sexta-feira, 29 de abril de 2011

ENTREVISTA (especial cinema): Marcus Baldini


O desejo de mudar somado a uma boa história pra contar, taí uma junção que pode render um belo sucesso de público. Foi o que aconteceu quando o diretor de comerciais publicitários Marcus Baldini resolveu que era hora de realizar um desejo antigo, ser diretor de cinema. Claro que não bastava só isso, é preciso talento pra contar uma história e forma corajosa e fiel sem ultrapassar os limites do bom gosto. E a polêmica Bruna Surfistinha terminou parando nas telas de cinema e sendo elevado a filme mais visto do ano até agora. O talento de Marcus ainda cativou a atriz Deborah Secco que sem pudores se despiu de rótulos e encarou juntamente nesse projeto de sucesso. Começando com o pé direito, Marcus tem garra e talento pra muito mais. O mundo da propaganda pode até perder um grande diretor de comerciais de sucesso, mas o cinema nacional com certeza ganhará um grande diretor de filmes capaz de arrastar multidões com ótimas histórias pra contar. Assim como essa entrevista.

Quando decidiu prestar vestibular pra Rádio e TV na ECA, o seu objetivo já era chegar ao cinema? Na verdade eu sempre quis fazer cinema. E na época achava o cinema nacional muito fraco, queria fazer algo. E o curso de Rádio e TV seria o caminho mais fácil para chegar até isso. Inclusive no ano em que cursei, foi numa turma que começou a juntar os cursos de cinema com rádio. E foi perfeito.
O que é mais difícil em um filme: conseguir um bom elenco ou uma boa verba? O mais difícil é ter certeza do seu projeto, é ter certeza em relação a seu filme. Ter um projeto legal. No meu caso foi difícil por que todo mundo tem um certo preconceito a figura da “garota de programa”, e isso cria uma rejeição muito grande. Isso dificultou para captação de verba. Os atores não, eles vieram de acordo com a construção do filme. Foi mais fácil, foi decorrente do processo.
Que significado tem pra você a célebre frase de Glauber Rocha: “Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça”? Essa frase é símbolo de uma geração, vem de uma liberdade estética mais autoral. Mais livre em função da arte, tipo colocar a câmera com leveza, como se fosse uma caneta. Passa uma forma mais lírica, passar uma idéia de fábula, e não uma linguagem documental.
O mercado publicitário atual está mais interessado a fazer campanhas que ganhem prêmios ou que vendam produtos? É difícil ter os dois? O que acontece hoje é que as mídias estão muito divididas. Tenho visto muita coisa legal na web, coisas muito mais legais para a internet que tem um descompromisso maior. Bem, a Nextel é um bom exemplo disso. Recentemente fiz um comercial para eles com Neymar e o pai. É mais divertido e interessante. Mas não sei avaliar o retorno. Isso é mais com o departamento de marketing. Mas um bom comercial tem que vender o produto. Agora conseguir vender o produto de forma inteligente, que mexa com as pessoas, é outra coisa. (risos)
Trabalha na MTV é tão legal e descontraído como parece? O meu trabalho na MTV foi muito feliz, num momento em que a MTV era mais descompromissada com audiência e mais focada em clipes. Era mais vanguardista. Um momento interessante. O meu trabalho era de fazer as chamadas, não participava dos programas, mas fiz muitos amigos lá. Foi o meu primeiro contato com o audiovisual que tive. Mas era legal por que me vi ali tendo acesso ao arquivo da fitoteca da MTV, e quando tinha uma folga, corria pra lá. Imagina eu ali com acesso a todos os vídeo clipes na época....
Programa de TV, publicidade, cinema... O que mais tem a ver com você? Eu acho que a linguagem que mais fala comigo é o cinema. Hoje ta difícil separar, a dramaturgia faz mais parte da publicidade. É essa linguagem que curto. Tanto que algum tempo atrás fiz a série “Natali” e mais recentemente a série “Pré-Amar” da HBO. Tenho vontade de trabalhar com dramaturgia, fazer cinema, séries de TV...
Quais campanhas te marcaram pessoal e profissionalmente? Aquelas que você tem orgulho de ter participado? Uma campanha da Kazin que fizemos, com um velhinho que pilotava uma moto... E eu ficava imaginando onde colocar o velhinho, ele empinando a moto... Na época inclusive ele deu entrevista para programas de esportes radicais. Muito bom. Outro filme que curto, foi da Grandene, com participação de atores e artistas... Teve também um cromo da HBO para a série “Aline”, que mais... uma campanha de bombom Garoto, Surreal...
