quarta-feira, 29 de julho de 2015

FOTOGRAFIA: Victor Collor contando histórias através da fotografia

Viajar e fotografar ou fotografar e viajar? Ou tudo isso junto somado ao gosto pela aventura e pelo novo? Talvez sejam todas essas possibilidades a melhor maneira de contar a história de Victor Collor de Mello junto à fotografia, seu hobby que também é profissão. Formado em publicidade e tendo na mãe, Thereza, a inspiração para conhecer o mundo fora do circuito turístico comercial, Victor lança o projeto Gujarat realizado durante viagem à Índia, tendo como foco as exóticas e originais barbas indianas.

Quando você descobriu a fotografia e como ela te conquistou? Sempre tive muito mais facilidade com as matérias de humanas e artes na escola, mas descobri a fotografia quando fiz uma viagem à Turquia e na parada em Zurique comprei uma câmera e fotografei a viagem de mais ou menos 20 dias de “cabo a rabo”. Não pisava fora do hotel sem a câmera na mão. Na época ainda trabalhava como publicitário em uma agência e aos poucos fui fotografando amigos nos almoços de semana e fins de semana. Aos poucos fui fazendo muitas fotos de estilo de rua (streetstyle) e a coisa foi crescendo para o lado da moda. Alguns cursos aqui e outros ali, fui sendo contratado para trabalhos legais e quando me dei conta, já tinha sido conquistado pelas imagens que estava fazendo na minha cabeça com a ajuda de uma intermediadora, a câmera. Mas onde mais aprendi foi “levando surra” da máquina, saindo pelo bairro fotografando detalhes. Fiz bastante coisas no mercado Municipal aqui em São Paulo, fotografando a infinidade de cores que o mercado oferece para um olho apurado. As viagens também me ajudaram muito, afinal, quando viajamos tudo se torna novidade e você acaba enxergando muita coisa que talvez aquele cara que passe por ali todos os dias não repare. Aquela velha história quando gringos veem ao Brasil e enxergam detalhes que estão na nossa cara, mas nunca percebemos, sabe?

O fator de você vir do mercado de publicidade lhe influenciou em que? Com certeza há influência. Me formei em publicidade, o que foi seguido de mais ou menos 5 anos de agência. Sentia que faltava algo mais, sentia falta de colocar a mão na massa e não ficar atrás de um computador vendo e revendo e-mails e apresentações para clientes. Foi ainda durante o trabalho como publicitário que comecei a dar os primeiros pulos na fotografia e fui intercalando. Uma hora a fotografia e os trabalhos se tornaram muito mais prazerosos. A publicidade trabalha com imagem, com ilusão, com desejo, … É isso que a fotografia também faz, de uma forma mais sutil.



Quais as diferentes formas de inspiração e transpiração ao fotografar para uma campanha publicitária ou de moda? Hoje em dia tudo já vem muito “mastigado” e com o briefing do cliente. As ideias aparecem, mas muitas vezes não conseguimos executá-las por direcionamento. Mas inspirações têm que ser sempre passadas a diante e trabalhar na base do "vai que cola". Afinal, assinar 100% um trabalho como fiz na minha exposição Old Boys em parceria com a Axe Matte Effect, linha de pomadas de cabelo da Unilever, é muito gratificante. Desde a ideia inicial, equipe, local, estilo, modelos etc. Isso é genial e gratificante pelo cliente confiar em você de olhos fechados.

O que te incomoda e instiga na fotografia comercial? O nome comercial já diz: comercial = comércio = tem que vender. Há um limiar muito tênue até onde podemos chegar entre o conceitual e o comercial e acredito que esse seja o meu dever quando estou envolvido em um projeto. Entregar o que o cliente espera versus assinar um trabalho legal com um conceito por trás. Esse é o ideal! Fazer algo conceitual, podemos fazer todos os dias em trabalhos pessoais, mas quando há cliente, temos que dividir as opiniões e chegar em um resultado como sendo uma sociedade na ideia e no resultado final. Ou seja, quanto melhor a relação com cliente, sempre o prazer será maior em entregar um trabalho bonito e bem feito - para ambas as partes.

