sexta-feira, 2 de novembro de 2012

ENTREVISTA: Nico Puig, o "anti-galã" da TV e seu poder transformador através das artes‏

Foi na série Sex Appeal que o ator Nico Puig fez sua estréia na TV, mas foi como o vilão de Olho no Olho que Nico atraiu a atenção do público e da crítica. Usando o estilo “anti-galã” à seu favor, Nico seguiu sua carreira transitando entre grandes vilões da TV. Hoje já um homem maduro e ciente do poder transformador que a arte, em todos os seus aspectos, pode exercer sobre o cidadão e sua sociedade, Nico ativou sua veia artística focando na arte de transformar o “lixo”, e tem conseguido fazer disso uma poderosa arma para expressar sua forma de pensar. Para quem não acompanhou Nico em seu início de carreiro ou não tem tido acesso à suas atividades atuais, a MENSCH foi conversar com ele e entender um pouco mais sobre liberdade, vaidade, TV e o poder transformador da arte.

Você surgiu na TV interpretando um vilão em Olho no Olho (Globo) e muitos trabalhos depois, interpretando vilões, você chegou até um militar meio nazista em Amor e Revolução (SBT). A que você atribui tantos vilões? É uma preferência sua ou foi pura coincidência? De fato minhas personagens em sua maioria são vilões, mas no começo fiz vários personagens bons. Meu primeiro trabalho na Globo, fazia o Tony de Sex Appeal, pugilista médio ligeiro que se tornava modelo para se aproximar do universo de sua pretendente Angel, interpretada por Luana Piovani. Antes disto fiz “O Grande Pai”, no SBT, também com uma personagem do bem, e depois do Fred de “Olho no Olho”, e do bad boy da “Malhação”, fiz na Record 3 personagens do bem, em “Direito de vencer”, “Canoa do Bagre” e “Estrela de Fogo”. Mas de fato no retorno ao SBT minhas 4 ultimas novelas foram uma sequencia de vilões, “Pequena Travessa”, “Seus olhos”, “Maria esperança” e “Amor e revolução”. Não é uma preferência em particular, mas confesso gostar de trabalhar o sub-texto deste tipo de personagens que falam uma coisa querendo dizer outra. Quase sempre multifacetadas e sinuosas.

 

Digamos que você seja o anti-galã? Não ter cara de bonzinho já ajudou ou atrapalhou? Nunca parei pra pensar nisto. Sou consciente que não sou o típico galã. Não confiro o padrão, mas nada me impede de fazê-lo, caso caiba a personagem no meu biótipo, mas confesso que o publico gosta de me ver fazendo vilões, e eu também me divirto.

Ter vivido um torturador político em “Amor e Revolução (SBT) te fez ver com outros a política e o sistema militar de modo geral? Nasci em 72, no meio dos anos de chumbo no Brasil, nada me foi passado na escola sobre a época da Ditadura, mas lembro das restrições em relação a músicas que não podíamos cantar a tensão mediante alguns assuntos entre os adultos da época. Em convite da produção da novela, comecei aprofundar o assunto. Fui pra Cartagena das Índias, onde se tem uns dos maiores museus de instrumentos de tortura. Fiquei em choque mediante tanta crueldade. Assisti filmes que abordavam o tema; Ler livros e perceber que o nosso país é o único que ainda joga a sujeira pra debaixo dos tapetes ou guarda em gavetas fechadas, e sem chaves para abri-las. Circulamos em meio a torturadores que se favoreceram com a Anistia de 79, colocando eles confortavelmente ao esquecimento de seus atos e em meio à nossas vidas desinformadas, nos esbarrando uns aos outros numa sociedade que deleta seu passado como se nada tivesse acontecido. Emburrecendo a nossa história e o nosso povo, assim segue a cartilha, nosso cenário político, onde o que se faz, não se paga!

Você se diz à favor da liberdade de expressão, mas já pensou em algum momento que a TV deveria ter um limite? Algum tipo de censura por conta de alguns programas? Sou contra a censura e à favor da orientação a que público se dirige o livre arbítrio. Mas com discernimento por conta dos mais velhos em relação aos mais jovens, acesso a uma boa educação que dê suporte a uma orientação adequada... E bom senso, claro.

Qual o pior lado da TV? E o que ela traz de positivo? O pior lado é a manipulação das massas. O positivo, é a ponte do interessado a informação, cultura, conhecimentos gerais...etc. Enquanto uma árvore cresce em sentido ao céu, suas raízes crescem em sentido oposto, acho natural o mesmo acontecer a TV.

