segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

FOTOGRAFIA: Uma grande história por trás das lentes de Gabriel Wickbold


A fotografia nasceu na vida de Gabriel após uma viagem de 10 quilômetros, realizada da nascente até a foz do Rio São Francisco. “Eu era músico, depois dessa viagem voltei com esse material que falava sobre gente. Ao mostrar a algumas pessoas, todos falaram que eu deveria investir na área”, contou. Seus clicks já tinham uma assinatura e uma linguagem, todos viam um talento que não deveria ser desperdiçado. Assim nasceu sua primeira série de fotografias, intitulada “Brasileiros”. Desde então, de forma autodidata, o carioca radicado em São Paulo começou a clicar e montou o seu estúdio.

O fotógrafo acredita que sua forma marcante e bem saturada de fotografar veio da casa dos pais, local onde tinha muita tinta, muita arte, muita cor dos projetos da mãe artista plástica. “A foto só me emocionava quando estava bem saturada, quando tinha uma força de cores. É meu estilo e é algo natural, não tinha muito como fugir de uma coisa que vinha do meu íntimo”, explica. Aos 32 anos ele já assina famosas séries fotográficas: Sexual Colors, na qual utilizou tintas sobre o corpo nu de artistas e modelos, Naïve, que explora a relação homem-natureza, Sans Tache, onde critica o uso excessivo de manipulação nas imagens para apagar os efeitos da passagem do tempo nos corpos humanos, e I Am Online, um retrato do quão sufocado estamos pela Internet. E ele não parou por aí. 



Depois de longos 10 anos em estúdio, com auxílio de todos os equipamentos e assistentes, Gabriel resolveu encarar o desafio de criar um projeto com luz natural e preto & branco, algo que foge completamente da sua proposta de criação. “Encontrei em ‘Antes nua do que sua’ uma forma de oxigenar minha arte. Todo artista precisa se reinventar o tempo todo, essa mudança é muito importante para trabalhar com criatividade”, disse. O sucesso do projeto foi extremo e a repercussão muito forte. Cerca de 500 mulheres foram fotografadas em um ano, com o intuito de haver uma transformação na forma com a qual vínhamos enxergando as mulheres, inclusive elas mesmas. 

“Durante as sessões, há uma redescoberta do feminino, do sensual, do poder de sedução da mulher. É um twist absurdo na forma que ela se enxerga”, explica. Ser fotografada com tanta suavidade deixa a beleza muito clara. Pouco importa se o corpo é perfeito de acordo com os padrões de beleza ou se ela não tem mais 20 anos, todas são belas e foi isso que Gabriel resgatou. Aconteceu, a partir daí, um grande movimento de resgate do nú feminino, dominado antes apenas pelo universo masculino que as retratavam apenas de maneira vulgar. “Foi um ponto positivo para o feminino, para o masculino e para a fotografia também, porque é um fotografia que sempre foi feita, e acabou caindo em desuso”, comemorou.

O grande ápice do trabalho de Wickbold está na forma de direção dos modelos. A técnica, a iluminação, o resultado final, é tudo muito subjetivo. Não é necessariamente nesses detalhes que está a emoção da imagem, não é na dramaticidade da luz. É muito mais na troca verdadeira entre o fotógrafo e o modelo. “Essa é a diversão, é o lugar onde eu gosto de perder bastante tempo, ser muito natural, ser o mais espontâneo possível e não perder nem a minha forma de fazer aquilo como uma brincadeira, nem a do modelo de se sentir fazendo parte de uma coisa nova, diferente; um desafio. É aí que está o resultado energético das minhas imagens, sou uma pessoa que é essa explosão de energia mesmo, me dedico da mesma forma para todos os trabalhos”, falou com paixão sobre suas verdadeiras obras de arte.



Sobre fotografar, Gabriel ensina que o olhar é uma função extremamente treinável, quanto mais pratica, mais se desenvolve. Ele indica sempre subir a barra para o nível da ousadia. O fato está mais do que provado ao se clicar cerca de 500 mulheres, uma a uma, todos os dias. Em cada momento foi necessário desenvolver novas técnicas, fórmulas e aperfeiçoar sempre. Cada modelo tem uma história especial e precisava de um tratamento diferenciado para desenvolver da melhor forma um momento de troca durante o ensaio. Ficar o mais à vontade possível era imprescindível para alcançar o resultado esperado. “Nas minhas séries autorais é assim, vou pouco a pouco elevando e modificando a cada dia a forma como faço determinado ensaio. Todo tempo eu evoluo um pouco o olhar, a técnica, a forma, a cor, a posição, até esgotar realmente o projeto”, salientou.

Sempre muito autêntico e com uma sede enorme de mostrar muito mais do que apenas meras imagens, afirma que as facilidades que a tecnologia traz acaba atrapalhando o verdadeiro sentido da foto, que é comunicar. Qualquer ferramenta pode ser muito bem utilizada ou mal utilizada, seja ela uma tinta, um spray de grafiti, um pincel. A geração perdeu um pouco a mão no Photoshop e em aplicativos de celular do tipo Facetune. É necessário manter a verdade nas imagens e não perder a originalidade, tirar apenas coisas que realmente incomodam a mensagem principal da foto. “Ao retirar muitos elementos como rugas, marca, muitas expressões, acabamos chamando mais atenção para o tratamento do que para a mensagem da foto”, condenou. A ferramenta está para limpar a imagem e focar no principal, não para deturpar, transformar, ou realmente rejuvenescer demais uma pessoa, concluiu o fotógrafo.






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