segunda-feira, 3 de julho de 2017

FITNESS: Vencendo o crossfit

Se você é um leitor assíduo da revista Mensch, e, gosta de esportes, deve ter visto as matérias que fizemos sobre a preparação para a Maratona de New York, publicadas nas edições #17 e #19, com todo o processo, desde o início dos treinos até a linha de chegada. A ideia é estimular as pessoas a saírem do sedentarismo e praticar esportes. Nessa edição decidimos buscar outros exemplos de inspiração em atletas amadores, que mudaram sua vida com a paixão por um esporte. E chegamos até Tiago Lucas, praticante do Crossfit, esporte que vem crescendo muito e conquistando novos adeptos e antigos atletas que querem sair da rotina das academias de musculação. 

Tiago trabalha como piloto de helicóptero, tem 39 anos, casado e pai do pequeno Theo. Por ter escala flexível, consegue conciliar bem o trabalho com atividades do lar, cuidados com a família e os treinos de Crossfit. “Tenho uma rotina normal e, até pouco tempo atrás, não poderia imaginar que um dia seria classificado para um torneio de porte nacional, dividindo a mesma arena com atletas conhecidos, que, há muito, eu já acompanhava pelas redes sociais”, confessou Tiago.

Você pode imaginar que Tiago já tenha um certo tempo no esporte, mas sua paixão pelo Crossfit é recente, mas desde cedo foi incentivado a praticar esportes. “Por sermos uma família de ‘baixinhos’, meus pais recorreram à natação como estímulo ao crescimento. Logo depois, vieram as aulas de tênis, por tradição da ascendência paterna, e, na sequência, “vela” (barco à vela). No início da adolescência, preocupados com o meu desempenho escolar e constantes brigas na escola, meus pais me levaram ao judô, visando reforçar a disciplina e extravasar a agressividade. Todos esses esportes foram fundamentais na minha formação e me ensinaram a lidar com companheiros e adversários, a conviver com conquistas e frustrações, a conhecer meus limites e potencialidades”.

Mas foi em fevereiro de 2014, já em Recife, desmotivado com os treinos de musculação, que Tiago começou no futevôlei de praia. E em junho do mesmo ano conheceu sua esposa e, com ela, o crossfit. “O namoro engatou com a nossa matrícula na academia de crossfit. Eu mantinha a rotina das aulas de futevôlei pela manhã e a acompanhava no crossfit à noite. Com o nascimento do nosso filho, em setembro de 2015, a rotina mudou. Precisei optar por uma das atividades de esporte... E já totalmente envolvido, escolhi o crossfit. Mas só uma hora de aula por dia não me satisfazia, então, sempre que eu podia, ficava depois das aulas, treinando as progressões para os movimentos que eu sentia mais dificuldades.”

Em julho de 2016, a Bunker Academia (box de Crossfit em Recife) sediou a etapa Norte/Nordeste da Seletiva do Torneio CrossFit Brasil. Motivada por um 4º lugar no feminino e um 8º no masculino, decidiu preparar um grupo de atletas para competições num projeto de longo prazo, cujo convite foi aceito por Tiago sem maiores compromissos. Ao longo dos treinos Tiago foi tomando gosto e evoluindo ao ponto de chamar a atenção dos treinadores, que vislumbraram a possibilidade de representação da Bunker em competições na categoria Master. Segundo Tiago: “Nunca tinha pensado em competir, mas topei o projeto, movido por treinos cada vez mais desafiadores. Minha rotina passou a incluir duas horas e meia de treino, cinco vezes por semana. E, treinar com colegas mais jovens e mais condicionados é um convite à constante superação.”

Em janeiro de 2017, o Monstar Games - maior evento fitness da América Latina -  abriu seleção para a Etapa São Paulo, e surgindo a possibilidade de Tiago se avaliar em relação aos demais atletas de sua faixa etária. Inscritos ao todo 71 atletas da categoria Master (nascidos até 1977). A etapa classificatória envolvia 4 provas, que deveriam ser executadas por cada inscrito, gravadas e enviadas para análise da comissão de arbitragem do evento. Só os 20 primeiros colocados seriam selecionados. Tiago ficou 23ª posição. “Quase lá! Mas não foi dessa vez...” pensei! Mas para minha surpresa, dias depois recebi um e-mail informando que eu estava classificado para o torneio, em virtude de classificados desistentes ou impossibilitados de competição.”


