessito, porque isso me fortalece, qualquer natureza!

O que a música brasileira tem de melhor atualmente? Como você a vê? Eu ouço falar que há uma crise de criação e eu não concordo. Não há uma crise de criação, há uma dificuldade da criação chegar ao gosto popular. Porque agora é muito mais difícil você tocar em rádio, porque agora depende de pagar. Antigamente não, você gravava um disco, você ia a todas as estações de rádios do Brasil por onde você viajasse para fazer seu show em cada estado, em cada cidade para falar do seu trabalho. Hoje em dia isso acabou todo mundo sabe que você precisa pagar para tocar. Esse é o grande obstáculo porque ficou mais fácil de gravar, a divulgação e a distribuição é que ficaram complicadas. O que ocupou lugar foi a música de menor qualidade, esses modismos cada vez vão descendo o mais o nível é muito estranho.


Ideologia, a gente precisa sempre ter uma pra viver? Sim. A gente tem que acreditar em alguma coisa, mesmo que seja no que não está aí. Que é possível  outro mundo, uma outra coisa, porque nós vivemos numa "democracia", mas a loucura está em um grau muito grande. É uma democracia camuflada e cada dia você tem notícia das atitudes do Governo que te deixam mais cabreiro, pra onde vamos?

Quais suas crenças religiosas e como mantém mente e corpo são? Eu não tenho nenhuma religião formal. Eu creio em muitas coisas que a maioria das pessoal talvez nem acredite. Eu acredito em vida em outros planetas, porque eu não posso acreditar que nós sejamos o ápice da criação. Se nós somos o ápice da criação, quem criou, errou! Eu acho que existem pessoas mais evoluídas que nós nesses universos e até mais atrasadas que nós também. Acredito que chegaremos ao momento em que teremos essa consciência, infelizmente eu penso que isso acontecerá na hora do grande cataclismo e abrir-se-á essa consciência para nós.

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