quinta-feira, 30 de março de 2017

PERFIL: Carlos Augusto Costa - Educação, cidadania e a ação do neuromarketing na sociedade

Carlos Augusto Costa disputou a prefeitura da cidade de Recife pelo Partido Verde do qual é militante há mais de 30 anos, mas muito além do político está um cidadão que desde a infância aprendeu com seu pai, já falecido, sobre valores fundamentais como a educação. A formação profissional, o vasto conhecimento de mundo, a experiência de morar fora do país e principalmente o olhar voltado para o seu próprio país tornam Carlos Augusto um homem daqueles a quem se deve dar mais que um minuto de atenção. Conheçam um pouco mais do homem cercado inclusive por letras e poesias.

Ano passado você concorreu às eleições para prefeito. Como a política começou a ganhar espaço na sua vida? O que se pode aprender como pessoa (e não como político) durante a campanha? Na verdade, em algum grau fazemos política desde sempre. Mas sou militante do Partido Verde - PV há quase 30 anos. Participar de uma eleição, especialmente no Recife e mais ainda disputando o cargo maior da cidade – Prefeito, foi uma experiência marcante, gratificante e extremamente transformadora. Uma eleição é um processo muito intenso. Exige muito do candidato, seja no plano pessoal, familiar, político, profissional e social. Um período intensamente vivido em que tinha agenda diária, muitas vezes quatro, cinco eventos por dia. Então, digo que uma campanha vivida como a que eu vivi, é uma escola de cidadania. Um aprendizado para toda a vida. Valeu todos os segundos. Posso dizer que entrei um Carlos Augusto e saí outro. Bem melhor. Mais preparado.

Do que somos carentes enquanto sociedade e indivíduos constituintes de uma sociedade? A sociedade em que vivemos é muito desigual e, Recife, especificamente, muito mais. 72% das pessoas que vivem na Região Metropolitana do Recife ganham menos de 2 salários mínimos e 52% só tem até a 4a série. Somos carentes de muitas coisas. Mas também é uma realidade que somos um povo guerreiro. Um povo solidário, que acolhe, que não desanima, e foi muito gratificante ver e sentir isso durante a campanha eleitoral. Mas, necessitamos de uma melhor infraestrutura, de uma melhor saúde, mobilidade, segurança, especialmente, melhor distribuição de renda. Precisamos olhar mais para o lado. O Otto Lara Resende tem um poema que diz: “de tanto ver a gente acaba não vendo. A rotina embaça a visão”. Precisamos perceber os mais próximos, familiares e amigos, assim como os mais distantes. Precisamos cooperar mais e competir menos e se assim fizermos, tenho certeza que conseguiremos construir uma sociedade mais justa, inclusiva, sustentável e humana. E, precisamos urgentemente reconhecer a educação como o nosso bem maior e elegê-la como prioridade máxima. Não tenho dúvida que a Educação é o caminho para uma sociedade com indivíduos realizados e felizes.

A experiência de campanha foi, na verdade, um evento excepcional na sua vida. Você tem uma bagagem profissional muito rica. Como se deu sua trajetória até aqui? Comecei muito cedo. Aos 13 anos de idade, ajudando meu pai. Tínhamos um comércio numa pequena e linda cidade do sertão do Cariri, o Crato. Aos 15 anos com a morte dele, tivemos que vender e mudamos para Fortaleza e logo em seguida parti para o Sul Maravilha, o Rio de Janeiro. Era assim que nós do Sertão chamávamos Rio e São Paulo. Lá me formei em Engenharia Eletrônica. Trabalhei no Centro de Pesquisas da Eletrobrás-Cepel; Na Chesf – Companhia Hidroelétrica do São Francisco. Quando tive a oportunidade de morar quase 3 anos na Alemanha. Fui presidente do Condepe – Instituto de Planejamento de Pernambuco. Trabalhei no Sebrae Nacional e na MCI, do Cientista Político Antonio Lavareda. Hoje estou na Fundação Getúlio Vargas - FGV, onde sou diretor adjunto e coordenador do Laboratório de Neuromarketing. Paralelamente à minha vida profissional, sempre tive o entendimento que precisamos retribuir para a sociedade parte do que dela recebemos. Por esse motivo, há vinte anos lançamos o Movimento Cidade Cidadão, um movimento da sociedade civil de resgate da cidadania e em defesa do meio ambiente. E, mais recentemente, o Recife Bom Para Viver (recifebomparaviver.com.br), com causas semelhantes ao Cidade Cidadão. 

