quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

PERFIL: Felipe Hackel, empreendedorismo de berço

Enquanto a maioria das crianças ia à feira da Madalena ganhar passarinhos de seus pais e avós, Felipe Hackel era incentivado pelo avô a negociar pelas aves que queria comprar. As aulas de culinária nas férias rederam sanduíches que ele vendia às costureiras da confecção da mãe.

Não à toa, aos 16 anos, Felipe e mais três sócios, entre eles Murilo Gun (hoje comediante e renomado professor de criatividade), fundavam a BIT, uma das primeiras start up do Brasil que mais tarde teve 50% do seu capital vendido a investidores por 1 milhão de reais. E eles eram só adolescentes. O sucesso da empresa, que chegou a criar uma espécie de rede social e pedido de comida pela internet (alguém lembrou do Orkut, Facebook e iFood? Pois é, pioneirismo), fez Felipe largar o colégio, partir para um supletivo e fazer o que mais sabia e gostava: empreender.

Veio a crise das ponto.com em 2001 e o primeiro sonho dourado cibernético de muita gente deixou de existir. A queda foi proporcional ao sucesso, mas Felipe tem o que é essencial a todo empreendedor, seja qual for o tamanho do sonho e do negócio: paciência e persistência. Felipe Haeckel conhece bem o ditado “pra comer a carne tem de roer o osso” e ele não larga o osso enquanto não chegar na carne.

A saga BIT, no contexto da bolha da Internet, está sendo contada através de um documentário produzido pelo premiadíssimo cineasta pernambucano Léo Falcão, com previsão de estreia no primeiro trimestre de 2017.

O fechamento da BIT fez Felipe se questionar sobre sucesso e fracasso e as respostas se tornaram seu primeiro livro solo (já havia escrito um sobre comércio eletrônico com Murilo Gun): “Sucesso: o que eles Pensam”, uma coletânea de entrevistas com 119 empreendedores de Pernambuco, referências nos mais variados setores, contando suas histórias de sucesso e fracasso.
O livro deu destaque a Felipe e o fez criar uma rede de relacionamento de suma importância para os seus próximos passos além de receber na Assembleia Legislativa do Estado, através de proposta do Deputado Raimundo Pimentel, o Título de Cidadão Pernambucano, tendo sido o mais novo da história a receber essa homenagem.

Enquanto empreendia Felipe sentiu necessidade e vontade de preencher uma lacuna lá de trás, nos tempos do colégio e retornou aos estudos com força total sendo hoje formado em administração de empresas com dois MBA's: um em Gestão de Negócios e outro em Marketing e Vendas, ambos pelo CEDEPE Business School. É mestre Administração pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e especialista, pela mais renomada instituição de ensino do mundo, a Harvard University (Boston/EUA), em Liderança e Negociação.

Hoje, aos 33 anos, Felipe Haeckel é sócio da Construtora Pasárgada que mesmo em tempos de crise, entregou entre o fim de 2015 e esse ano, duas novas obras de alto padrão e da Pedra do Reino Investimentos empresa que investe em hotelaria, sócia do Íbis Budget Piedade, primeiro hotel super econômico de Pernambuco, e o único dessa categoria de bandeira internacional à beira mar da América Latina. Ainda para o ano que vem iniciará a construção de mais três novos hotéis. Um fato curioso nessa empreitada imobiliária é o fato de seus dois sócios terem sido entrevistados por ele no tempo do livro de 2004.

Dormindo somente 4 horas por dia Felipe finalizou seu quarto livro, “Sucesso: o que os Líderes Pensam”, que reúne 100 (cem) dos maiores e mais influentes empreendedores de Pernambuco vários segmentos. Por acreditar que empreender transforma Felipe disponibilizou gratuitamente 100% dos dois livros, o publicado em 2004 e o desse ano, em www.sucesso.pe para que o conteúdo tivesse acesso amplo e irrestrito.

