quinta-feira, 12 de setembro de 2013

MUSA: Karen Brusttolin, a bela atriz revelação de Flor do Caribe

A princípio, pensei em fazer essa entrevista por e-mail, mas resolvi conversar pessoalmente. Já fazia um final de tarde típico com calor e caos no trânsito. Chegando ao seu prédio, meu sorriso voltou. Acolhida e carinho é o que Karen tem de sobra. Todo resquício de qualquer coisa desagradável se dissolve, ao ser recebida por ela. Sua casa é seu reflexo. Tudo claro, predominando o branco. As cores estão nos detalhes. Ela logo pergunta o que quero beber. Me oferece suco, água ou vinho tinto. É tudo tão simples e ao mesmo tempo tão elegante. Assim é Karen Brusttolin. Confesso que fiquei receosa de conduzir esse papo. Afinal, trabalhamos juntas e somos amigas. Ela é dona de uma presença diáfana, porém forte e marcante. Uma pele linda e um olhar curioso, que parece adivinhar. O sorriso é aberto e generoso. É um poema, pois cativa, emociona. Ela se destaca de todo o estereótipo de sua geração. Uma geração muito óbvia e padronizada. Discreta e com personalidade diante da vida, sabe se posicionar em dizer o que quer e o que sente sem magoar ou ofender. Tudo que conquistou é fruto de muita batalha. Seu dia a dia é frenético. Acumula funções e sabe lidar de forma harmônica com tudo isso. Já à vontade e mais relaxada depois da doce recepção, aproveitei para perguntar sobre sua rotina. “Meu dia a dia é uma loucura. Não tenho rotina e programo meu dia seguinte sempre antes de dormir. Tenho que dar conta de muitas coisas! É preciso ser muitas Karens e ter muitas horas, hahahaha!”, diz a atriz, que se divide entre a Karen prática e a lúdica. “Karen prática é quando eu tenho que ter uma espécie de “olho de tigre” para sobreviver, resolver os problemas nessa “selva” que vivemos. Já a Karen lúdica é quando estou no playground da vida me divertindo, fazendo as coisas que amo”.

Gestos nobres envolvem toda a trajetória dessa atriz nascida em Campo Grande (MS). Comprometida profissionalmente com a moda através da consultoria de estilo e da profissão de figurinista, enxerga no seu trabalho como atriz, apenas mais um caminho para expressar a sua arte. Ela costuma dizer que há arte em tudo que faz. “Arte é quando eu coloco meu processo criativo, a minha assinatura como artista independente de onde for. Então, pode ser atuando, fazendo figurino, até mesmo fazendo um jantar para os amigos”.  Nessa noite me serviu uma sopa deliciosa com torradas integrais. Temos em comum o gosto pela alimentação saudável. Ficamos horas conversando sobre nossas vidas, últimos acontecimentos, moda, arte. Sempre a arte bem perto da vida de Karen. Aliás, ela permite a ilusão de poder viver outras vidas? “Acredito que possuímos várias possibilidades de personalidades e desenvolvemos mais algumas coisas do que outras. Quando atuo procuro me colocar naquela situação, só assim acredito chegar numa verdade cênica e conseguir saborear a existência do desconhecido dentro de nós através de um personagem. “Mas você já esta me entrevistando?”, pergunta rindo. Digo que sim, pois prefiro que nossa entrevista seja um bate papo informal. Sempre muito antenada, Karen não perde tempo e dá sua opinião sobre moda, relacionada com internet, blogs e redes sociais. “Com a globalização, acho que muitas culturas perderam um pouco de sua unidade, de sua diferenciação. Hoje quando viajamos para outro país não sentimos tanto estranhamento no vestuário, porque se tem mais acesso a tudo e o modo de se vestir se tornou mais uniforme.”


Sei que a leitura é um hábito em sua vida e que adora Manoel de Barros, poeta mato-grossense. Além de terem nascido no mesmo estado, ele também  é simples e forte, exatamente como esta jovem atriz, que traz nas veias o hábito pela leitura. “O Teatro me incentivou ainda mais a ler. Antes eu lia menos, mas até para dar as intenções do texto acho a leitura fundamental. E não foi só o teatro, mas o contato com a arte em geral que me fez ter outro olhar para o mundo”.

Com seu jeito especial de ser, Karen gosta de se aprofundar a cada personagem que recebe. “Acho que o estudo é fundamental para qualquer pessoa, mas não se pode ficar só dentro de um livro. Esse intelecto tem que ser aplicado na vida, no cotidiano. Eu estudo há três anos filosofia e psicanálise com meu coach. É um café filosófico semanal muito prazeroso. Como minha paixão é a linguagem corporal, sempre começo a construção do personagem pelo corpo. Com isso, tenho que ter uma boa preparação física. E depois vou ajustando”, define Karen, sempre disposta não só a estudar, mas a se dedicar a um novo papel. “Decisão, disciplina, ser cara de pau, não ter pudor de si mesmo, ser generoso consigo mesmo.”