Você acha que o cinema hoje está influenciando muito a forma de se fazer publicidade ou a publicidade que está influenciando o cinema? As duas coisas têm referências mútuas. Agora mesmo que voltei a trabalhar com propaganda, é um trabalho que envolve atores, direção de atores, referências de cinema.
Por que fazer um filme sobre Bruna Surfistinha? Então, eu estava no momento da minha inquietude, me sentindo limitado. Desde que comecei a fazer propaganda eu queria fazer cinema. A publicidade foi a porta de entrada. Não sou do tipo de diretor que senta e sai escrevendo um roteiro. E eu precisava de uma história pra contar. E Bruna surgiu nesse momento (2006). Li o livro e me interessei pela história. Eu achei que a personagem era muito interessante. Tinha uma ausência de culpa e um certo veneno nessa garota.
Pode-se dizer que Bruna Surfistinha é um divisor de águas na sua carreira? Ah foi! Do ponto de vista cinematográfico, não foi para mim só um lançamento de um filme, foi um debut no cinema. Um encontro comigo mesmo. Uma constatação do meu trabalho.
Foi muito difícil convencer Deborah Secco a se expor daquele jeito tão natural e provocante? Que argumentos você usou? A Deborah nunca foi um problema. Ela achou interessante a forma de contar a história dessa garota. Ela teve muita sintonia desde o começo. A Deborah realmente se dedicou, mergulhou na personagem. Até pelo histórico dela de personagens provocantes. Ela queria se desatrelar das outras personagens. Colocou-se de outra forma. Ela tinha uma vontade de fazer e não se preocupar em exibi-la de forma sensual. Não precisei pedir nada. Fizemos o filme sem limitações, depois fomos editando. As cenas de sexo são para contar a história. Já era um lado muito forte da personagem, não precisava mostrar além. Eu queria contar a história.
O filme já chegou à marca dos dois milhões de expectadores em todo o Brasil. Você esperava por isso? Eu sabia que existia um interesse muito grande para ver o filme por parte do público. E a gente já sabia do interesse da mídia. Mas eu tinha uma grande dúvida se seria bem recebido. Tenho satisfação pelo filme. Não tinha medida. Só esperava que as pessoas gostassem dele.
A que se deve esse sucesso todo? Qual é o doce veneno do escorpião? Eu acho que à história. As pessoas já tinham uma idéia pré-concebida. Ninguém vai ao cinema sem ser ter ouvido falar nele, de quem é a Bruna, de quem é Deborah Secco... A surpresa positiva que as pessoas tem, é um lado positivo da história é que as pessoas se deparam com o drama, a reflexão que o filme traz. Aí está o sucesso. E por que também todo mundo vê como foi feito com muita verdade, sinceridade por parte de toda a equipe.
Por que correr é fonte de inspiração pra você? Correr é meu yoga, meu mantra. Você vai correndo e extravasando tudo, sua cabeça vai se esvaziando. É uma forma de me comunicar com o presente. Quando estou com a cabeça muito cheia, muito tenso, corro pra desatar os nós, ter idéias...
E o que te inspira daqui por diante? Eu tenho um projeto novo, o “Sonho Verde”. Que é a história de um playboy da zona sul de São Paulo que sai de férias e cai num garimpo de esmeraldas. Lá ele tem que se virar para sobreviver naquele ambiente. É o primeiro projeto que eu estou escrevendo (o argumento), por que a história vem depois, o roteiro.
Se cinema e publicidade é seu trabalho, o que seria seu hobby? O que curte fazer pra relaxar? Pois é complicado por que na minha profissão tudo está interligado de alguma forma. Quando chego em casa não consigo olhar a TV. Então pra relaxar eu curto a corrida... Cozinhar e ler. São as três maneiras que relaxo, quando não estou curtindo com minha filha.

Por: André Porto e Nadezhda Bezerra
Fotos: Divulgação
Agradecimentos: Daniela Bassit e Caroline Medeiros (
www.pontotres.com.br )
Agradecimento especial a Marcus Baldini


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ENTREVISTA (especial cinema): Leo Falcão

Enquanto brinca com seu ócio, como o próprio Leo Falcão diz, Leo sai se aventurando  por diversos caminhos, seja por cinema, música, quadrinhos, literatura ou mesmo desenhos e ilustrações. O importante, para esse inquieto Leo Falcão, é ir se descobrindo e descobrindo sua capacidade criativa em diversas mídias. Premiado nos festivais de cinema, como o Cine PE, Leo hoje transita por jogos e quadrinhos. Porém se espalha mesmo quando o assunto é cinema, contar ótimas histórias sejam elas reais ou não. O importante é criar. Criatividade que descobriu no curso de Propaganda e Publicidade e não largou mais. Conversamos com o inquieto Leo e descobrimos que o céu é o limite para esse Falcão que traz a veia criativa dos tios João e Adriana Falcão. 

