quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CRÔNICAS & INDAGAÇÕES: Casa de Solteiro‏

Quando a gente é criança, as mães agem como uma espécie de caminhão de lixo que não tem horário de trabalho, nos seguindo por todo lado, recolhendo as nossas porcarias infantis, arrumando nossa bagunça e ainda distribuindo amor materno a cada parada (ou tabefes, no meu caso). Quando a adolescência chega, as genitoras, já exaustas de tanto descer o cacete em um marmanjo mais alto do que elas, apelam para outra tática: o olhar magoado. Essa arma faz o mais perverso dos filhos sentir uma pontada no peito, transformando estagiários de Satanás em meninos dóceis e moralmente derrotados. Não forrou a cama imediatamente? O olhar. Comeu e não lavou os pratos? O maldito olhar novamente. Promoveu uma festa regada a Rum Montilla e Batatuxa, com a presença da vizinha de fama mais suspeita do bairro, vomitou na papoula favorita da sua mãe, entupiu a privada com camisinhas usadas e ainda foi descoberto na manhã seguinte enrolado no tapete de entrada do apartamento do síndico militar? Pois é. Mas chega de falar de mim. O que quero dizer é que conheço homens que, depois de um olhar particularmente sentido de suas mães, largaram tudo e viraram monges em alguma montanha esquecida, fazendo votos eternos de limpeza constante e imediata.

Quando o macho cresce um pouco mais e decide morar só, a coisa muda de figura. Sem a vigilância materna, a tendência é que a casa vire uma filial do lixão mais próximo. Vejam bem, não é falta de higiene pessoal. Eu mesmo tomo banho todo dia. Mais ou menos. No verão. Enfim, fica difícil interromper o campeonato de Fifa 2013 (versão vazada, Messi na capa) por ninharias como colocar o lixo para fora. E daí que a disputa já se arrasta há três semanas? A Guerra Fria durou muito mais e todos temos prioridades diferentes. Na verdade, é tudo uma questão de otimizar a limpeza, transformando seu cotidiano em pequenos atos de faxina. Escovar os dentes e cuspir na pia? Para quê? Emporcalha a louça e toda aquela saudável mistura de sabão azulado e baba se perde. Em vez disso, use a privada e dê uma levíssima descarga, apenas para espalhar a sopa e dar aquela aparência de asseio. Também não é preciso lavar o box, basta manter uma boa vassoura de piaçava dentro dele e jogar para o ralo o excesso de sujeira que, provavelmente, já virou uma pasta marrom composta de cabelo, pele morta, insetos variados e o bom e velho grude corporal. É interessante não permitir que a lama alcance o meio das canelas, mas caso isso aconteça, também não é preciso entrar em pânico. Que homem, afinal de contas, se lava dos joelhos para baixo?

Já nem lembro mais a cor do meu assoalho, apenas tenho o extremo cuidado de não deixar cair nada nele. Absolutamente nada. Qualquer coisa que entre em contato com o piso do meu apartamento sem um EPI pode, automática e imediatamente, ser considerada morta/decomposta/grávida/amaldiçoada pelo cão. Tudo ao mesmo tempo. Dentro de casa, circulo de botas e vou dormir do mesmo jeito, com medo de, sonolento, colocar os pés no chão de manhã e ter que recorrer a uma amputação de emergência. Às vezes me pergunto o que vou fazer quando os vizinhos descobrirem que o mau-cheiro da rua não se origina da fossa aberta na esquina.


Sei que já tive um gato de estimação, mas o bicho sumiu faz uns três meses e, francamente, não tenho coragem de tirar o sofá do lugar para procurar. Há coisas ali que nenhum ser humano deveria ver. No lugar do felino, agora crio lagartixas. Três delas, cada uma com o nome de uma ex. São simpáticas, independentes e caçam as baratas que teimam em passear pela minha louça. As lagartixas, não as ex. Essas não aparecem por aqui. Não sei bem o porquê, mas algumas delas resmungaram algo sobre “desilusão”, “insalubridade” e coisas semelhantes. Aliás, a única presença feminina no meu apartamento é a da minha mãe, a cada seis meses. Semana que vem é dia de visita da velhinha, que passa metade do ano praticando o olhar da decepção. Hora de virar um homem de verdade, assumir minhas responsabilidades, colocar a mão na massa e dar um jeito nessa birosca que virou a minha casa.

Amanhã mesmo eu entro em contato com uma faxineira.


Acompanhe a MENSCH no Twitter: @RevMensch, curta nossa página no Face: RevMensch e baixe no iPad, é grátis: http://goo.gl/Ta1Qb

11 comentários:

  1. Adorei a crônica. É certo que hiperbolizada, mas tem seu ar de verdade. Parabéns, você é um ótimo cronista

    ResponderExcluir
  2. E aí? Já contratou a faxineira?

    Legal conhecer um pouco do universo masculino sob a ótica hiperbólica de um bom cronista.

    Rachel Morais

    ResponderExcluir
  3. o exagero é um dos caminhos do surrealismo, e o surrealismo é um dos caminhos da verdade. muito bom, Fred.

    ResponderExcluir
  4. Muito bom! Que venham outros textos! Eita! Faltou por mais uma palavra aqui, já que eu vi que está na moda dos comentários acima: hiperbólica.

    Mauro.

    ResponderExcluir
  5. Velho, ligue pra Audenir. Se teu apto é realmente tudo isso que tu diz, a faxina dela é sobrenatural. Qualquer coisa, eu tenho o fone dela.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. o comment acima foi meu.

      Gustavo C.

      Excluir
  6. EHEHEHE MASSA!

    Marcelo Brasileiro

    ResponderExcluir
  7. Que nojo! cara! Toda hiperbole tem um "q" de verdade...

    ResponderExcluir
  8. kkkkkkkkkkkkkk.. ri horrores!! mto bom fred! parabéns!! =D

    ResponderExcluir
  9. Menino vc era cruel! Mais de fato mostrou td sua realidade. :)
    Texto muito bom; Bem,quero dizer excelente.
    Mais fica a dúvida para alguns leitores: " todo conteúdo escrito normalmente não tem nada a ver com a autor, porém esse pode se dizer que foi o contrário?"
    Enfim, parabéns! é um excelente texto, só fiquei com dó de sua Mãe, suas ex (as lagartixas)e sua namorada! Amiga reza! rsrsrs ;)

    ResponderExcluir
  10. Não seria Frederico de Oliveira Toscano se não houvesse exagero!
    Muito bom, Fred!
    Eva S.

    ResponderExcluir