Você é diretor na FGV (Fundação Getúlio Vargas), liderando projetos de assessoria técnica em todo o país. Além disso, vive entre São Paulo, Rio de Janeiro e Recife. Como essa experiência profissional lhe ajudou a conhecer a realidade brasileira e as necessidades do país do ponto de vista da gestão pública e da sociedade? A Fundação Getúlio Vargas é um espaço de muito prestígio e tradição, com uma credibilidade que a coloca acima de questões políticas. Sua criação vem da primeira fase de modernização do Estado brasileiro, com o presidente Getúlio Vargas. Estar lá me possibilita conhecer e transitar por todas as instâncias do poder público brasileiro, entendendo não apenas suas limitações e necessidades, mas conhecendo várias iniciativas extremamente inovadoras e bem-sucedidas em termos de gestão e políticas públicas que vêm sendo empreendidas por aí, às vezes nos lugares mais recônditos do país.

A FGV Projetos, da qual sou diretor-adjunto é a nossa área de assessoria técnica e por isso, somos chamados por diversos governos, seja no plano federal, estadual e municipal para contribuir com a melhoria da gestão pública. E assim temos feito. E dessas andanças, posso dizer que precisamos investir em muitas coisas. Mas, na minha opinião, três são fundamentais: Pessoas, Tecnologia e Infraestrutura. Investir em pessoas é garantir um futuro melhor para todos. A tecnologia veio para ficar. A cada dia, mais e mais, estamos dependentes dela. Então, os governos devem usar a tecnologia para melhorar a gestão, garantir maior transparência, mais qualidade dos serviços públicos e ao mesmo tempo, fazer mais, melhor e gastando menos. E por último, investir em infraestrutura. Isso para garantir as condições necessárias para que cresçamos de forma sustentável, com equidade e com justiça social.


Na FGV, você também é coordenador do Laboratório de Neuromarketing. Explica pra gente o que é o neuromarketing. Neuromarketing é o uso da neurociência aplicada ao marketing. Eu gosto de renomear o neuromarketing para a Nova Era do Marketing. O marketing, como sabemos, surgiu para aproximar as pessoas dos produtos.  As decisões tomadas eram basicamente em função de elaborações mentais dos consumidores, expressas sobretudo verbalmente, ou seja, decisões conscientes, cognitivas. A neurociência veio agregar uma nova abordagem, a partir da análise das reações emocionais e não cognitivas dos consumidores. Sendo assim, o neuromarketing agrega à tomada de decisão uma dimensão não verbal, não consciente, emocional. E isso pode fazer toda a diferença quando temos produtos muito similares e as pesquisas tradicionais não conseguem (sozinhas) responder às dúvidas da área de marketing.

Imagine que um governo precisa lançar uma campanha de saúde pública, com cartazes e inserções na TV. Chamam um artista importante para transmitir a mensagem e são feitas pesquisas qualitativas para testar as peças, mas, mesmo assim, a campanha não surte o efeito desejado. A partir de um estudo usando as ferramentas de neuromarketing, pode-se descobrir, sob a ótica não cognitiva, emocional, o que pode ter contribuído para a campanha não ter logrado êxito.

