segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Diário de Bordo: Oman, uma experiência oriental‏

Comer sem talher, usando apenas a mão direita, sentado no chão, em um tradicional almoço familiar, aprender a prece muçulmana com um novo amigo local e experimentar vestir-se como um árabe omani, foram algumas das fortes e ricas vivências que tive nesse incrível país ainda pouco visitado pelo mundo, mas que certamente em pouco tempo será um disputado destino turístico. Oman é um país muçulmano, vizinho aos Emirados Árabes com uma população de 3,1 milhões. A capital, Muscat é uma das cidades mais antigas do Oriente Médio fundada no século II d.C.
 
O LUGAR, A GENTE, OS CONTRASTES
 
Fiquei surpreso com tantas construções por toda parte da cidade e funcionando 24h por dia. O ritmo de crescimento parece frenético. Apesar do clima seco e da cidade ser circundada por montanhas rochosas e desérticas, existem muitas, mas muitas flores e jardins. O mar azul turquesa numa baía cheia de casas e construções brancas salteadas por mesquitas, e seus minaretes (torres das mesquitas), faz de Muscat uma cidade de surpreendentes e lindos contrastes. Os Omanis, moradores locais, são um capítulo à parte. Seguramente posso falar que, de todos os países que já visitei, nunca fui recebido por um povo tão hospitaleiro e simpático. Foi marcante um dia em que estava fazendo uma filmagem com o meu grupo numa rodovia a uma hora de Muscat, no meio do deserto e queríamos filmar o asfalto e o céu estrelado. Tinha de ser numa pista de pouco movimento, então descemos o carro num barranco fora da pista para apontar o farol e iluminar. De repente passou um carro, parou a 100 metros, fez o retorno e entrou na estrada de barro saindo da pista pelo barranco até estacionar próximo a nosso carro. Eram nove da noite e nós, cinco estranhos numa rua desértica. 
 
O árabe veio até a gente vestido com sua dishdasha, a roupa típica de Oman, e após perguntar se havia algum problema, o que estava acontecendo e se precisávamos de ajuda, falou que estávamos muito longe da cidade e se não tivéssemos onde dormir poderíamos ir para sua casa. Não acreditei que aquele homem, num carrão importado, parou para ajudar cinco estranhos numa pista de alta velocidade, na calada da noite, sem nenhuma iluminação e ainda oferecia sua casa como hospedagem. Explicamos que tínhamos hotel e ele se despediu. Logo após, sem exageros, a cada cinco minutos passava um carro e o ritual se repetia. Dava meia volta, alguém descia, oferecia ajuda e hospedagem. Aconteceu seis vezes mais.

Uma das paradas foi hilária: o motorista não falava inglês e queria muito ajudar e entender o que acontecia com a gente, então ligou pra esposa, que falava inglês, pra que traduzisse tudo pra ele. Depois, quando foi embora, percebemos que a esposa estava dentro do carro, falando de lá (risos).
 
 
 
Muscat tem vários pontos turísticos interessantes: o impecável e colorido palácio do Sultão Qaabos, a orla da cidade com um lindo visual do mar arábico e das montanhas no horizonte, a Grande Mesquita (uma das maiores e mais luxuosas do mundo), assim como varias outras menores, o Mutraq Souq, o mercado típico árabe cheio de especiarias, tecidos, ouros, jóias e couros a preços ótimos. Há ainda passeios fora de Muscate, como uma ida ao deserto, andar de camelo, visitar oásis e cavernas. Para a prática de esportes há paragliding, trilhas, caiaques etc.

COMER, REZAR E AMAR ESSE LUGAR
 
À parte desses maravilhosos programas, vou me concentrar a escrever sobre o dia em que tive uma incrível experiência antropológica. Conheci o Hamed Al-Aufi, um Omani de uma família tradicional, que terminou sendo o melhor anfitrião que eu poderia ter tido na viagem. Extremamente simpático e solícito, Hamed me levou ao mercado para ajudar a comprar uma dishdasha, a típica roupa que todos os Omanis usam diariamente. Curioso que por baixo da dishdasha, a cueca usada é um pano de algodão enrolado na cintura que fica parecendo uma saia por dentro. É tanto pano, longo até o pé, que os homens não fazem xixi em pé e sim agachados.
 