E, como disciplina me remete a uma boa educação, um atento aprendizado, pergunto sobre seus pais. “A família é a minha base! É tanto amor, admiração, gratidão por eles! Eu sou a pessoa que sou hoje por causa deles, que me ensinaram a conquistar a minha própria liberdade e a lutar por aquilo que acredito. Sempre foram muito generosos, calorosos, amáveis. Sou muito, mas muito apaixonada por eles e agradeço ao universo por ter uma família como a minha. É o meu chão”, confessa Karen, que se emociona e volta no tempo, lembrando da menina que brincava nas ruas de sua terra natal. “Quando lembro da minha infância, penso no cheiro da terra molhada pela chuva, de pegar manga na casa do vizinho, fazer bolo de barro, boneca com espiga de milho, acordar na Páscoa e seguir as pegadas feita de trigo até encontrar o ovo escondido. Era uma criança sonhadora! Criava mundos lúdicos, fui uma moleca, num tempo em que tudo parecia mais simples e infinitamente mais alegre”, recorda Karen.


Com essa resposta lembro de uns versos do poeta seu conterrâneo, Manoel de Barros: “...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”. Karen me transmite esse encantamento pela vida. Mas, voltando ao poeta, em seu livro infantil Memórias Inventadas, ele diz com sabedoria: “...cresci no chão, brincando entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação”. Cada vez mais vejo um paralelo entre autor e atriz. E entendo a razão da admiração de Karen por este maravilhoso e habilidoso poeta das coisas simples. E, se ele costuma dizer que não teve uma infância peralta, como gostaria, como terá sido a infância dela? “Também não tive uma infância peralta. Tinha uma agitação, uma inquietude como toda criança, mas era muito doce e tranquila (essas são as palavras dos meus pais). Lembro de uma vez em que eu defendi meu irmão mais velho numa briga de colégio, acredita? Aliás, eu era bem menor do que sou hoje (a atriz tem 1,60m). Ele morreu de vergonha e ficou um mês sem falar comigo direito, mas me senti uma heroína”, Diz a atriz, que traz da infância sua principal característica. “Da menina Karen, tenho a minha espontaneidade”.

Na pele de Nina, na novela Flor do Caribe, Karen Brustolin transmite leveza e naturalidade a sua primeira personagem fixa na tv. Nina é alegre, extrovertida e parece estar sempre de bem com a vida. Quando assisto suas cenas, há algo que me lembra minha amiga. Seu sorriso esta lá, sempre pontuando cada movimento. Apesar do papel ser pequeno, ela é cativante e marca quando aparece. Como faz no seu dia a dia, ela transborda alegria. Mas, afinal de contas, qual sua contribuição na construção da personagem? “Um jeito menina, moleca lá do interior que estava adormecido. E com a Nina, vou buscando e praticando o desapego, o que considero muito importante”, analisa Karen.

E, como não poderia deixar de ser, nosso papo vai para as coisas do coração. “Como já disse em algumas entrevistas, ninguém é de ninguém. Eu parto deste principio. Você não é meu namorado ou marido ou amigo. Você “está sendo”. Somos carentes de dar e receber amor, mas eu não posso obrigar a pessoa a me amar.  O verdadeiro amor reside no respeito à individualidade do outro”, afirma com propriedade.

“O mundo nos cobra e não é só a imprensa. Até a minha vizinha me cobra. Isto tem a ver com a moral implantada pela nossa herança cultural, mas eu tento levar numa boa, às vezes eu falo pra mim mesma: Ai, que preguiça deste ser humano!, mas não sofro com isso”.  Como adoro falar de amor e sei que Karen não tem problema para falar a respeito, resolvo investir no assunto. Como seria o melhor programa a dois? “Ficar em casa bebendo vinho...”. Sim, e o que deve ser banido em um relacionamento? “A falta de respeito, esquecer quem você é...”, afirma a jovem romântica, que concorda em parte com Arnaldo Jabor, quando ele afirma que “amor é bossa nova e sexo é carnaval”. “Concordo, dependendo da minha fase  de vida. Às vezes pode ser "Sexo é bossa nova" e "Amor é carnaval. Ah, e anota aí. Um homem tem de ter humor...”, ressalva.

Karen não concorda com o poetinha Vinícius, de que beleza é fundamental. “A beleza estética pode facilitar no primeiro instante, mas o que conta pra mim é mais o intelecto e a beleza interior, nunca fui de me interessar a longo prazo por pessoas esteticamente perfeitas”, explica a bela atriz. E, com certeza, beleza não é problema para essa moça. Sua estética de traços fortes e precisos, deixa qualquer pessoa à vontade para pesquisar o seu interior. A sua beleza é um convite, pois chega de forma doce e linda àqueles que desejam conhecê-la melhor. A sua chegada vem sempre muito bem acompanhada de frases gentis e doces. Parece que o tempo todo ela está te dizendo o quanto você é bem vindo e importante. É justamente assim que a gente se sente perto da Karen: importante. Ela presta atenção, te escuta e fala mansinho. O que mais gosta de dizer aos amigos é “que seja doce”, como disse Caio Fernando Abreu: ““Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim, que seja doce.. repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”

+ Karen na matéria (completa) da edição impressa número #6

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