ENTREVISTA MENSCH

“Larguei tudo e fui trabalhar com o que gosto”. É a frase do momento. Qual a sua visão dela? Eu acho um erro. Primeiro existe hoje uma bolha do empreendedorismo. No prefácio do meu livro falo sobre isso: hoje 3 em cada 4 pessoas querem empreender. Antigamente a pessoa empreendia por dois motivos basicamente, um porque queria realmente empreender e outro porque não tinha opção, não conseguia um emprego e ia empreender. Hoje existe uma indústria do empreendedorismo, há vários cursos, inclusive online sobre isso. É uma bolha. Como houve a bolha da internet, bolha imobiliária e de tantas outras coisas. Eu acho que é importante fazer o que gosta, mas é importante também ter uma função social, montar algo que seja viável financeiramente. Eu pessoalmente sou totalmente hardwork. Minha rotina não é nada glamourosa, nem nada simples também, então às vezes você também tem de fazer o que não gosta. Tem de ter disciplina. Tem de ter foco. Essa geração, como a minha e a mais nova (faixa dos 20) é muito desfocada, é uma geração meio “mimimi”. Falta um pouco de objetividade, foco e persistência. Se a pessoa for esperar empreender pra fazer só o que gosta tá fadada ao fracasso.

A linha entre persistência e teimosia é muito tênue, né? Quando o empreendedor deixa de ser persistente e começa a ser teimoso? Eu tive realmente um privilégio muito grande por muito novo ter recebido a oportunidade de empreender. Não é todo mundo que tem a oportunidade que eu tive, montar e vender uma empresa por um alto valor. Depois veio o livro (Sucesso: O que eles pensam, lançado em 2004,) que me deixou em contato com muita gente importante com quem convivi e aprendi muito durante as entrevistas. Criei uma rede de relacionamento muito boa com vários deles, inclusive, hoje sou sócio de dois deles em empreendimentos diferentes. Acho isso muito interessante, ter entrevistado os caras há 12 anos e hoje em dia ter um hotel em sociedade com um deles. O livro me deu essa oportunidade de conviver com essas pessoas e me deu  visibilidade também, a imagem de um menino que tinha potencial, e depois foi me validando de outras formas. Quanto a essa questão de persistência, eu acho que a pessoa não sabe não! Por exemplo, quando eu estava fazendo o livro em 2004 minha mãe dizia “vá arrumar um emprego de verdade, pare de fazer esse livro”, para ela não fazia sentindo, mas pra mim fazia. Então o empreendedor enxerga o que os outros não enxergam, se ele ficar dependendo da opinião dos outros para fazer alguma coisa complica. Outro exemplo é um dos casos do meu livro que eu considero muito interessante. Um funcionário de uma empresa que estava quebrando tinha capital e 1% dela. A dúvida era se comprava ou não a empresa, consultou 11 pessoas do seu círculo de confiança, todos aconselharam a não comprar. Foi para um hotel e por 3 dias refletiu sozinho. Comprou a empresa, transformou numa gigante e vendeu para a maior empresa de transporte do mundo. Para mim foi persistência. O limite é mesmo muito tênue, você não sabe de fato até que dê errado. O que eu acho que a gente tem de mudar no Brasil, que até o Murilo (Gun) fala um pouco disso, é essa cultura do fracasso. 

Para cada empreendimento de sucesso há vários de insucesso que não se divulga. O que há de mais verdadeiro nesse caminho e o que é “glamourização”? As pessoas precisam considerar o fracasso como uma coisa natural. No Brasil o cara que fracassa é tido como um leproso! Nos EUA, no Vale do Silício, por exemplo, quando você fracassa, você se torna uma pessoa mais experiente. Então é preciso mudar também esse conceito do que é fracasso e do que é sucesso. Às vezes o fracasso faz com que você aprenda tanto que o seu sucesso depois pode ser maior do que se você não tivesse fracassado antes. No nosso caso, tivemos um sucesso muito grande, fomos pioneiros em rede social e comida por internet, vendemos 50% da empresa na época por 1 milhão, mas quando estourou a bolha, nosso fracasso, mesmo que por condições externas, foi na mesma proporção. E nós aprendemos muito, mudamos muito, amadurecemos, éramos alunos de colégio naquele tempo. Se você pegar os 100 entrevistados do meu livro atual, o faturamento deles com certeza é maior que o PIB de Pernambuco, mas cada um teve seus momentos de fracasso. Não existe sucesso linear, 100% ascendente. É um sobe e desce. Abre e fecha, persiste, erra, conserta. As pessoas precisam rever esse culto ao vencedor. Nem todo mundo vai ser um João Carlos Paes Mendonça ou Américo Pereira e nem quer ser! Então sucesso tem a ver com o que cada um quer para si.

É possível empreender no negócio de outra pessoa? Funcionários que empreendem em seus locais de trabalho são bem vistos? Perfeito isso aí. Aliás você pode ser empreendedor em vários aspectos. Lenine por exemplo, é um artista empreendedor, ele tem sacadas muita legais, lança um CD e faz conexão com pessoas chaves. Isso é empreendedorismo. Romero Brito é um grande empreendedor. É mais empreendedor do que artista até. Então um artista pode ser empreendedor, um funcionário pode ser empreendedor e um funcionário com esse perfil é a coisa mais fantástica do mundo.