Para você quem influencia mais sobre o futuro de um ator na TV, a crítica do jornalista, o gosto do telespectador ou o interesse da emissora? O pacote mágico com uma pitada de carisma. Fecha com laço de ouro, (risos). Tudo depende de certa hora, um certo local, e uma certa luz. Não fosse assim, seria diferente, mas o que de fato influencia o futuro de um profissional, seja em que área ele estiver, é sua certeza de que é aquilo que ele quer fazer. Focar e ir de encontro, se deixar levar sonhando sempre. E entendendo que: êxito pessoal é distinto de reconhecimento social, mesmo por que, no caso de atores, caso a emissora não se interesse, existe teatro e cinema, telespectador pode te amar hoje, odiar amanhã e esquecê-lo pouco tempo depois. Quando se está fora do ar, e em relação a críticos. Alguns eu respeito; Mas tem outros que são como eunucos num harém, sabem como se faz. Vêem sendo feito todos os dias; Mas eles próprios, são incapazes de fazer.

Você acha que o futuro da TV aberta é focar cada vez mais no popular para conquista (e manter) o público? Focar no popular não é problema se for a fim de educar e orientar. Abrir perspectivas novas e impulsioná-lo a uma linguagem mais elaborada ou intelectualizada oferecida pelos canais fechados, vai do interesse de cada qual, não podemos dar um passo maior que nossa perna e o leque de opções têm que atender a todos os níveis que uma sociedade dispõe.

Quem tem o poder transformador é o público sobre a TV ou o contrário? É cíclico. Por vezes a TV impera trazendo novidades em larga escala, mas o poder do grande público também modifica o preestabelecido.
 
 

Soube que você gosta de fazer arte com "lixo". Como surgiu isso? Desenvolvo um trabalho de reciclagem e releitura transformando o que pra muitos e tido até então como lixo. Me aproprio deste material e faço dele uma nova possibilidade de uso. Cansado do desperdício e da desenfreada maquina de produção compulsiva que nos vicia neste consumismo doente.

Existe alguma intenção de trabalhar a arte com lixo por conta da sustentabilidade? Sustentabilidade é a palavra da moda no momento (risos). Pra tudo hoje em dia se usa o termo, mas de fato vou de encontro a ela com este meu trabalho, mas não fica só nisso, exercito o olhar transformador. Busco estimular isto aos olhos de quem vem de encontro; Sugerindo um resgate de valores.

A arte da dramaturgia que te levou a isso ou já existia em você essa vontade e interesse? A Dramaturgia me levou ao mundo da cenografia, que talvez tenha me inspirado em muitos aspectos, mas a vontade de trabalhar minha criatividade com este tipo de material veio muito em função da necessidade de me adaptar a realidade que me assistia no momento, transformar um berço de hospital em uma namoradeira de jardim, por exemplo. Foi muito mais pela necessidade do que qualquer outra coisa. A adversidade estimula a criatividade. Faz agente trabalhar a mente fora de uma área de conforto.

Somos um país que prestigia a arte? Como você vê o panorama artístico nacional? Eu vejo um país bastante interessado na arte, mesmo mediante a falha na educação, alimentação e saúde, afinal, sem este trio básico fica difícil esperar mais do nosso povo. Já muito deixado de lado ao longo dos anos, mas que demonstra um interesse por sua cultura local diversificada e um respeito por suas origens múltiplas. Me sugere um pais interessado sim, poderíamos melhorar? Claro! Mas lembrando do trio básico.

O que te envaidece mais como artista e como homem? Enquanto Artista, a realização de um trabalho pleno, consistente, que agregue a quem se dirige, e pessoalmente a mim. Agora como Homem, exercitar as qualidades que te fazem sê-lo: caráter e honra.

Por falar em vaidade, como você está lidando com ela com o passar do tempo? Tem se cuidado mais ou menos agora aos 40? Digamos que antes, quando jovem era escravo de um padrão imposto. Hoje ele se tornou meu subalterno. Vaidade de fazer bem feito seja lá do que for. E não necessariamente ser perfeito a qualquer tipo de padrão.
 

Qual seu estilo em vestir? Básico. Jeans, camiseta, tênis, bermudão, chinelo... Enfim, hoje tô mais pro largado do que pro preocupado.

O que mais admira nas mulheres? O Universo que as cerca. Seus anseios e atuais conquistas. Estas maravilhosas máquinas humanas que nos colocam no mundo e nos faz seduzir ou ser por elas seduzidos. Mães, mulheres, amantes, parceiras, amigas...e outras mais que ainda estão por vir.

No futuro você pretende ser mais ou ter mais? O que você quer pra ele? Quero uma casa no campo, do tamanho ideal e que tenha somente a certeza, dos amigos do peito e nada mais.
 

 
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Um comentário:

  1. Gostei, boa entrevista, coerente e sensata. parabéns e sucesso.

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