O seu blog “Leitor Ótico” é mais um espaço profissional ou pessoal?
Acho que os dois, até porque eu não dissocio tanto uma coisa da outra. De toda forma, estou trabalhando num novo site, mais completo, em que possa dividir melhor crônicas, notícias, vídeos e meus experimentos literários. Devo estar lançando no segundo semestre.

Você foi o primeiro cineasta pernambucano a filmar no formato digital. Pra você as novas ferramentas tecnológicas mais ajudam no produto final ou faz perder um pouco o charme original do cinema de arte? O cinema sempre foi tecnologia, e qualquer atribuição de "charme" vem da glamorização feita pela indústria. E o cinema "original", mesmo aquele que apresentava alguma intenção artística, demorou a ser considerado uma atividade digna de figurar no hall da arte. Certamente que são dinâmicas diferentes de produção que resultam em trabalhos finais diferentes, mas via de regra trata-se sempre de uma expressão audiovisual intermediada por aparatos técnicos. O que importa mesmo é o que você põe na tela, e de como você consegue utilizar o formato a seu favor. Hoje em dia, é possível conseguir uma qualidade excepcional com suportes digitais — e charme também.

A publicidade te levou ao cinema ou o cinema te levou a Publicidade? Meu ingresso no mundo publicitário foi meio contingencial, pois na época era a forma de conciliar um monte de coisas que eu queria continuar fazendo e não sabia por qual optar (texto, desenho, música). E foi no curso de publicidade que aconteceu um episódio que costumo contar, de como descobri um possível talento para o cinema. Eu apresentei algumas páginas de quadrinhos para um professor que trabalhava com cartuns, e ele me disse que meu traço não tinha identidade (ele estava certo!), mas que eu daria um bom diretor de cinema. Meio frustrado, perguntei por que, e ele respondeu que os enquadramentos e o fluxo de montagem estavam muito bons. Neste sentido, acho que nem o cinema me levou à publicidade, e nem o contrário — acho que a escrita, os quadrinhos e a música me levaram aos dois. Da mesma forma, o cinema veio para preencher uma lacuna que permaneceu na minha vida depois que eu comecei a trabalhar com publicidade, que era a de contar histórias. Em termos técnicos, foi na publicidade que comecei a conhecer e praticar a gramática cinematográfica, além de ganhar experiência e estabelecer relações com produtores e técnicos. Neste sentido, meu trabalho em publicidade veio antes, mas não foi o que definiu minha carreira cinematográfica. Tudo aconteceu de forma bem natural, me parece.

Qual dos prêmios que você já ganhou foi mais representativo para sua carreira? Cada prêmio tem uma história, e não saberia dizer qual foi o mais importante. Lembro de alguns momentos especiais, como o primeiro que ganhei fora de casa, o da TV Cultura no Festival de Curtas de São Paulo. Foi especial porque eu não esperava, e terminou dando alguma visibilidade para a minha carreira. Mas também foi bom ter ganhado melhor roteiro de curtas digitais no Cine PE de 2007 — gosto do resultado e do filme, e na época fazia algum tempo que não frequentava festivais. Enfim, prêmios são bons se contribuem para você continuar trabalhando e indo mais longe.

Seus tios, João e Adriana Falcão, são sucesso na TV. Isto não te inspira a investir neste meio mais do que no cinema? A TV tem dinâmicas bem menos autônomas que o cinema, e é preciso saber jogar com elas. Eu me aventuraria na TV, sim, como me aventuraria em qualquer mídia — tenho feito isto, na verdade, com “Santo por Acaso” para a TV Jornal, em 2007, e “Carícias”, primeira peça de teatro que dirigi, em 2009. Recentemente, fiz alguns roteiros para jogos e instalações multimídia e estou cogitando fazer quadrinhos de novo, praticando um traço mais solto. Enfim, estou tentando fazer com que minha falta de foco se torne algo produtivo.