Como surgiu esse projeto Gujarat de fotos na Índia? Agradeço muito à minha mãe Thereza por ter me passado bastante o seu amor pelo universo étnico, o que envolve as minorias, esteja ela onde estiver. Já passamos por Etiópia, na região do vale do Omo na fronteira com o Quênia, ilhas remotas da Indonésia, Papua Nova Guiné e no ano passado, fomos à Índia. Todas essas viagens são idealizadas por ela e vamos juntos explorar esses lugares que mal recebem turistas, em um estilo National Geographic. Lugares incríveis e com culturas que a cada ano vão se acabando com esse processo que estamos vivendo de homogeneização do mundo, trazidos pela globalização, onde tudo está ficando igual. O mesmo carro que temos aqui, está na Alemanha, os mesmos restaurantes em grandes redes em vários países etc.


Gujarat é o nome do estado onde foram feitas as fotografias do projeto que carinhosamente intitulei Gujarat como uma homenagem ao que a viagem de 15 dias de carro me proporcionou e mostrou. Um estado lindo e rico em diferentes aspectos. Foi lá que Gandhi nasceu e há bastante mistura de religiões por fazer fronteira com o Paquistão e abrigar um dos maiores e mais importantes tempos Jainistas, religião pouco conhecida, mas de muitos devotos na região.

Um velho ditado já diz: é em viagens de carro que definidamente conhecemos um país. Foi essa a experiência que tive. Todos os dias fazendo longas viagens de carro junto com minha mãe, um motorista e um guia. Afinal, não dá pra se perder por lá como fazemos na Europa ou Estados Unidos, onde tudo é calculado. Lá tudo pode acontecer e isso que é incrível! Você nunca sabe o que esperar, o que comer e o que encontrar, ou seja, é tudo novidade para olhos “famintos” por imagens lindas. 

A cultura de barba e bigode é muito grande por toda a Índia, mas em Gujarat vi barbas que não imaginava ver, além dos Rabaris, povos nômades que cultivam seus longos e curados bigodes e seus brincos em ouro 24k. Enxerguei aquilo e logo me veio a ideia de fazer os detalhes como estão nas fotos, ainda mais com essa cultura de barbearia que tem crescido tanto no Brasil, principalmente por influência americana. Depois dos longos dias na India, Alberto Hiar e Marinho da Barbearia Cavalera compraram a ideia e fizemos a coisa acontecer em uma noite com mais de 300 convidados.


Pode-se treinar o olhar para se tornar um bom fotógrafo? De que forma? Sou da teoria que nascemos sem saber de nada. A partir de seu background, de sua educação e, principalmente, o estilo de seus pais, a coisa vai tomando forma ao longo dos anos. Como disse acima, agradeço muito à minha mãe por ter conseguido passar esse carinho e valorização da cultura étnica. O treinamento vem depois com as leituras, as referências em livros, filmes e o mais importante, a vontade de fazer acontecer. Pegar uma referência e trabalhar em cima, tentar chegar perto daquilo que você achou muito legal… E por ser algo criativo, a coisa vai longe e não tem fim. Quando você consegue chegar a um resultado que você almejou, a cabeça vai mais longe e você começa a ter ideias, misturar referências, estudar cada caso, lembranças de uma infância criativa e todos esses detalhes que da mesma forma que aparecem de graça em seus pensamentos, podem ir embora rapidinho. Então anote tudo, estude, assista a muitos filmes e por ai a coisa vai tomando corpo. Converse também com seus amigos, mostre o que tem feito, receba críticas, mas se elas não forem positivas, não baixe a cabeça e continue até chegar a críticas positivas! Isso não é uma fórmula, foi só a forma com a qual eu aprendi.

Quem são seus ídolos na fotografia? Na moda, Helmut Newton é genial! As formas, os corpos e como ele abordou em uma época ainda muito “fechada”. Steve McCury e Sebastião Salgado também quando falamos de fotografias de minorias e do trabalho documental de ambos. Por se falar de minorias étnicas e com o processo de homogeneização que estamos passando, essas fotos vão servir como documento no futuro. As culturas estão perdendo sua essência e um dia irá acabar. É o caso dos índios aqui no Brasil e o que Orlando Vilas Boas dizia "O índio só pode sobreviver dentro de sua própria cultura”. A ideia é retardar o contato dos índios com os homens, pois o contato com o homem branco será um processo natural, e por fim, uma mistura que não imaginamos qual será o resultado, mas já temos um “cheiro” do que vem por ai.

Qual sua próxima viagem fotográfica? Ainda não há nada marcado, somente planejado. A região de Orissa na Índia é uma possível viagem, mas antes dela, queria explorar mais o Brasil, principalmente o Parque Nacional do Xingu no Mato Grosso, além de Chile e Bolívia. Vamos abrir o mapa e ter mais ideias! 


Quer conhecer mais do trabalho de Victor? Clique aqui.

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