De onde vem o seu empreendedorismo? Desde pequeno eu gostava de empreender, por exemplo, minha mãe me dava um cachorro, aí eu fazia ela me dar outro e inventava um canil dentro da confecção dela para vender os cachorros. Na minha época toda criança fazia curso de culinária nas férias, né? Eu fiz também. Aprendi a fazer sanduíche e vendia na confecção da minha mãe para as costureiras. Eu sempre tive esse viés. Meu avô me levava na feira da Madalena para comprar passarinho e me ensinava a negociar, “você vai comprar, mas tem de negociar antes” ele dizia. E desde pequeno eu e Murilo ganhávamos livros. Minha mãe, quando eu tinha 14 anos, me presenteou com o livro Inteligência Emocional, era essa a minha educação. Inclusive o livro do Sebrae, que foi o primeiro livro que publicamos quando tínhamos 16 anos de idade, veio dos cursos de vendas que a gente fez com 14, 15 anos de idade incentivados pelos nossos pais. A gente viu que na biblioteca tinha livros publicados pela marca do Sebrae e pensamos em publicar também.

Houve muito estímulo, né? Se considera inquieto? Eu sou hiperativo, né? Você tá falando aqui e eu já vou processando. Mas também sou muito objetivo. Eu sou incapaz de ficar divagando. Eu só penso uma coisa se eu conseguir imediatamente imaginar em como vou executar. Um coisa que é muito característico do hiperativo (fui diagnosticado) é o chamado hiperfoco. Por exemplo, você está escrevendo um livro, você só para de pensar nele quando terminar. E eu sou muito focado e agressivo. Quando eu estou num caminho, numa reta, o que tiver na frente não me detém. Eu acho que falta um pouco de foco nessa geração de 20 e poucos anos, porque é muita notícia e muito desfoque. Whatsapp, Instagram, muita informação e falta de foco. Há sei anos eu estou construindo, tenho uma construtora. Não montei nenhum outro negócio em paralelo. Já me ofereceram, mas meu negócio é esse, tô focado.
Tem uma frase que diz assim “a maioria das pessoas que deram certo, deram porque persistiram”. Na vida precisa roer o osso pra comer o file, se você não persistir, ficar largando o osso e pegando outro, você vai roer vários ossos sem nunca comer o filé. Se ficar pegando aqui e largando ali o tempo todo, não vai ter o prazer de colher. Precisa ter paciência e foco.

Como a gente deve ler seu livro? Como fonte de inspiração? Como receita? Qual deve ser o olhar do leitor? Meu grande objetivo com o novo livro Sucesso: o que os líderes pensam, e isso não é demagogia, é mostrar os exemplos de Pernambuco para inspirar as pessoas. O grande mérito do livro é reunir pessoas, de várias áreas, cabeças completamente diferentes que respondem ao mesmo tema. Isso é interessante por si só porque se pode comparar as respostas. É provável que algumas pessoas gostem mais de umas do que de outras. E a ideia é que ele motive mesmo. Ao mesmo tempo é uma leitura muito leve, você pode ler de uma vez, ler uma entrevista, parar e depois ler outra...O grande valor do livro está nas pessoas que fazem parte dele. Eu nem me considero autor do livro, sou só o cara que juntou todos eles e suas histórias. Se você perceber na capa, ela tem setas para cima e para baixo, justamente para mostrar que o sucesso não é uma coisa contínua, não é uma coisa reta, bonitinha, não foi fácil para ninguém. 

Qual o teu conceito de sucesso? Já me perguntaram isso e não me sinto confortável nem com maturidade para responder. Eu tenho 33 anos, não sei, talvez seja isso, foco, persistência, além do mais é relativo. Você não pode ser medir pelas regras dos outros, né? Você tem que buscar sua felicidade com o que você quer. Como eu disse antes nem todo mundo vai ser um João Carlos Paes Mendonça, mas nem todo mundo quer ser um João Carlos.


Uma coisa curiosa sobre mim (e também sobre Murilo) é que a gente largou o colégio, mas depois a gente voltou à vida acadêmica. Hoje eu tenho um currículo acadêmico muito bom. Eu tenho duas pós, eu tenho mestrado, tenho Harvard, 4 livros publicados. Dei a volta por cima depois de quebrar, poderia ter gasto dinheiro com outras coisas.

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