sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

CAPA: A alma musical de Zé Ricardo, do Carnaval ao rock (in Rio)

Um homem múltiplo que cada vez mais se descobre diante de um (prazeroso) desafio. Zé Ricardo, vive e transpira música. Seja como cantor, produtor de musicais, shows e filmes, seja como diretor artístico. Nessa função de diretor artístico, é dele a responsabilidade de cuidar do Palco Sunset no Rock in Rio, no qual está há 10 anos nessa função. Hiperativo, Zé Ricardo, sempre de sorriso largo e muitas ideias na cabeça, abraça cada projeto como se fosse o único na sua corrida maratona de trabalho. Atualmente assina a trilha da peça ONLINE do ator Paulo Gustavo que estreou em novembro no Rio, compôs e gravou a trilha do filme “Minha Mãe é Uma Peça 2”, também do Paulo Gustavo, produziu 4 faixas no CD novo da Mart'nália, e ainda assinou a direção musical e artística do novo show da atriz Samantha Schmutz. Além do novo projeto que mistura música e artes plásticas que ele está levando pra Berlim. Isso só para citar os últimos projetos desse cara. Entre viagens e projetos a MENSCH conversou com Zé que já se prepara para muito trabalho com a nova edição do Rock in Rio que vem chegando agora em 2017. Mas antes disso, ele cai no carnaval com shows no Recife Antigo. Sua alma musical não o deixa ficar parado.

Como a música entrou em sua vida? Quando percebeu que era isso que você queria para você? Eu sou músico desde que me entendo por gente. Meu pai toca vários instrumentos. Eu cresci ouvindo Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo e todos os grandes compositores e instrumentistas do choro e do samba brasileiros através do meu pai. Quando ele saia pra trabalhar minha mãe ouvia Ray Charles, Nat king Cole e outros deuses do blues e do Soul. Eu ficava encantado com aqueles dois universos. A música que faço hoje, tem muita influência do que escutava com eles. Desde pequeno, cantava no colégio. Fazia música pra os trabalhos de grupo na escola. Comecei a tocar violão com 12 anos. Aos 16 anos, já tocava em bares na noite do Rio com autorização do meu pai, meu grande incentivador. A música sempre foi meu destino.

Cantor, produtor e diretor artístico. O que pesa mais o artista ou o homem de negócios? Que peso cada um tem em sua vida? O cantor ajuda muito o diretor artístico e vice versa. Meu trabalho de curadoria se beneficia muito da capacidade que tenho de resolver os impasses artísticos através da música. Seja pegando o violão e sugerindo um outro acorde, propondo um novo arranjo ou escolhendo o melhor tom pra um cantor. Essa capacidade traz segurança pra os artistas e os faz aceitarem embarcar nas minhas propostas com confiança. Eu componho e canto porque se não o fizer vou transbordar. Compor e cantar são necessidades vitais pra mim. São o combustível da minha alma. Descobri na direção artística e na produção um mundo fascinante. Tenho crescido muito nessa vertente e ainda há tanto pra descobrir. Nos últimos anos o homem de negócios vem tomando muito tempo do cantor. Mas eles estão se entendendo. Um precisa do outro. 


Diante dessas três vertentes da música na sua vida, como é sua rotina? O mais difícil da minha rotina é exatamente não ter rotina. Eu já me acostumei a ser “Vários em um”. (risos). Meu penúltimo CD tem esse título. Não só ser cantor e diretor artístico mas ser pai, amigo, marido, filho enfim… Muitas funções. Todas exatamente importantes. Antes eu ficava um pouco angustiado. Mas hoje tenho a certeza que meu dou ao máximo em tudo. Então me deixo mais em paz. 