Assim, algo que começou despretensiosamente, estava levando nosso atleta à São Paulo naquela manhã do dia 16/02/2017, como único representante Norte/Nordeste no Monstar Games. Chegando lá, ainda pela manhã ao Shopping Eldorado, foi fazer seu check-in no evento e retirar o kit de atleta, seguindo, de lá, para o Ginásio do Ibirapuera, onde ocorreu o briefing dos três dias de competição e das nove provas.


Primeiro dia de competição. Cheguei cedo no ginásio para acompanhar as primeiras baterias. Na minha vez, a categoria Master entra junto com a elite na arena... Lá estava eu, aquecendo, entre os melhores atletas de crossfit do Brasil!  A prova mesclou cárdio e força. Optei por acelerar no primeiro WOD (Workout of the day) - cárdio puro (row 750 metros, 40 burpees over the row) e garantir uma boa posição, já que a minha “RM” (repetição máxima) de snatch (movimento de levantamento de peso olímpico que tira a carga do chão e leva acima da cabeça em único movimento) não é tão alta. Fui o 10º colocado no WOD 1, terminando a prova em 5’05”. Bom! 1’05” a menos do que eu tinha obtido na preparação ... Sobraram 3’55” para o WOD 2 - RM de snatch - e eu já estava bem desgastado... Efetuei repetição com 60 kg. E resolvi arriscar 70 kg, pois tinha conseguido com 75 kg no teste da prova, mas falhei em duas tentativas e fiquei com a 17ª posição.

Nova etapa, WOD 3, estava confiante! Tinha feito um bom tempo nos treinos... Mas minha mão abriu durante as primeiras 5 subidas, o que me fez levar 3’00” a mais que na preparação. Por alguns instantes cheguei a pensar em desistir, mas os gritos de incentivo dos amigos que estavam na arquibancada não me deixaram parar! Pude ver que até o Lupa, campeão do torneio e atleta que admiro, também gritava e me apoiava para que eu concluísse a prova, e foi o primeiro a me cumprimentar, ao final. Conclui o primeiro dia com a 17a posição.

Segundo dia de provas. Foi extremamente desgastante, em razão das séries de maiores repetições dos mesmos grupos musculares. Embora a prova tenha sido idealizada com a “assault bike” (equipamento de bicicleta funcional), os aparelhos ficaram retidos na alfândega e precisaram ser substituídos por remos. Procurei manter o ritmo nas calorias de remo e as quebras estipuladas nos “thrusters” (agachamento com barra e lançamento da barra ao subir). Senti o desgaste da musculatura ao fazer os “handstand push ups” (flexão de braço com o corpo de cabeça pra baixo). Consegui ficar com as 16ª, 14ª e 17ª posições, respectivamente. E no WOD 7, terminei rápido, com 4’24’’, menos 4” que no teste. 

Último dia: Prova de resistência. Minha estratégia era manter um ritmo moderado, que eu pudesse sustentar até o fim. Meus adversários começaram no maior gás, levando-me à última posição no primeiro round. Foquei no que tinha estabelecido com o meu coach, mantive o ritmo e, ao final do segundo round, já tinha ganho algumas posições, terminando o dia em 12o lugar. Eu achava que iria só até aí... Não havia treinado para as provas finais, confesso, pois achava que eu não chegaria a disputá-las, mas fui surpreendido quando a organização do evento informou no dia do briefing que os 20 atletas estariam na prova final, sem nenhum corte! Então, lá estava eu: na final! O bar muscle up (movimento de balanço do corpo para subir na barra) é o movimento que tenho maior dificuldade. Como eu tinha começado a treiná-lo há pouco tempo, acreditava que ficaria em último colocado nesse WOD. Lembro que ao chegar na área de aquecimento e ver a desenvoltura com que os atletas o executavam, pensei: “Tô frito! Serão os 10 minutos mais longos da minha vida!” De repente, vi o Lupa treinando justamente o bar muscle up.  Compartilhei com ele a minha dificuldade e ele, super solícito, me deu uma verdadeira aula sobre o movimento. E assim, numa prova de extrema superação, consegui executar os bar muscle ups, ficando na 15a posição! 

Conclui o Monstar Games na 17ª colocação, no geral, com apenas 25 pontos de diferença para o 14º colocado, considerando os 1.300 pontos disputados. Pra mim, uma grande conquista! Motivação suficiente pra continuar treinando e disputar as próximas etapas do torneio, que ocorrerão em Brasília (meio do ano) e Rio de Janeiro (final do ano).


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