 
Depois, o Hamed me convidou para passar dois dias no vilarejo onde moram seus pais, em Wadi Bani Awf, a duas horas de carro de Muscat, pois eles queriam me receber. Chegamos próximo à hora do almoço. A alegria e calor com que fui recebido foi a mesma de um reencontro de velhos amigos. Foi lindo. Acho que vieram umas vinte pessoas entre irmãos, tios, tias, primos, primas e amigos. Os homens comem separados das mulheres quando a família recebe visitas. O Mr. Yacob, tio do Hamed, com quem ele trabalha em Muscate, apareceu de surpresa. Fiz a maior festa quando ele chegou, pois já o conhecia do escritório do Hamed. Ele disse que fez um esforço em aparecer para participar da minha interação com as pessoas no almoço.

Entramos na sala de jantar, sapatos do lado de fora e todo mundo sentado no chão com uma forma de sentar apropriada. Estávamos todos usando a dishdasha e que alegria a deles ao me verem vestido. Repetiam que eu não fazia ideia do orgulho em verem um ocidental usando uma dishdasha e interessado na cultura Omani. Chegaram os pratos. A refeição, o ato de comer, é um momento muito importante e respeitado. Por isso há uma forma de se sentar que significa postura de respeito e reverência à comida. Na mesa tinha: uma salada de espinafre, uma tigela enorme de um arroz bem temperado, batatas cortadas e avermelhadas por um tempero e cordeiro em pedaços. Havia ainda um molho verde cremoso apimentado e outro menos, com pedaços de coco, tudo preparado pela mãe.
 
 
Eis que surge um desafio: comer com a mão direita. A esquerda é considerada impura e não deve tocar na comida. Foi difícil cortar os pedaços do cordeiro só com a mão direita e às vezes vinha um impulso de usar a esquerda. O jeito foi colocar a esquerda embaixo do joelho, pra prendê-la! (risos). O Hamed me explicou que os quatro dedos em forma de concha são para pegar a comida e o polegar para levar a comida da mão à boca. A sensação de comer sem talheres foi bem inusitada. Passei um pouco de aperto porque não paravam de colocar mais cordeiro no meu prato. Depois do almoço sentei ao lado do Mr. Mohammed, o pai do Hamed e conversamos muito. É um muçulmano bem típico, muito sábio, culto, viajado e fala cinco línguas, inclusive polonês, pois morou cinco anos na Polônia.

No inicio da noite pedi para o Hamed me ensinar a rezar com ele. Sempre tive curiosidade de entender um pouco do ritual da reza islã. Os muçulmanos rezam cinco vezes ao dia, sendo a primeira às cinco da manhã e a ultima após o pôr do sol. Fizemos antes os passos de limpeza: lava-se três vezes, só com água, a boca, dentro do nariz, o rosto, a cabeça, os ouvidos, o pescoço, as mãos, os braços e por ultimo os pés. Deve-se entrar na Mesquita assim, sem se enxugar. Na porta de toda Mesquita tem torneiras especiais pra esse ritual. Existe um respeito muito grande dos muçulmanos com a adoração a Allah. Não se pode rezar sem estar limpo. Depois de prontos, o Hamed me explicou os passos da oração e traduziu os trechos em que ele mais repetia, como “Allah you are great”, “Allah you are great, Allah you are great in my heart”. Eu não falei nada, já que era tudo em árabe, mas mentalizei e fiz os movimentos físicos junto, o de curvar-se, sempre voltado em direção à Meca e abaixar-se até tocar a testa no chão. Achei tudo muito forte.
 
Fiquei emocionado. São maneiras diferentes de venerar, mas o Deus é o mesmo. Estava do outro lado do mundo, com um cara de uma cultura totalmente diferente da minha, falando outra língua impossível de entender, mas senti a presença de Deus ali, forte, do mesmo jeito. Me chamou à atenção o fato de  rezarem não só com a mente e o coração, mas com o corpo também. É como se o corpo, com os movimentos, se conectasse com o espírito e tudo ficasse uma coisa só, presente, durante a reza. Foi também o momento de agradecer a Deus por ter colocado uma pessoa tão bacana no meu caminho e me proporcionar conhecer gente, que mesmo de um país distante (o mais distante de todos que já fui até agora), com referências culturais tão diferentes possuir afinidades a ponto de fazer surgir uma grande amizade. Para mim isso é uma das coisas mais bacanas numa viagem: criar laços e trocas pelo mundo.
 
Quem estiver a fim de ter uma experiência de viagem cheia de bagagem cultural e muita hospitalidade, Oman é um destino perfeito!
 
 
 
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