Eu trabalho pro Rock in Rio todos os dias. Seja encontrando um artista, falando com um agente, o festival está presente diariamente na vida. Há dois anos atrás montei um estúdio de gravação, onde além de gravar minhas músicas, faço ensaios de outros projetos que produzo e gravo as trilhas dos longa metragem e das peças de teatro que assino. Fiz questão que meu estúdio fosse perto da minha casa. Pra poder levar meus filhos no colégio e correr em casa pra botá-los pra dormir sempre que posso. Eu amo tudo o que faço. Vou me ajustando todos os dias. O tempo hoje é o meu bem mais valioso.

É mais fácil produzir para outro artista do que para você mesmo? O Zé produtor cobra muito do Zé cantor? Bem mais fácil produzir outro artista do que a si mesmo. Aliais, eu acho que todo artista precisa de um produtor. Um visão distanciada é extremamente importante. Ainda mais no meu caso que componho, canto, faço arranjos. O produtor é fundamental. Quando estou fazendo CD é um momento delicioso porque entrego o leme do barco pra meu produtor. Ele conduz e eu fico só como artista. A sensação de ter alguém pensando nos detalhes pra você é muito boa. Meu último CD “7 Vidas”, tive a alegria de ser produzido por um dos melhores produtores do planeta. Meu amigo Moogie Canazio. Passei 2 meses em Los Angeles gravando. Ele pensava em cada detalhe. Desde a banda ao estúdio que iríamos gravar. Foi sensacional!!

Quando e como você chegou ao Rock in Rio? Como avalia sua trajetória no festival? O Rock in Rio é o sol da minha vida profissional. Um dia recebi um telefonema da Roberta Medina que mudou minha vida. Ela me convidou pra ir a Lisboa e apresentar um conceito artístico pra um novo palco do Rock in Rio. Nasceu assim o palco Sunset. Que começou em Lisboa. Realizando encontros entre artistas portugueses africanos e brasileiros. O palco virou um sucesso em Portugal. Veio para o Brasil em 2011 e foi um grande sucesso outra vez recebendo artistas de peso como Ben Harper, Sepultura, John Legend, Joss Stone entre outros. Conquistou seu espaço também nas edições do Rock in Rio em Madri e em Las Vegas. Acho que venho contribuindo com muita garra, amor e dedicação para a história fantástica do Rock in Rio. As coisa tem dado certo!

Ser diretor artístico do Rock in Rio deve ter seu grau de estresse entre decidir que artista entra, administrar cada ego e ter o controle para que tudo saia bem. Que parte é mais difícil e mais prazerosa? É uma responsabilidade e uma honra gigantesca trabalhar num festival que mudou a história música no Brasil. Trabalhar ao lado do Roberto Medina e do Paulo Fellin. Aprender com esses dois mestres na arte de festivais. Poder ousar, arriscar e contribuir pra o aparecimento de novos artistas. Também atualizar uma nova geração sobre quem fez música inesquecível nos últimos anos. É um trabalho sério que exige técnica mas também muito amor. Exige coragem. Eu procuro focar sempre na parte prazerosa. Ela é sem dúvida bem maior do que os problemas. Juntar dois artistas as vezes é complicado. Administrar egos, inseguranças e tensões fazem parte do trabalho. 

Exercer essas suas três funções dá uma visão mais ampla da música como negócio. Onde é mais comum o artista derrapar? Quais as ciladas que podem existir nessa área? O negócio da música está mudando muito rapidamente. As novas tecnologias, a maneira dinâmica com que se produz música no mundo hoje em dia, a maneira com que ela é distribuída, tudo é novidade pra quem vem de um mercado que ficou anos dentro do mesmo formato. Os artistas derrapam quando não se atualizam. Quando continuam presos a uma época em que a música era feita e consumida de outra maneira. O artista que ficava em casa e esperava a gravadora e o empresário fazerem tudo, hoje tem que arregaçar as mangas e trabalhar. Estreitar o caminho entre ele e seu público. Não dá pra se esconder mais.