Você acha que o Brasil está preparado para o uso deste tipo de tecnologia? Como essas e outras tecnologias podem ajudar o país a superar seus desafios, tanto do ponto de vida do desenvolvimento econômico, quanto do social? Como falei anteriormente as tecnologias vieram para ficar e o neuromarketing também. Segundo alguns estudos de cada 100 produtos lançados no mercado 85 deles não logram êxito. É muito desperdício. Com as novas ferramentas do marketing, estamos conseguindo ajudar aumentar essa taxa de sucesso.

E quanto às novas tecnologias? Quanto a outras novas tecnologias, ainda há bastante resistência ao uso delas em várias situações, mas isso está mudando sensivelmente. Cada vez mais as cidades e seus gestores estão se dedicando a estudar e sistematizar o uso de Big Data, como são chamadas as grandes massas de informações que circulam pela internet, para implementar inovações que possam melhorar os serviços públicos e, sobretudo, a qualidade de vida das pessoas. No Recife, o Porto Digital tem sido uma referência nacional e internacional quando se fala em tecnologia. No Rio de Janeiro, foi criado o Centro de Operações do Rio, que monitora a cidade inteira para oferecer respostas rápidas e eficientes a situações que possam perturbar o andamento cotidiano da cidade. Em São Paulo, estão criando um sistema de monitoramento de placas de carro, o que promete controlar melhor a questão do trânsito. Pode-se dizer que a partir do uso inteligente da tecnologia, cada vez mais as cidades brasileiras estão se tornando smart e inclusivas. Uma outra realidade diz respeito aos smart-fones. Eles estão cada vez mais presentes no nosso dia-a-dia e com eles, uma serie de aplicativos ajudam a melhorar nossa vida, por exemplo: Waze, Uber, WhatsApp, Facebook.

Não tenho dúvida que no campo da gestão pública o uso de Big Data vai mudar a realidade das nossas cidades nos próximos anos. E na indústria, a Internet das Coisas está moldando a chamada indústria 4.0. Podemos dizer que os novos tempos serão de muitas mudanças e para isso, a educação é o caminho para a inclusão das pessoas nesse novo mundo que se avizinha.

Já dá para pensarmos como será a cidade do futuro? Para ajudar a imaginar a cidade do futuro, o pesquisador Carlos Ratti, do MIT, faz uma analogia com a Fórmula 1. Os aficionados devem lembrar como eram as corridas há alguns anos passados. Os carros paravam nos boxes e a equipe ia ajustar manualmente os equipamentos. Hoje, com inúmeros sensores e microchips, os chamados computadores de bordo, quase tudo é feito remotamente, em tempo real. As cidades do futuro serão muito parecidas com isso. Olhe à sua volta, e você vai encontrar inúmeras coisas que hoje são feitas sem uso da tecnologia e que muito em breve estarão automatizadas.

Voltando à sua pergunta, se o Brasil está preparado? Respondo, que algumas partes, sim. As que não estiverem precisam urgentemente estar.

Você viveu e trabalhou na Alemanha. Ao mesmo tempo, viaja muito pelo mundo afora. Nós brasileiros, costumamos nos encantar com todas as vantagens de viver em países mais desenvolvidos, mas nem sempre estamos dispostos a mudar nossos hábitos por aqui. Você acha que ainda temos esse complexo de querer ser a Europa? E, como essas experiências internacionais mudaram sua visão de mundo e lhe ajudam cotidianamente na vida e no trabalho? Não concordo que queremos ser uma Europa. Queremos ser Brasil. Brasileiros, nordestinos, com nossas tradições e nossa cultura. Isso não quer dizer que não possamos olhar o que de bom está sendo feito em outros lugares e buscar melhorar aqui. Normalmente o que vem de fora não guarda relação direta com a nossa forma de viver. E sendo assim, se simplesmente copiada, tem grande chance de não funcionar. Porém, precisamos avançar muito em questões como distribuição de renda, infraestrutura, inclusão social e zelo com o meio ambiente. E minhas andanças pelo mundo me mostram que podemos e devemos ser mais responsáveis e cuidadosos com que nos cerca.