A sala de aula é um lugar de inspiração para futuros roteiros? Qualquer lugar é inspiração para roteiros futuros (ou presentes, no caso de você estar à caça de idéias para algo que já esteja sendo desenvolvidos). Mas pra mim a sala de aula é prioritariamente um espaço pra trocar idéias e dar vazão a outros roteiros, não meus. Tenho muita consciência do meu papel de professor neste sentido.

Pra quem você faz filmes? Muitos cineastas respondem que fazem filmes para si mesmos. Eu não sei se posso dizer isso, pois tento me comunicar com o público, mesmo que dentro de estatutos que estabeleço como expressivos de cada trabalho. Acho que eu faço filmes para o público, porém para um público parecido comigo. Talvez dizer isso seja a mesma coisa de afirmar que faço filmes para mim mesmo, mas há uma sutil diferença. Eu quero que a obra reverbere no público, mas antes de tudo quero estar feliz com ela. No fim das contas, quem está falando sou eu.

Ler, ver e ouvir. O que você curte em cada categoria dessas? É difícil dizer, tem muita coisa boa feita no mundo. Mas pra dar um resumão, em literatura me agrada muito as histórias fantásticas e policiais inglesas, como Agatha Christie, Conan Doyle, Edgar Allan Poe e, mais recentemente, Neil Gaiman, Suzanne Clarke, Paul Auster e Alan Moore. Gosto também de Umberto Eco (tanto sua produção literária quanto acadêmica) e outros nomes da literatura latina como Borges, Cortázar, García-Marquez e Saramago. Calvino e um escritor italiano contemporâneo chamado Alessandro Baricco também. A lista seria infindável se incluirmos outros clássicos, mas vamos parar por aqui. Em cinema, é igualmente difícil dizer, mas pensemos em Hitchcock, Eisenstein, Wilder, Capra, Truffaut, Kubrick, Fellini, Antonioni, Wenders, os filmes do Monty Python, além de outros contemporâneos como Paul Thomas Anderson, Lars von Trier, Alfonso Cuarón e Wong-kar Wai. Quanto a ouvir, Beatles e um monte de outras coisas. A música pra mim é um terreno infinito.

Você se define como Cineasta, professor e músico mas se tivesse que optar por apenas uma dessas 03 profissões, qual seria? Se fosse só uma, acho que nenhuma delas. Sou um contador de histórias, um escritor, só que em mídias diversas. Seria a maneira mais fácil de me conciliar, acho.

Você chegou a fazer um “estágio” de residência no núcleo de Guel Arraes, na TV Globo (Rio), como roteirista. Como foi essa experiência? O que ela agregou à sua carreira? Com Guel, Adriana e João (Falcão), além de André Laurentino, que trabalhava conosco na época, eu aprendi a ser rígido com o roteiro, de não me contentar em contar uma coisa de qualquer jeito, mas de elucubrar e exercitar e buscar o melhor modo possível de expressar as coisas. Terminei tomando um caminho diferente do deles em termos estilísticos, mas essa lição de buscar a justa forma ficou. Sou grato por isso.

“Lastnote” ou “Lugar Comum”, qual desses dois premiados curtas te trouxeram mais realização? Ainda considero “TheLastNote.com” meu melhor trabalho, mesmo com os longas que vieram depois. Acho que conseguimos um ponto de expressão muito especial, tudo funcionando muito organicamente.

Como anda o mercado regional para curtas-metragens? E o nacional, está dando mais valor e projeção? A lei de passar curtas antes dos longas não é cumprida e o curta continua sendo mais um espaço de experimentação e revelação de novos nomes do que outra coisa. Isso não é necessariamente ruim, muito embora eu tenha a impressão que o público pernambucano e brasileiro demonstre um interesse particular pelos curtas. Seria ótimo se houvesse mais espaço pra eles, portanto.

O que vem pela frente? Quais seus próximos desafios? Pretendo incrementar meu trabalho na área de jogos, terminando meu doutorado em design na UFPE, além de voltar a trabalhar com teatro, espero que logo. Quero também fazer alguma coisa com quadrinhos, se não desenhando (num traço mais solto e maduro agora), pelo menos escrevendo. Espero também lançar meu primeiro livro de ficção em pouco tempo e continuar tocando guitarra e compondo músicas. Mas acima de tudo, gostaria de voltar a fazer cinema de ficção. Um novo roteiro de longa está em gestação e eu espero conseguir desenvolvê-lo este ano. Vamos torcer pra tudo dar certo, e pro tempo ajudar.


Por André Porto e Nadezhda Bezerra
Fotos: Arquivo pessoal
Agradecimento a Leo Falcão

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