Hoje o público brasileiro está com um gosto musical meio duvido, digamos assim. Como você avalia isso? É muito difícil vender rock e MPB no meio de tanto funk e sertanejo? Não acho que exista um estilo de música pior que o outro. Acho que existe preguiça. Falta de acabamento. Descaso pelo que o público consome. As letras estão cada vez mais pobres. As melodias obvias. Os arranjos medíocres. Os produtores culturais cada vez mais acovardados. Com medo de perderem seus cargos. Arriscando nada. Subestimando a capacidade do povo de assimilar boa música. São os produtores culturais que deveriam apresentar novas opções de música de qualidade ao público. Essa é a nossa obrigação. Dar não só o que o povo quer. Mas principalmente o que ele precisa e nem sabe que quer. Só por não conhecer. Jamais poria a culpa no público. Se existe culpa ela está na covardia de quem produz e distribui música.


Como você observa a trajetória do Rock in Rio do início (que você já estava participando) até hoje? Que mudanças ocorreram até hoje? O Rock in Rio não se conforma com o sucesso. Não descansa nele. Essa inquietação vem do nosso criador e presidente Roberto Medina. Ele contaminou toda nossa equipe com essa ideia. Ele está sempre querendo coisas novas. Desafios. Ele não aceita que pensemos pequeno. Isso faz com que o festival se reinvente a cada edição. O surgimento do Palco Sunset, da Rock Street, do Street dance e o projeto Amazônia Live que vai plantar um milhão de arvores na Amazônia são provas que o festival está mudando e crescendo. Com o frescor de quem começa hoje! 

O que o público pode esperar para a próxima edição em 2017? Que surpresas ou mudanças vem por aí? Muita música pop, muito Rock. Uma cidade do Rock nova e cheia de novidades pra todas as idades. Shows inesquecíveis no palco Mundo. Encontros memoráveis no palco Sunset. O charme da Rock Street que vai trazer os costumes de um pais espetacular. O público pode esperar o melhor Rock in Rio de sempre!!!

Na hora do Zé produtor no comando o que se torna mais difícil, casar suas ideias com a do artista ou administrar o ego do artista? Já abriu mão de algum trabalho por conta disso? Juntar artistas e propor novas ideia pra eles, exige além de conhecimento delicadeza. Sou artista e sei que o que nós precisamos é nos sentir seguros quando vamos a um lugar fora da nossa zona de conforto. Esse é meu trabalho. Passar segurança aos meus convidados. Deixá-los seguros que o festival vai estar ali pra suportar e cuidar de tudo pra que seus espetáculos sejam maravilhosos. Não imponho uma ideia a um artista. Faço uma sugestão. Escuto sua opinião. Seus receios. E trago as soluções. Já abri mão de trabalhos que pagavam bem mas tratavam a música com desrespeito. Que queriam só a popularidade sem ligar pra qualidade. Eu tenho fé na música. E suas infinitas possibilidades. Jamais vou trata-la sem carinho. 

Onde busca inspiração para suas músicas? Quem são seus ídolos? No cotidiano, na minha vida, na vidas das pessoas. Adoro observar as paixões ao meu redor. Seus encontros e desencontros. Gosto de falar de amor. E de dor também. Meus ídolos são tantos. Na verdade eles são meus heróis. Cartola, Ray Charles, Djavan, Marvin Gaye, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Stevie Wonder e tantos outros que amo.

E o que faz sua cabeça quando não está trabalhando? O que te diverte (sem ser trabalho)? Brincar com meus filhos, levar eles pra viajar, cozinhar pros amigos, ir ao Maracanã ver o Flamengo, ouvir música sem pensar em nada.

E o Zé Ricardo como artista, o que trará de novo em breve? Novo CD, Segue o Baile…? O meu show “Segue o Baile” vai rodar o Brasil no ano que vem. Começamos no Rio, depois uma temporada em Recife, depois o sul do pais e São Paulo. Podem chegar que a diversão vai ser garantida!


Fotos Rodrigo Lopes
Produção executiva Márcia Dornelles

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