O que tem o Brasil, que é cobiçado mundo afora? Como usar isso em favor da sociedade? O Brasil é um dos países mais criativos e bem-humorados do mundo. Quando morava na Alemanha, dizia: se pudéssemos juntar a criatividade dos brasileiros com a organização dos alemães, não tinha para ninguém. Realizamos as Olimpíadas que não deixou nada a desejar a nenhuma outra já realizada. Pelo contrário, mesmo no meio de uma crise, de ameaça de Zica vírus e problemas de infraestrutura, foi uma das mais bem organizadas e belas. No mundo todo se elogia a capacidade do brasileiro em resolver problemas e criar soluções inovadoras, mesmo em situações de escassez. Alguns dos nossos executivos são chamados para missões ditas “impossíveis” pelo mundo. Esse é o lado bom do Brasil, o lado que devemos valorizar.


Você é casado com Juliana Lins, fundadora da Vila 7, filha de Tarcísio fundador da saudosa Livro 7. Você deve gostar de ler, não? Juliana é uma pessoa excepcional. Ensina-me todos os instantes. E como você falou, há cinco anos fundou a Vila 7, um espaço que tem tudo a ver comigo. Pois oferece livros educacionais e brinquedos sustentáveis e inteligentes. Tudo bem atual. Veja que respiramos letras (risos). E mais ainda, convivendo com o Tarcísio Pereira, uma referência brasileira quando se fala de livraria. E com a mãe, Letícia Lins, filha de Osman Lins (um dos mais importantes escritores brasileiros) e jornalista das mais competentes da nossa cidade, não poderia deixar de sofrer essa belíssima influência. Sim, gosto muito de ler. Leio, mas gostaria de ler mais, mesmo aproveitando as horas de voos.

Sendo homem público e executivo de uma instituição tradicional, como cuida da sua imagem e como transita por todos esses meios? Imagem diz muita coisa de uma pessoa. Quando encontramos alguém que não nos conhece, em questão de segundo ela já faz uma avaliação, não consciente de quem somos. E isso faz toda a diferença.  Por isso, trato bem da minha aparência e procuro me vestir bem. Mas o mais importante é sermos verdadeiros e éticos. Então, por isso digo que a imagem diz muita coisa, mas não diz tudo. O resto somos nós mesmos que externamos, mesmo sem percebermos.

Como é o Carlos Augusto em casa com os filhos? Que herança gostaria de deixar para eles e para Recife, seja como cidadão ou político? Para os meus filhos deixo o exemplo de fazer a coisa certa. Minha orientação é: “faça o que seu coração ordenar, desde que não faça mal ao outro”. E acima de tudo deixo também o que para meu pai tinha como o valor fundamental na vida de uma pessoa: Educação. Meu pai dizia: “educação é tudo”. Porque ela ninguém tira de você. Além disso, cultivo diariamente e estimulo que os meus filhos façam também, duas coisas que, para mim, são fundamentais na vida de uma pessoa e para toda a coletividade: o respeito e a gratidão. E isso quero deixar para meus filhos; o resto, eles que vão construir. 

Quanto às nossas cidades que escolhemos para realizar nossos sonhos, essas, precisam de atenção. Como disse antes, estamos em tempos de grandes transformações, mas também de carências, contrastes e desigualdades que precisam ser enfrentadas. E, a cada dia, tenho certeza que somente com a cooperação conseguiremos transformá-las em cidades que respeitam as pessoas e que acima de tudo, criem um ambiente e um contexto onde elas realizem seus sonhos e sejam felizes. E é esse o meu sonho, trabalho por isso todos os dias.


FOTOS CARLOS CAJUEIRO
PRODUÇÃO NATÁLIA CASTRO

AGRADECIMENTO
RICARDO ALMEIDA (RIOMAR RECIFE)

Nenhum comentário:

Postar um comentário